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Índice de basileia: Descubra como analisar ações de bancos

By 17 de maio de 2018 No Comments
índice de basileia

Você sabe como analisar a saúde financeira de um banco? O índice de basileia ajuda a analisar a solidez financeira de ações bancárias.

O índice de basileia é um indicador que mede o grau de alavancagem financeiro de uma instituição financeira, particularmente bancos. Todo banco deve manter um índice acima do exigido pelo Banco Central.

Uma das grandes dificuldades dos investidores iniciantes é analisar instituições financeiras, particularmente bancos.

Vários indicadores de endividamento, normalmente utilizados pelo público para análise de diversos segmentos da economia, como Dívida líquida / Patrimônio Líquido ou Dívida Líquida / EBITDA, possuem utilidade reduzida, ou mesmo nula, quando aplicados às empresas do setor bancário.

De fato, os bancos pertencem a um segmento à parte na economia. E o motivo é bem simples:

As dívidas bancárias fazem parte da operação do banco.

Assim, para as empresas não financeiras, o endividamento é utilizado principalmente como fonte de recursos para investimentos produtivos. Por exemplo:

  • Empresas siderúrgicas que desejam expandir suas plantas industriais.
  • Empresas fabricantes de alimentos que necessitam construir novos moinhos.
  • Empresas de aluguel de carros que precisam renovar a frota.
  • Incorporadoras da construção civil que pretendem lançar novos empreendimentos.

Já as dívidas de banco têm outra finalidade. A captação é utilizada basicamente para concessão de crédito, que é a atividade-fim (core) da instituição.

De forma simplificada, um banco ganha dinheiro através do spread.

O spread é a diferença entre a taxa de juros cobrada dos seus clientes e a taxa paga pelo banco aos seus depositantes e outros credores (ex: outros bancos, BNDES, debenturistas).

Portanto, é de se esperar que existam métricas diferentes de avaliação da solvência e do risco de crédito de uma instituição financeira. O padrão mundial para essa finalidade é o Índice de Basileia (IB).

  1. O que é
  2. Valor mínimo obrigatório
  3. Onde encontrar
  4. Inadimplência
  5. Conclusão

 

O que é o Índice de Basileiao que é o índice de basileia

A origem do IB remonta a 1988, a partir do primeiro Acordo de Capital de Basileia. Também chamado de Basileia I, este acordo foi estabelecido pelo Comitê de Supervisão Bancária da Basileia, órgão ligado à organização internacional BIS (Banco de Compensações Internacionais).

O BIS função é promover a cooperação entre os bancos centrais e agências reguladoras, em prol de um sistema financeiro global mais estável.

E o objetivo do Basileia I era estabelecer uma exigência mínima de capital para as instituições financeiras, válida internacionalmente.

Em 2004, o acordo teve a primeira revisão (Basileia II) com o objetivo de dar mais precisão aos riscos associados aos bancos com atuação em vários países.

Após 2008 verificou-se que os acordos de Basileia I e II não foram suficientes para impedir a alavancagem excessiva dos bancos e a crise financeira que se seguiu, revelando a fragilidade das instituições financeiras da época.

Portanto, em 2010 foi divulgado o Basileia III, contendo as recomendações atuais.

A fórmula do IB é dada por:formula índice de basileiaAs siglas PR e RWA correspondem ao Patrimônio de Referência e Ativos Ponderados pelo Risco, respectivamente.

O PR, por sua vez, é dado pela soma de dois níveis de capital, que são o Nível I e o Nível II (Tier 1 e Tier 2):patrimônio de referênciaVale ressaltar ainda que o Nível I é composto pelo Capital Principal e Capital Complementar.

O Capital Principal é composto principalmente pelo capital social do banco (Ações ON + PN), Reservas de capital e Lucros acumulados. Essa parte representa principalmente o patrimônio líquido dos acionistas, o nível de capital mais apto a suportar perdas.

Já o restante do Patrimônio de Referência é formado em sua essência por dívidas subordinadas. Essas dívidas são perpétuas para o Capital Complementar e com vencimento superior a 5 anos no caso do Nível II.

O caso Itaú

Veja a composição do Patrimônio de Referência do Itaú (  ( )) :caso itaú

Para chegar ao valor de R$ 142.252 milhões somamos o Nível I, de R$ 122.453 milhões, com o Nível II, de R$ 19.799 milhões.

Vamos agora calcular o denominador do Índice de Basiléia, o RWA. O RWA é composto pelas parcelas de risco de crédito, risco de mercado e risco operacional.
Somando estes três valores destacados em vermelho chegamos à cifra de R$ 756.686 milhões para o total de Ativos Ponderados pelo Risco (RWA). Conforme mostramos abaixo:itaú 2

itaú 3Assim, o índice de Basileia do Itaú foi de 18,8% (R$ 142.252 / R$ 756.686) ao final de 2017. O banco apresentou este valor em suas notas explicativas, assim como sua decomposição em Nível I e Nível II.itaú 5

Em média, de cada R$ 100 de ativos do Itaú, R$81,20 vem de recursos de terceiros e R$18,80 de recursos próprios.

O valor mínimo exigido do índice de Basileia

Em tese, quanto maior o Índice de Basileia, mais solidez financeira o banco possui.

Qual o mínimo?

De acordo com Basileia III, o mínimo recomendado é de 8%.

Contudo, no Brasil o limite regulatório atualmente é de 9,25% para o capital total.

Vale mencionar, contudo, que o Bacen já divulgou um cronograma para implementar Basileia III em sua totalidade. Neste sentido, a partir de 2019 espera-se que o mínimo regulatório seja de 8%, conforme demonstrado na tabela acima.

Veja na tabela que também existem mínimos regulatórios individuais para o Capital principal e o Nível I, que são de 4,5% e 6%, respectivamente.

É importante mencionar que cada banco possui uma visão diferente em relação a qual deve ser o valor ideal do IB.

A busca por um índice mais baixo tende a representar uma estratégia mais agressiva de crescimento das operações de crédito.

Já a busca por índices elevados representa um perfil mais conservador de expansão das operações.

A política atual do Itaú, por exemplo, é de manter um nível de 13,5% para o capital principal. Como ao final de 2017 o nível estava em 16,2%, então para atingir a meta o banco anunciou uma distribuição de Dividendos e JCP que totalizaram R$ 13,7 bilhões (pagos em 07/03/2018), conforme mostrado na reconciliação abaixo:

Nova emissão

Mas também podem ocorrer casos em que o banco necessite fazer uma nova emissão de ações, com o objetivo de manter o capital Nível I acima do exigido pelo Bacen.

Um exemplo de um banco que realiza essa prática é o Banco ABC Brasil. Dessa forma, o ABC vem fazendo novas emissões de ações preferenciais com certa regularidade. Podemos notar que o IB do Banco ABC vem oscilando ao redor de 16%.

É importante destacar a importância dos gestores dos bancos.

Além de administrarem a expansão dos ativos, por outro lado, devem estar atentos a não deixarem os limites de capital cair abaixo do mínimo regulatório. Caso isso aconteça, a carteira de crédito terá seu crescimento comprometido até que o banco se enquadre novamente nos limites regulatórios.

Onde encontrar o IB

Você consegue descobrir qual é o IB de um determinado banco através do sistema do Banco Central (Bacen) ou pelo site Bancodata.

1ª Opção: Sistema do Banco Central

Ao entrar no sistema do Bacen você terá três campos para completar, conforme mostramos abaixo. De preferência escolha a data-base mais recente.Aparecerá então uma tabela com várias informações em que é possível, inclusive, ordenar o Índice de Basileia em ordem crescente ou decrescente.Veja uma lista de instituições que no final do 3T17 estavam com o Índice de Basileia abaixo do mínimo regulatório, sinalizando problemas de solvência:

2ª Opção: Site Bancodata

No site Bancodata basta preencher o campo de pesquisa com o nome do banco e clicar na opção que está abaixo da classificação “Prudencial”, conforme reproduzimos a seguir para o Banco Santander.

Depois basta selecionar “Basileia e Imobilização” na esquerda da página que será aberta. Um recurso interessante disponível é a visualização do histórico do Índice de Basileia (curva azul).

Inadimplênciainadimplência

Além de avaliar a saúde financeira de um banco de uma forma generalizada, é importante também analisar a qualidade da carteira de crédito.

Isso é, avaliar a capacidade dos credores em honrarem suas dívidas.

Quando os clientes bancários atrasam a devolução do principal e/ou juros das suas dívidas, ou mesmo deixam de pagá-las integralmente, ocorre a situação de inadimplência.

De fato, existem vários indicadores que auxiliam o investidor a avaliar a inadimplência, e a seguir mostraremos duas opções.

PDD – Provisão para Devedores Duvidosos

A provisão para devedores duvidosos, também chamada de PDD, é um reconhecimento contábil, por parte do banco, das possíveis perdas esperadas decorrentes de créditos de liquidação duvidosa.

Este provisionamento é obrigatório de acordo com regulação do Bacen, e as alíquotas dependem do nível de risco da operação de crédito (rating). O rating varia em uma escala desde AA (sem risco) até H (mais arriscado).

Vale destacar ainda que, dependendo do tempo de atraso nos pagamentos, o banco é obrigado a fazer o downgrade do rating deste cliente inadimplente.

Abaixo, mostramos o mínimo regulatório de acordo com o nível de risco:

 

De forma simplificada, para cada R$ 100 que o banco tem a receber de um cliente com rating D, por exemplo, o banco precisa ter provisionado R$ 10. Claro que podem ser provisionados valores acima do mínimo se a administração julgar prudente.

A PDD é reconhecida na DRE. E o seu saldo acumulado é computado nos ativos da companhia como um valor negativo, reduzindo o saldo de operações de crédito.

Como o PDD é uma estimativa de perdas realizadas pela administração, podem ocorrer reversões se o provisionamento tiver sido excessivo ou provisões adicionais caso as perdas se mostrem maiores do que o esperado.

Uma forma útil de avaliar a evolução da inadimplência é comparando o saldo acumulado de PDD com o total da carteira de empréstimos do banco.A carteira de crédito pode estar se deteriorando caso ocorra um aumento significativo desta métrica ao longo dos anos, o que deve servir de alerta para os acionistas.

Por outro lado, uma tendência decrescente está associada a uma disciplina maior na concessão de crédito, com foco em clientes de melhor rating.

Taxa de inadimplência

Uma outra maneira de avaliar a inadimplência é comparando o saldo de pagamentos atrasados a partir de um certo número de dias com o total da carteira de crédito. De fato, esta é uma das formas que o Banco Central define inadimplência, considerando atrasos acima de 90 dias.

Inclusive, alguns bancos podem ainda medir esta taxa para outros períodos, como é o caso do Santander:

É importante mencionar que um aumento no valor da taxa de inadimplência tem efeito negativo na lucratividade da companhia.

Como explicado anteriormente, um aumento nos dias de atraso pode levar a um downgrade do rating de crédito.

E consequentemente, pode ocorrer um aumento do saldo de PDD mínimo para se adequar às normas do Bacen.

Este aumento no saldo mínimo faz com que o banco tenha que reconhecer uma despesa adicional de PDD na DRE.

O nível de inadimplência ideal está ligado à qualidade da carteira de crédito concedida pelos bancos. Entretanto, não há um valor máximo recomendado universalmente.

Logo, Instituições que desejam emprestar para clientes mais propensos ao atraso/calote, terão em média uma inadimplência maior.

Em contrapartida, costumam cobrar taxas de juros maiores para compensar este risco adicional.

Já o Banco ABC, por exemplo, costuma concentrar em clientes com bom rating. Ao final de 2017, quase 85% do crédito concedido foi para clientes com rating de AA a B.

Conclusão sobre o Índice de Basileiaconclusão índice de basileia

É necessário utilizar métricas de avaliação de endividamento particulares para os bancos, pois as dívidas fazem parte da operação.

Fundamental também é avaliar a qualidade da carteira de crédito através da evolução percentual do PDD, assim como dos saldos em atraso.

Historicamente, o setor bancário brasileiro foi caracterizado por grande concentração de mercado em poucos participantes, uma espécie de oligopólio.

Assim, este cenário garantiu alta rentabilidade aos bancos e dividendos generosos aos seus acionistas. Mas resultados passados não são garantia de resultados futuros.

Dessa forma, o investidor que espera receber dividendos no longo prazo de bancos deve estar atento, entre outros fatores, à alavancagem da companhia e ao nível de inadimplência.

Um endividamento excessivo e uma baixa qualidade de crédito podem se tornar ameaças ao futuro da instituição. O Índice de Basileia é o padrão global para medir a saúde financeira destas instituições. Portanto, um IB abaixo do mínimo regulatório, atualmente em 9,25%, é um alerta da fragilidade do balanço do banco.

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Rodrigo Wainberg

Rodrigo Wainberg

Profissional aprovado no Level III da certificação CFA, investidor em ações há 6 anos, possui registro de Analista e Consultor de Valores Mobiliários, e é Bacharel em Física pela UFRGS.