Por: Tiago Reis

O que são setores cíclicos?

A economia de um país é composta por diversos setores cujos desempenhos econômicos estão vinculados a variados fatores. Setores pouco resilientes a determinadas variáveis como a inflação, taxas de juros e atividade econômica geralmente são conhecidos como setores cíclicos.

Estes setores costumam ser fortemente impactados por crises, variações nas taxas de câmbio ou outros fatores econômicos.

Para exemplificar esta situação, vamos iniciar com setores mais resilientes. Pense no setor de energia. Geralmente, este setor é fortemente influenciado pelo Estado. As receitas das empresas que atuam neste segmento são dependentes de contratos de concessão e tarifas estipuladas pelo governo.

Os fluxos de caixa nesse setor são altamente previsíveis quando comparados com outros setores da economia. Isso se deve aos contratos de concessão e ao produto comercializado. Em se tratando de energia, independentemente da situação econômica do país, as pessoas e indústrias continuarão consumindo o produto, o que torna a volatilidade das receitas e lucros no setor muito menor.

A indústria farmacêutica também se enquadra bem nesse exemplo. Os fármacos são produtos necessários mesmo em tempos de crise. Caso você fique doente durante uma crise econômica, muito provavelmente você irá a uma farmácia adquirir um medicamento que trate os sintomas da doença.

Agora pense em setores altamente afetados por crises econômicas. Provavelmente você está pensando em setores onde os produtos são supérfluos na vida das pessoas. As indústrias de aviação e automobilística, por exemplo, são altamente afetadas pela atividade da economia.

Durante uma crise econômica, provavelmente você comprará remédios caso esteja doente, mas pensará duas vezes antes de trocar de carro ou de viajar para fora do país.

Esse fato reflete no desempenho das empresas destes setores. Olhemos mais de perto o setor da aviação. Em termos de custos, a indústria é altamente dependente de commodities, seja para a fabricação de aeronaves (metais e derivados de petróleo), seja para transportar passageiros (combustível derivado do petróleo).

Neste lado da cadeia (fornecedores), os custos dependem muito da volatilidade do preço das commodities e da variação cambial, uma vez que estas são cotadas em dólar.

Na outra ponta da cadeia (clientes), as receitas são altamente dependentes da atividade econômica. Em uma economia em crescimento, com baixas taxas de desemprego e aumento real do poder de compra da população, as pessoas tendem a viajar mais, o que impulsiona os resultados das companhias pelo aumento das receitas e ganhos de eficiência através da redução dos custos por passageiro transportado (aumento na ocupação das aeronaves).

Para compreender melhor o efeito das crises econômicas neste setor, olhemos para o crescimento do PIB do Brasil nos últimos anos.

Nas últimas décadas a economia brasileira passou por duas grandes crises, sendo elas a crise de 2008-2009, reflexo da crise imobiliária norte americana, e a crise de 2013-2016, onde o Brasil vivenciou pela primeira vez na história um biênio com crescimento negativo do PIB (2015/16).

Tais crises impactaram significativamente as companhias de aviação que atuam no país.

As ações da Gol, que eram negociadas em setembro de 2006 a mais de R$75,00, passaram a ser negociadas em abril de 2009 por menos de R$7,00. Na crise de 2013-2016 o efeito se repetiu. As ações que estavam cotadas próximo a R$15,00 no início de 2013 chegaram a R$1,50 no início de 2016.

Algo semelhante aconteceu com outras companhias aéreas, como é o caso da LATAM.

A ação que era negociada a aproximadamente US$16,00 em meados de 2007 perdeu metade de seu valor e passou a ser negociada a US$8,00 no início de 2009. O efeito também se repetiu na crise 2013-2016. As ações que eram negociadas a US$24,00 em fevereiro de 2013 passaram a ser negociadas a US$5,00 em janeiro de 2016.

Obviamente as crises econômicas não foram os únicos fatores que contribuíram para a queda na cotação da ação, mas o impacto é claro.

Agora observemos alguns exemplos no setor de energia que, diferentemente do setor de aviação, foram muito menos afetados durante a crise.

As ações da COELCE, que eram negociadas a aproximadamente R$25,00 em meados de 2007 estavam sendo negociadas no mesmo patamar 2 anos depois. Algo semelhante ocorreu na crise de 2013-2016. As ações que em meados de 2013 eram negociadas a aproximadamente R$40,00 se encontravam no mesmo patamar cerca de 3 anos depois.

O mesmo ocorreu com a Energisa que tinha suas ações negociadas a aproximadamente R$13,00 em janeiro de 2013 e em janeiro de 2016 as ações estavam sendo negociadas no mesmo patamar.

Este texto visa mostrar a importância de se compreender as empresas e seus setores de atuação. Não podemos apenas olhar internamente para a empresa acreditando que conhecemos profundamente o empreendimento. É necessário também fazer uma análise externa para identificar qual é a sensibilidade do setor quanto às variáveis econômicas.

Setores cíclicos podem ser investimentos muito interessantes em momentos de crescimento econômico, onde as receitas e lucros das empresas crescem vertiginosamente e geralmente, esse resultado positivo é refletido em alta valorização dos papéis. Entretanto, investir nestes setores em um momento errado do ciclo pode comprometer boa parte do capital investido.

É necessário conhecimento e muita cautela em se tratando de investimentos em empresas cíclicas.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

1 comentário

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  • LUCAS TULA 24 de agosto de 2019

    Excelente demonstração. Simples e pontual, o que facilita a compreensão e tem por conseguinte a instigação da pesquisa pelo leitor.

    Responder
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