Muitos investidores nos perguntam se comprar empresas apenas por estarem com múltiplos baixos vale a pena, e se múltiplos baixos, por si só, proporcionam um bom investimento ou uma boa compra para o longo prazo.

Algumas vezes, inclusive, já recebemos algumas críticas de investidores decepcionados por não recomendarmos algum ou outro papel, que de acordo com eles, eram grandes oportunidades apenas pelos múltiplos baixos.

Nós gostaríamos bastante que as coisas fossem simples assim, e que bastasse uma ação estar sendo negocia a múltiplos baixos (P/L, P/VP, EV/EBITDA) para garantir o sucesso de um investimento, mas infelizmente, as coisas não são tão simples assim.

Analisar uma ação e avaliar se é um bom momento para comprar envolve muito mais do que valuation e comparação de múltiplos, e há inúmeros outros fatores que devem ser avaliados, como histórico de lucratividade da empresa, métricas de rentabilidade, indicadores de endividamento, setor, qualidade da gestão, capacidade de gerar caixa, entre outros fatores.

É evidente que avaliar múltiplos faz parte e é importante na hora de analisar uma ação e tomar uma decisão de compra, e múltiplos baixos geralmente podem indicar que o papel está barato, porém, decidir comprar uma empresa apenas se baseando pelos múltiplos baixos e o valuation aparentemente atrativo está longe de ser a melhor decisão e pode esconder riscos consideráveis.

Como sabemos que este é um tema de interesse de muitos investidores e que sempre gera dúvidas, no Suno Call de hoje enumeramos alguns dos principais perigos que múltiplos baixos podem esconder, e que é sempre bom o investidor estar atento, para poder avaliar todo o contexto.

De forma a não tornar o texto demasiadamente extenso, separamos este Suno Call em duas partes, sendo que hoje apresentaremos dois perigos que múltiplos baixos às vezes escondem, e amanhã, outros dois.

1) Eventos não recorrentes

Lucros e eventos não recorrentes são uns dos principais fatores que levam empresas a negociarem com múltiplos, por vezes, demasiadamente baixos e podem acabar iludindo os investidores, fazendo-os pensar que se trata de uma ótima oportunidade.

Não são raros os casos de empresas que recebem grandes indenizações, ou vendem alguns ativos, e por isso acabam tendo grandes incrementos em seus lucros de forma pontual, tornando seus múltiplos bastante baixos em algum momento, mas que, por serem justamente eventos pontuais, não tendem a se repetir tão cedo.

Por isso, é sempre bom avaliar se o lucro da empresa nos últimos 12 meses (base para o P/L de hoje) é recorrente, e caso tenham não recorrentes, é interessante colocar isso na conta e ajustar os números, de forma a não distorcer os múltiplos e não se criar uma expectativa fantasiosa.

O investidor que compra uma empresa que está com múltiplos baixos apenas por fatores não recorrentes, pode na verdade estar se colocando numa situação de risco, e deve sempre avaliar essa questão cuidadosamente.

Geralmente em nossos relatórios notificamos nossos assinantes e leitores de eventuais não recorrentes que podem distorcer os números das empresas, como por exemplo, a Vivo, este ano, que vem se beneficiando através de um relevante ganho judicial.

2) Empresa problemática ou em deterioração

Um outro caso que leva muitas vezes empresas a negociarem com múltiplos baixos é a sua própria deterioração estrutural, ou problemas sérios que a empresa venha passando, que o mercado costuma se antecipar e ficar com receio em relação ao seu futuro.

Empresas muito endividadas, ou que estão vivendo situações bastante adversas, com lucros em queda e margens se deteriorando, geralmente são fortes candidatas a negociarem com múltiplos baixos, justamente pelo mercado estar precificando um cenário pessimista para estas Companhias, e colocando na conta a deterioração de seus números para o futuro também.

Um exemplo emblemático desses foi o da Eternit, empresa fabricante de telhas, metais sanitários e coberturas, que por muito tempo era uma das queridinhas do mercado.

A empresa, que por muito tempo foi uma ótima opção para quem visava dividendos e apresentava uma rentabilidade atrativa, pois era lucrativa e gerava bastante caixa, de alguns anos para cá, passou a viver um cenário adverso.

Diversificando seus negócios a qualquer custo, através de investimentos que não deram muito certo, e que não entregaram o retorno esperado, junto da própria crise econômica que o país viveu que afetou todo o segmento de construção civil, além do próprio endividamento que vinha se elevando, a Eternit foi do céu ao inferno, e passou a ver seus números se deteriorem gradativamente.

Após se manter lucrativa por muitos e muitos anos, desde 2013 a empresa vinha apresentando resultados mais instáveis, e em decréscimo, e desde o final de 2015, a empresa apresenta prejuízos recorrentes, sendo que os mesmos vêm se elevando de maneira gradativa.

No caso, ainda antes deste período da empresa de fato entregar prejuízos, o mercado já percebia que algo vinha ocorrendo de errado com a Eternit, e seus papéis não apresentavam uma performance positiva há um bom tempo, tornando seus múltiplos baratos, mesmo durante este período em que a empresa já perdia margens e via sua dívida crescer.

Aqueles que só olhavam para múltiplos e dividend yield, se encantavam com uma relação P/L de cerca de 5 a 6 vezes, e um dividend yield que superava os 10%, porém, com os prejuízos que a empresa passou a demonstrar de maneira recorrente, esse aparente desconto desapareceu e os dividendos também, sendo que desde 2015 a Eternit não paga dividendos.

Além da Eternit, outros exemplos no passado que tivemos de empresas que estavam se deteriorando de forma considerável e aparentemente estavam baratas foram Oi, Livraria Saraiva, Forjas Taurus, MetalFrio, Helbor, dentre outros papéis.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.