Por: Tiago Reis

Três empresas beneficiadas com a queda dos juros

Em busca de um crescimento mais acelerado, através de aquisições ou investimentos em novos projetos, muitas empresas costumam se endividar, justamente por acreditarem que os seus investimentos entregarão um retorno acima do custo daquele capital proveniente de dívida.

Infelizmente, por outro lado, nem tudo sempre segue como o planejado, e na prática, uma boa parte das empresas não consegue alocar esse capital de forma eficiente e rentável, o que acaba por prejudicar diretamente a rentabilidade da companhia.

Como a nossa economia é bastante volátil, cheia de altos e baixos, reflexo de alguns fatores como constantes instabilidades políticas, má gestão pública, e outros problemas estruturais, por exemplo, observamos crises econômicas e políticas com uma frequência relativamente alta, que naturalmente geram grande volatilidade, elevação de desemprego, inflação alta, dentre outros efeitos.

Como consequência a isso, muitas das empresas que se alavancam para investir de forma mais acentuada e acelerada, muitas vezes deixando totalmente de lado a prudência, acabam enfrentando pela frente um cenário muito mais difícil do que imaginavam, o que faz com que seus investimentos realizados não entreguem os retornos esperados, obrigando também a empresa a ser mais agressiva em descontos e promoções para gerar caixa “forçado” para cumprir suas obrigações, comprometendo as margens e levando essas empresas a uma situação complicada, além de ficarem com uma estrutura de capital comprometida, com elevados índices de alavancagem e uma posição de caixa desconfortável.

Para piorar, em períodos recessivos e de crises, é comum termos uma taxa de juros em tendência de elevação, o que acaba por encarecer drasticamente o custo da dívida para as empresas.

Ou seja, as alocações de capital realizada com os recursos provenientes do endividamento não entregam o retorno esperado, e ainda, o custo da dívida se eleva muito expressivamente, colocando a empresa numa grave situação.

Quando a combinação de excesso de dívida, recessão e a alta de juros destroem com uma empresa

Um exemplo legítimo de uma empresa que elevou demasiadamente sua alavancagem e acabou sendo gravemente prejudicada pela combinação dos fatores expostos acima foi a PDG (PDGR3), construtora atualmente em recuperação judicial.

Dentro de um cenário de “boom imobiliário”, e elevada concessão de crédito, onde os imóveis eram vendidos com facilidade e ainda se valorizavam de forma considerável, lá por meados de 2010 e 2011, a PDG, querendo “surfar” essa onda, resolveu acelerar seu plano de expansão e construção de projetos, e para isso, resolveu se alavancar de forma expressiva.

Podemos ver abaixo como a dívida líquida da empresa cresceu de forma muito relevante nesse período.

O restante da história fica fácil de saber, e com a grave crise que o país entrou, com a grande elevação dos distratos de vendas, e elevação das taxas de juros, a PDG passou a apresentar prejuízos constantes, até entrar em recuperação judicial.

A empresa, fruto dessa combinação catastrófica e uma gestão extremamente arrojada e nem um pouco prudente, viu seus papéis, que já custaram mais de R$ 450 (em termos ajustados), caírem e chegarem a menos de R$ 1,70, patamar atual que são negociadas as ações da empresa.

Queda de juros traz grande alívio para empresas endividadas

Para empresas alavancadas em geral, tanto as que possuem um endividamento mais elevado, quanto as que possuem menos endividamento, a queda nas taxas de juros traz um alívio imediato, ou mesmo uma sobrevida para aquelas extremamente alavancadas.

Como empresas alavancadas possuem uma expressiva despesa com juros, que muitas vezes consomem boa parte da sua geração de caixa operacional, quando as taxas de juros caem, geralmente também seguida pela queda dos índices de inflação, essas despesas com juros também caem de forma representativa, exigindo um menor desembolso com pagamento de juros por parte dessas empresas, o que faz com que sobre mais dinheiro para os acionistas, com uma melhora do resultado líquido.

Por isso, é muito comum que empresas alavancadas apresentem uma melhoria constante de resultados em períodos de queda nas taxas de juros, como os que vivemos atualmente.

Ainda, se a empresa for boa operacionalmente, possuir uma gestão comprometida, operar com margem Ebitda elevada, dentre outros fatores, o cenário de queda de juros potencializa ainda mais os seus já bons resultados, beneficiando e muito o desempenho da empresa.

É bom ter em mente também que nem sempre tomar dívida é ruim, e que nem todos os casos são de desastre como o da PDG, visto que muitas vezes as empresas conseguem de fato se alavancar para investir em bons projetos, que proporcionam uma boa rentabilidade e geram valor ao acionista.

Existem várias empresas que possuem um operacional bastante saudável, e que mesmo pagando juros relativamente elevados, e possuindo uma alavancagem considerável, continuam sendo lucrativas, mesmo em períodos de juros mais altos.

Além disso, empresas que conseguem realizar captações com custos atrativos, e em períodos de juros menores, conseguem uma grande vantagem neste aspecto, visto que precisarão desembolsar menos recursos para o pagamento dos juros do endividamento.

O fato é que, em períodos de queda de juros, essas empresas alavancadas acabam tendo um grande alívio, e para o investidor dessas empresas, torcer pela manutenção dos juros baixos faz total sentido.

Três exemplos práticos de boas empresas beneficiadas com a queda dos juros

Sabendo que a queda de juros acaba por criar um cenário mais atrativo para algumas empresas, potencializando o retorno dessas companhias, e tendo em vista que o cenário de juros baixos deve se prolongar pelo menos ao longo deste ano, resolvemos enumerar para os nossos leitores três empresas que devem se beneficiar diretamente da queda das taxas de juros e deverão apresentar resultados crescentes este ano.

Além disso, não escolhemos empresas que possuem uma operação questionável, que estão alavancadas e simplesmente deverão sentir efeitos positivos da queda de juros, mas sim selecionamos apenas empresas que possuem um operacional bastante saudável, que operam de forma rentável, possuem um balanço sólido, e que deverão apresentar uma performance operacional ainda melhor com a queda dos juros.

Na prática, as empresas escolhidas já são lucrativas – mesmo com juros altos – e a queda dos juros vem apenas para dar um complemento de rentabilidade para essas companhias.

TAESA S.A – TAEE11

A Taesa, empresa que atua no segmento de transmissão de energia e historicamente uma ótima pagadora de dividendos, é uma companhia que sente muito bem os efeitos positivos da queda dos juros.

Além do fato da empresa estar com uma alavancagem em queda nos últimos anos, fruto de sua forte geração de caixa, e capacidade de desalavancagem, a queda dos juros que incide sobre essa dívida acaba trazendo um grande efeito benéfico para os resultados da empresa.

No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, a empresa viu seu lucro crescer 7,9% em relação ao primeiro trimestre de 2017, atingindo R$ 217,3 milhões, sendo que boa parte desse crescimento veio da melhora do resultado financeiro.

IGUATEMI S.A – IGTA3

A Iguatemi é uma das maiores empresas do segmento de Shopping Centers do Brasil, com um portfólio de mais de 20 shoppings, que somam mais de 450 mil ABL própria Iguatemi.

Neste segmento, que exige grande volume de capital, justamente para as empresas construírem seus projetos ou mesmo expandirem os Shoppings, é muito comum as empresas operadoras e incorporadoras de Shoppings operarem alavancadas, e por isso, o Iguatemi é mais um exemplo de companhia que se beneficia diretamente da queda dos juros, tendo uma grande melhora em seu resultado financeiro e elevação de FFO (Geração de caixa operacional).

Apenas no primeiro trimestre de 2018, o lucro líquido do Iguatemi cresceu 14,8% frente o 1T17, e o FFO atingiu R$ 85,2 milhões, 10,5% acima do 1T17.

Avaliamos que o Iguatemi deverá encerrar 2018 com um bom crescimento de resultados, o que tende a permitir uma boa performance de suas ações.

LOJAS RENNER S.A – LREN3

A Lojas Renner S.A é uma rede gaúcha de lojas de roupas e acessórios, sendo a maior varejista de moda do Brasil, e uma empresa com um histórico operacional invejável, que cresceu com muita rentabilidade ao longo de sua história, sendo uma das empresas que mais entregou retorno aos acionistas nas últimas décadas.

A companhia, que encerrou o 1T18 com uma dívida líquida de R$ 925,7 milhões, que representa cerca de 0,6x o Ebitda, é outro exemplo legítimo de empresa de excelência operacional, que se beneficia diretamente da queda dos juros.

No primeiro trimestre de 2018, além de um bom desempenho de vendas, com crescimento do faturamento e uma boa elevação nas vendas mesmas lojas, que contribuíram para um ótimo crescimento do Ebitda, a empresa também foi muito beneficiada com um melhor resultado financeiro, visto que o mesmo apresentou uma despesa financeira simplesmente 44,3% menor que o 1T17, o que foi fundamental para o lucro líquido da empresa crescer 66% e atingir R$ 111,4 milhões.

Não temos dúvida de que a Lojas Renner continuará crescendo forte neste ano, fruto do crescimento de suas operações e um resultado financeiro ainda melhor, que possibilitará lucros maiores e uma maior margem líquida.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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