Por: Tiago Reis

O funcionamento da máquina econômica segundo Ray Dalio – Parte III

O ciclo da dívida de longo prazo

Nesta série de 3 partes apresentarei o funcionamento da economia segundo a visão do investidor bilionário Ray Dalio. A terceira parte tratará dos conceitos relacionados ao ciclo de dívida de longo prazo.

 

Durante a Parte II, tratamos dos conceitos que envolvem o ciclo da dívida de curto prazo. Concluímos que as pessoas tendem a contrair mais dívidas do que pagá-las em um momento de expansão econômica, com alta disponibilidade de crédito.

Este fenômeno leva a ciclos com topos e fundos ascendentes, o que significa mais crédito na economia e, consequentemente, mais dívidas.

Apesar das pessoas estarem mais endividadas, os credores oferecem ainda mais crédito. Isso se deve ao fato de os indivíduos voltarem sua atenção ao curto prazo. No curto prazo, os salários vêm subindo, assim como os valores dos ativos. O mercado de ações está em alta e economia vive um boom.

Neste ponto, apesar do crescimento da renda, a dívida cresce em ritmo mais acelerado. Chamaremos a razão entre a dívida e a renda de encargo da dívida.

No cenário descrito temos um encardo de dívida crescente, mesmo com o aumento das receitas. Os indivíduos estão tomando quantidades enormes de dinheiro emprestado para comprar diversos ativos.

Assim, as pessoas se sentem ricas. Mesmo com o acúmulo de dívidas, o aumento da renda permite que os tomadores de crédito sejam classificados como bons pagadores, o que lhes permite adquirir ainda mais crédito por um longo período de tempo.

Este fato se estende por décadas e o encargo da dívida vai crescendo a ponto de se tornar insustentável. Neste ponto, as parcelas da dívida crescem mais rápido do que as receitas, o que faz com que as pessoas sejam obrigadas a reduzir seus gastos.

Como os gastos de uma pessoa são as receitas de outra, os rendimentos começam a cair, o que faz com que as pessoas tenham menos acesso ao crédito. Assim, o consumo cai e o ciclo se inverte. Neste ponto, os encargos da dívida ficaram grandes demais devido à alavancagem da economia. Para reverter o cenário, a economia entra em um processo de desalavancagem.

Durante o processo de desalavancagem, as pessoas cortam gastos, a renda cai, o crédito desaparece, o preço dos ativos despenca, bancos ficam apertados, o mercado de ações quebra, as tensões sociais aumentam e o ciclo começa a se alimentar no modo inverso.

Enquanto a renda cai e as parcelas da dívida sobem, os tomadores de empréstimo ficam apertados, e não são mais considerados merecedores de crédito. Assim, o credito acaba e eles não conseguem pegar dinheiro emprestado suficiente para pagar suas dívidas.

Lutando para tapar esse buraco, os devedores são forçados a vender ativos. A corrida pela venda de ativos inunda o mercado ao mesmo tempo que o consumo cai. Isso leva ao colapso do mercado de ações.

Com a queda no preço dos ativos, o valor das garantias dos devedores cai, o que os torna ainda menos “merecedores” de crédito. As pessoas se sentem pobres e o crédito desaparece rapidamente.

Menos gasto leva a menos receita, que por sua vez leva a menos riqueza, menos crédito, menos empréstimo e o ciclo continua.

Este evento parece com uma recessão, mas a diferença é que a redução da taxa de juros não consegue salvar o dia. Em uma recessão econômica, a redução das taxas de juros estimula o reaquecimento da economia.

Entretanto, em uma desalavancagem econômica o método não funciona, pois as taxas de juros já estão baixas e rapidamente chegam a zero. Nos EUA isso ocorreu em dois momentos, durante a década de 30 e depois em 2008.

Com o dever de reduzir os encargos da dívida, o governo pode utilizar quatro ferramentas para que a desalavancagem ocorra de maneira equilibrada.

Em primeiro lugar, as pessoas, as empresas e o governo devem reduzir os gastos. Como explicado anteriormente, a redução dos gastos leva a um processo deflacionário e permite que parte da receita seja utilizada para pagar parcelas das dívidas.

Em segundo lugar, as dívidas devem ser reduzidas. Tal fato pode ser articulado por meio de reestruturação de dívida, ou até por declaração de moratória. Como os credores preferem receber parte da dívida do que não receber nada, muitas vezes em cenários de desalavancagem econômica as dívidas sofrem reestruturação.

Em terceiro lugar, o governo deve redistribuir a riqueza na economia, reduzindo a concentração de dinheiro. Muitas vezes isso é feito através de políticas para taxar grandes riquezas, enquanto o governo cria incentivos para pequenos empresários e ferramentas de auxílio aos desempregados.

Os três recursos mencionados acarretam em processos deflacionários que devem ser equilibrados com a quarta ferramenta para a redução dos encargos da dívida em uma economia, a impressão de dinheiro.

Este recurso deve ser utilizado com sapiência pelo Banco Central, pois quando mal utilizado, pode acarretar em um processo de hiper inflação, onde a alta dos preços se torna incontrolável e o país não consegue reduzir os encargos da dívida.

Estas quatro ferramentas foram utilizadas em todas as desalavancagens econômicas da história moderna. Ocorreu nos EUA na década de 1930, na Inglaterra em 1950, no Japão em 1990 e na Itália em 2010.

A impressão de dinheiro contribui para a valorização dos preços dos ativos, uma vez que o Banco Central utiliza o dinheiro para adquirir ativos financeiros e títulos públicos. O Governo Central, por sua vez, compra bens e serviços, colocando o dinheiro nas mãos da população.

Portanto, na tentativa de estimular a economia, as duas entidades devem cooperar. Ao comprar títulos públicos, o Banco Central essencialmente está emprestando dinheiro para o governo, o que permite que ele role seu déficit e aumente seus gastos em bens e serviços através de programas de estímulo e benefícios aos desempregados.

Este é um cenário delicado onde uma boa articulação dos recursos é fundamental para que a desalavancagem não seja desastrosa. Quando bem articulada, as dívidas caem em relação às receitas, o crescimento econômico é positivo e a inflação não é um problema. Para que isso ocorra, o Governo deve ponderar com sabedoria a utilização das quatro ferramentas anteriormente mencionadas.

Quando bem executado, o processo de desalavancagem reduz o encargo da dívida e faz com que a economia volte a crescer, aumentando a renda da população, o que aumenta a credibilidade dos tomadores de crédito, levando os credores a emprestar dinheiro novamente.

Com isso o ciclo se renova e a economia segue seu curso.

Obviamente a economia é um pouco mais complexa do que esse modelo sugere, porém, ao visualizarmos a sobreposição do ciclo de dívida de curto prazo ao ciclo de dívida de longo prazo, e então aplicarmos eles ao crescimento da produtividade, temos um modelo razoável para compreender onde estivemos, onde estamos e pra onde iremos, provavelmente.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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