Por: Jean Tosetto

Os ciclos são implacáveis

A euforia é uma péssima conselheira. Ela turva a visão e a memória de quem investe na Bolsa num ciclo de alta, e pula fora pela janela quando um ciclo de baixa se instala na sala de estar do mercado financeiro, com o desespero batendo na porta.

Por Jean Tosetto

O Universo é regido por ciclos. Há uma teoria que diz que o Big Bang deu origem ao Universo a partir de uma explosão de partículas ultraconcentradas, provocando a sua expansão durante bilhões de anos. Por essa teoria haverá um momento em que o Universo deixará de se expandir a passará a se retrair, até que todas as suas partículas se agrupem novamente, quando ocorrerá um novo Big Bang.

Ou seja, o Universo é como se fosse um pulmão inflando e desinflando, não várias vezes por minuto, mas a cada bilhões de anos. É o processo de inspiração e expiração que mantém os seres vivos respirando. Experimente encher seus pulmões de ar e tente segurar pelo tempo que suportar: cedo ou tarde você soltará o ar de uma só vez, ou então morrerá. O mesmo acontece com a falta de ar: ocorre a asfixia.

A Terra leva 365 dias para contornar o Sol. O ano terrestre é um ciclo composto por quatro estações, pois existe uma inclinação no eixo da Terra, que vai do Polo Norte ao Polo Sul. Com isso temos a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno, até que a Primavera comece de novo.

Há também o ciclo lunar que se renova a cada quatro semanas. Temos a Lua Nova, a Lua Crescente, a Lua Cheia e a Lua Minguante influenciando nas marés e também nos seres vivos. A alternância de dias e noites impõe hábitos à maioria dos animais: muitos dormem de noite e coletam alimentos durante o dia. Outros fazem o contrário.

Os ciclos continuam no comando

Durante milênios as estações e as fases lunares influenciaram o comportamento dos seres humanos em suas diversas atividades, especialmente na Agricultura. Então a Humanidade começou a desafiar a Natureza, criando técnicas para aumentar a produção de alimentos ao longo do ano, e não apenas em estações específicas.

Com a criação da luz elétrica, as cidades se iluminaram de noite. Essa foi uma revolução silenciosa. As pessoas começaram a trabalhar de noite também. Gurus de autoajuda até recomendam que você, se quiser progredir, deve estudar e trabalhar enquanto os outros estão dormindo, como se repousar fosse reprovável – mas não é. Repousar é tão importante quanto exercer um trabalho, quando feito de forma alternada e equilibrada.

A Humanidade criou ferramentas e técnicas para driblar os ciclos da Natureza, mas esqueceu de combinar com a Natureza. Ou seja: os ciclos continuam acontecendo e, quando ignorados, eles cobram a conta, inevitavelmente.

A Humanidade também criou a Economia, e na sua autossuficiência ela desejou que a Economia fosse uma atividade em contínuo crescimento. Mas a Economia é uma atividade conduzida por humanos, e os humanos são regidos por ciclos biológicos. Logo, a Economia também é regida por ciclos. Ciclos de alta e ciclos de baixa. Ciclos de expansão e ciclos de retração. Ciclos que não podem ser represados.

A renda variável é cíclica

Chegamos ao mercado financeiro e aos investimentos em renda variável. Já parou parar pensar na razão da renda ser variável? Simples: é uma renda regida por ciclos. E os ciclos são implacáveis. Nem a renda fixa é fixa, pois os ciclos econômicos também atuam sobre ela.

O pior erro de qualquer investidor é ter memória curta ou ignorar suas lembranças com relação aos ciclos anteriores da Bolsa. A Bolsa tem ciclos de alta e ciclos de baixa, mas muita gente que aporta recursos regularmente durante um ciclo de alta tende a acreditar que tal situação vai se prolongar indefinidamente, e que o cume da montanha está além das nuvens.

Algo semelhante acontece quando vem uma ribanceira abaixo: os desavisados se machucam seriamente nela e acreditam que a Bolsa nunca mais vai se recuperar, projetando que o fundo do vale é uma planície a perder de vista.

Patrimônio versus fluxo de caixa

É difícil mensurar qual é o pior momento para um novato ingressar na Bolsa, pensando apenas na alta de seu patrimônio, sem o foco no longo prazo e na geração de renda passiva.

Quando a Bolsa entra num ciclo de alta, após um ponto de aquecimento notório a mídia começa a divulgar notícias positivas sobre o mercado financeiro, atraindo a atenção de muitos leigos. Ao realizarem os primeiros aportes, eles consultam o valor do patrimônio na corretora com frequência.

Como as ações estão subindo e até as cotas de fundos imobiliários começam a valorizar rapidamente, vem aquela euforia. O sujeito vende o carro novo e compra um modelo mais barato, para colocar a diferença na Bolsa. Tem aqueles que se desfazem de imóveis e aplicações de renda fixa para entrar de cabeça em ações de empresas que muitas vezes não ostentam os fundamentos necessários, mas valorizam mesmo assim.

Uma hora a situação se inverte. A Bolsa começa a cair. A euforia dá lugar ao desespero. As consultas ao site da corretora mostram que o patrimônio do pretenso investidor cai diariamente. Ele se descobre um especulador que não deu certo e começa a vender tudo com prejuízo. E promete ficar longe da Bolsa para sempre.

Enquanto isso, quem conhece a lógica dos altos e baixos do mercado, segue prosperando, comprando ativos dos desesperados e algumas vezes vendendo ativos para gente empolgada.

De algum modo, eles sabem que o patrimônio que vão construindo através mercado financeiro é como um pulmão: ora está inflando e ora está desinflando, mas o pulmão continua lá. A diferença é que no mercado de capitais o pulmão do investidor tem uma capacidade elástica: ele cresce estruturalmente ao longo dos anos, pois não há uma caixa torácica para limitá-lo.

A felicidade só é percebida quando alternada com momentos de tristeza

A vida depende dos ciclos pulmonares para manter o sangue oxigenado circulando por veias, irrigando músculos e órgãos. Já a prosperidade financeira depende dos ciclos do mercado para manter o fluxo de capital circulando entre os agentes da Economia, irrigando a sociedade e as empresas.

Para um investidor de longo prazo, como é possível estabelecer um fluxo de caixa saudável? Seu foco deve ser comprar ativos geradores de renda passiva, por meio de dividendos de empresas e rendimentos de fundos imobiliários, por exemplo. Os proventos recebidos devem circular com sabedoria para comprar mais ativos geradores de renda passiva, realimentando o processo.

Do mesmo modo que não se pode represar ar nos pulmões para viver, não se pode guardar dinheiro em cofres para prosperar. O dinheiro precisa circular.

Represar ciclos é antinatural

Se a Bolsa ficar num ciclo de alta interminável, o que acontece? As ações das empresas ficam mais caras e entregam menos dividendos por ação. As cotas dos fundos imobiliários ficam mais caras e entregam menos rendimento por cota. Com menos proventos, menor a capacidade de comprar mais ativos, cada vez mais caros. Uma hora o sistema trava.

Por isso, um ciclo de baixa na Bolsa é bem-vindo. Quando as ações e cotas ficam mais baratas, a capacidade de recompra de ativos aumenta, por causa da renda potencialmente maior. Quem compra mais ativos geradores de renda passiva, aumenta progressivamente o poder de realimentar o ciclo da prosperidade através dos juros compostos, a ponto do excedente da renda passiva permitir a liberdade financeira do investidor sem que ele deixe de participar do mercado de capitais, comprando mais ativos.

Um ciclo de baixa, porém, não pode ser perene, pois o limite é o zero. Não existe mercado com ações cotadas abaixo de zero. Por mais longo que possa parecer um ciclo de baixa, ele sempre dará lugar a outro ciclo de alta, quando o investidor consciente tende a se aquietar a cada grau de aquecimento do mercado. Se um ciclo de alta não ocorrer após um ciclo de baixa, significa que o sistema financeiro entrou em colapso. E então não há o que fazer, salvo acender uma fogueira e afiar uma lança de bambu com pedra lascada.

Sempre aprendendo

Portanto, não existe investidor em Bolsa digno de tal denominação que não tenha passado por ao menos um ciclo de alta e um ciclo de baixa no mercado. Esta talvez seja a lição mais difícil de aprender na prática.

No Guia Suno Dividendos assim como no Guia Suno Fundos Imobiliários existem abordagens bem fundamentadas sobre os ciclos do mercado financeiro e do mercado imobiliário, respectivamente. Este é um importante aspecto que faz destes livros uma leitura altamente recomendada para quem deseja vencer na Bolsa de Valores.

[Crédito da imagem: “A Cigana Adormecida” (1897), pintura de Henri Rousseau (1844-1910) pertencente ao acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York.]

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

2 comentários

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  • Fernando 26 de junho de 2019

    E o momento atual, é de euforia, estamos em um ciclo de alta? Sou assinante Suno Ações, a maior parte das carteiras Dividendos e Valor está com sua cotação acima do preço teto estabelecido, não está fácil comprar, ou é hora de rever alguns preços teto? Eu, estou na minha, não comprando e guardando o dinheiro, na dúvida, não faço nada.

    Responder
    • Suno Research 15 de agosto de 2019

      O ciclo é de alta, mas isso não quer dizer que o melhor seja parar de investir, ninguém sabe até quando esse ciclo durará.

      “Mais dinheiro foi perdido por investidores ao se prepararem para as correções ou tentando antecipá-las do que foi perdido nas correções em si”
      – Peter Lynch

      Responder
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