Estagflação

Você sabe o que significa estagflação?

Vale destacar que a palavra estagflação ganhou notoriedade durante a crise que assolou a economia americana durante a década de 70.

A estagflação é um fenômeno macroeconômico que acontece quando ocorre uma recessão, ou seja, uma diminuição da atividade econômica empresarial em conjunto com o aumento das taxas de inflação a patamares acima dos desejados.

Nos EUA em 1970 essa situação ocorreu após uma expansão excessiva do crédito e demanda agregada durante a década anterior, que fez elevar o endividamento tanto do governo americano quanto das empresas e dos consumidores.

O estopim dessa crise se deu a partir de restrições impostas pelos países produtores de petróleo, levando ao aumento dos preços da matéria prima e deixando em dificuldades produtores que dependiam muito fortemente da commodity.

Isto acabou por trazer uma pressão nos preços (inflação) em conjunto com a queda da atividade empresarial que, por estar bastante alavancada, teve dificuldades em realizar novos projetos.

A estagflação também costuma apresentar uma grande queda na demanda por bens e serviços pela população. Além de uma escalada do desemprego.

  1. Por que ocorre uma estagflação?
  2. Casos notórios de estaglfação
  3. Estagflação no Brasil
  4. A inflação
  5. Conclusão sobre estagflação

Por que ocorre uma estagflação?


Por que ocorre a estagflação?
Toda estagflação tem origem numa expansão desenfreada do crédito concedido pelos bancos de um país.

A teoria Keynesiana de mercado diz que, para estimular uma economia a crescer, deve-se favorecer a oferta de crédito, pois através da “demanda agregada” é que as empresas voltam a investir e gerar empregos.

O que acontece é que a política de crédito fácil e barato não pode durar para sempre, ela sempre causa um aumento da base monetária (aumento da quantidade de dinheiro que circula em uma economia).

Como esse crédito, de forma nenhuma, está lastreado em poupança, e o Banco Central uma hora precisará aumentar a taxa de juros para controlar a inflação (aumentos na base monetária, desvalorizam a moeda de um país, pois agora haverá muito mais oferta da mesma), esse aumento da taxa de juros faz com que as diversas empresas e pessoas, agora, totalmente endividadas, precisem refinanciar suas dívidas, porém, nesse momento com taxas bem maiores do que foi numa ocasião anterior.

Toda essa situação de tentativa de sobrevivência por meio de mais crédito (que agora se tornou mais escasso) para refinanciar dívidas, pode trazer a falência de empresas e desemprego para trabalhadores, principalmente os ligados a setores de bens de capital, pois são os que geralmente mais dependem de crédito e de uma situação econômica favorável para conseguirem realizar vendas.

Sendo assim, pode-se citar como principais causas de uma estagflação as seguintes razões:

  1. Política monetária demasiadamente expansionista
  2. Política fiscal com gastos excessivos
  3. Concessão de crédito acima do limite razoável
  4. Política cambial ineficaz

Casos notórios de estagflação


casos de estagflação
Ocorreram na história recente da economia mundial alguns casos emblemáticos de estagflação.

Entre eles podemos citar:

  • Reino Unido nas décadas de 1960 e 1970
  • Estados Unidos na década de 1970
  • Alemanha pós-guerra

Reino Unido

Embora o termo estagflação tem ganho notoriedade com a situação americana na década de 70, este termo foi previamente utilizado no Reino Unido.

Atribui-se ao político britânico Iain Macleod o primeiro uso deste termo. Na ocasião ele pontuava como o seu país estava caminhando para um cenário de caos econômico, com uma recessão acompanhada de inflação.

Credita-se como causas para a situação da época a ausência de uma política monetária efetiva, como é de praxe nestes cenários, além de erros nas estimativas da demanda.

Estados Unidos

O caso americano é provavelmente o mais conhecido de situações de inflação e recessão.

Ele ocorreu após os países da OPEP chegarem ao acordo de quadruplicar o preço do barril de petróleo, como retaliação à condução da política externa americana.

Isto causou grandes pressões nos custos dos produtos, elevando a inflação.

Ainda, as empresas estavam bastante endividadas, e se viram em necessidade de cortar custos. Dessa forma, o desemprego se elevou.

Ao contrário do que prega a teoria Keynesiana, o aumento do desemprego não causou uma redução da inflação. Tendo esta se mantido elevada.

Este foi um dos motivos que levaram os economistas a concluir que a principal causa da inflação é um aumento da base monetária. Esta é hoje a base da teoria de política monetária moderna.

O economista Milton Friedman foi um dos precursores dessa teoria, tendo por ela ganhou o Prêmio Nobel da Economia em 1976.

Segundo ele, a inflação elevada sempre apresenta por trás uma política monetária mal conduzida.

Seguindo a teoria de Friedman, o governo americano adotou uma política monetária restritiva a partir de 1979.

Sendo este um dos principais motivos para o país ter conseguido superar o cenário de estagflação.

Alemanha pós-guerra

Embora na época os economistas ainda estivessem longe de formular a teoria da estagflação e de suas causas pode-se dizer que este foi um dos seus casos mais emblemáticos.

A Alemanha após a Primeira Guerra Mundial estava totalmente endividada. O que contribui para o não crescimento da economia.

Ainda, o país viva uma inflação absurdamente alta. A estratégia do governo de imprimir moeda para honrar com suas dívidas contribuiu para este cenário.

A inflação era tanto que há relatos de pessoas indo à padaria com carrinhos lotados de moeda para poder comprar alimentos.

Estagflação no Brasil

Ibovespa estagflação

Histórico do Ibovespa – B3

O Brasil, nos anos de 2015 e 2016, foi refém dessa situação caótica causada por políticas irresponsáveis de crédito fácil e subsidiados às empresas “amigas” do governo.

É importante perceber que essa armadilha de liquidez leva um tempo para acontecer e levar um país para uma estagflação, pois, inicialmente, o que ocorre é um falso senso de riqueza e prosperidade, experimentado por todos os setores de uma economia.

Como de fato ocorreu no Brasil, que apresentou grande crescimento do PIB nos anos prévios à crise.

O país, inclusive, recebeu o selo de grau de investimento pelas agências de análise de risco.

Toda a pujança de crédito barato faz com que quase todo tipo de empreendimento se torne viável, o que outrora poderia ser impossível.

Isto acontece pois, com isso, os retornos internos das companhias exigidos pela taxa livre de risco (taxa básica de juros) estão significativamente menores, o que estimula empreendimentos de longuíssimo prazo ou os de ROIC (retorno sobre capital investido) baixos a continuarem existindo.

Isso faz com que as empresas se tornem menos criteriosas em seus investimentos. E invistam em projetos que possam trazer pouco retorno.

No entanto, como comumente ocorre, este crescimento de certa forma artificial cobrou o seu preço no futuro.

O PIB brasileiro passou a dar sinais de enfraquecimento. Enquanto isto, a inflação alta voltou a fazer parte da vida da população.

Em 2015, por exemplo, o IPCA superou a marca de 10%.

Importante ressaltar que, embora o cenário de caos pairasse sobre a economia brasileira, o investidor de renda variável possuía naquele momento boas oportunidades para comprar empresas.

Como pode ser visto no gráfico acima, após a recuperação econômica o IBOV apresentou uma expressiva alta.

Comprando em períodos de crise

Períodos como os de estagflação trazem consigo um grande pessimismo em relação à economia.

Muitas vezes este pessimismo pode ser exagerado.

Com a inflação e a falta de crescimento, muitos investidores acabam por perpetuar este cenário em suas análises.

Dessa forma, as ações passam a negociar com um grande desconto.

No entanto, nenhuma crise dura para sempre. A economia mundial e brasileira já superou superaram grandes crises.

Como por exemplo, a crise financeira global de 2008, e a crise da hiperinflação brasileira.

Alguns investidores mais experientes tais como Luiz Barsi, um dos maiores investidores do Brasil, aproveitam momento de estagflação para reforçar suas posições em acoes.

No mais recente período de crise brasileira, Luiz Barsi comprou muitas ações.
No vídeo abaixo ele explica porque proferiu a frase de que a ex-presidente Dilma merecia um “beijo na boca’.


Transcrição do vídeo

Luiz Barsi

“Eu me referi à Dilma, claro, de uma maneira respeitosa, mas de uma maneira que bem caracteriza qual é o meu sentimento em relação a uma crise.

Muita gente interpretou nesta frase que eu torço por uma catástrofe, mas não é o caso. Na realidade eu torço por uma crise.

E crises, muitas vezes, são causadas por governantes.

O fato da Dilma ter editado a medida provisória 579 que causou uma polêmica extraordinária no comportamento das ações de energia elétrica veio tão de encontro aos meus interesses, que a forma que eu tive de expressar minha felicidade foi dizer que eu daria um beijo na boca dela.

Algo que eu sabia que não ia poder acontecer, não foi no sentido pejorativo, claro, mas no sentido de agradecimento pois aquela atitude dela gerou um comportamento que muito me interessa.

Até teve um outro acontecimento em uma das reuniões que a gente esteve da Eletrobras que a gente indagou por que a Eletrobras não valia nada, valia menos que Belo Monte, por exemplo.

Quando houve a medida provisória tiveram analistas que falaram que as ações da Eletrobras chegariam a R$ 1, então nossa atitude foi falar para estes analistas “tomara que chegue a R$ 1, pois se chegar a gente compra tudo e manda esta diretoria embora”.

Então a frase do beijo na boca foi no sentido de gratidão, e nunca porque eu morro de amores por elas. Foi a gratidão no sentido de ter gerado uma situação favorável para quem investe em ações.”

Como pode ser notado, Luiz Barsi pouco se importou em relação a crise da economia na Brasileira. Na realidade, com a visão de longo prazo que ele possui, ele aproveitou o momento para comprar mais ações e assim obteve um bom lucro.

A inflação


InflaçãoÉ bastante óbvio porque a falta de crescimento econômico é nociva a um país.

No entanto, muitas pessoas não compreendem os reais malefícios do outro componente da estagflação, a inflação.

Além disso, muitas pessoas também não são esclarecidos quanto a suas causas, e como se superar um período de estagflação.

Causas da inflação

Entre as principais causas da inflação pode ser citado:

  • Expansão monetária
  • Aumento dos custos de matéria-prima
  • Excesso de demanda
  • Inflação crônica

Expansão monetária

Como foi visto, conforme a teoria do economista Milton Friedman, uma das principais causas da inflação é a expansão monetária.

Isto ocorre pois conforme há mais dinheiro na economia, este dinheiro passa a perder o seu valor.

Assim como commodities reagem a um excesso de oferta, um efeito semelhante ocorre com as moedas.

Por isso, uma política monetária excessivamente frouxa pode causar uma aceleração da inflação.

Esta pode ser considerada a grande causa da hiperinflação alemã no período pós-guerra.

Aumento no custo de matéria-prima

O aumento do custo de matéria-prima tende a ser repassado ao consumidor final.

Por exemplo, se um determinado produto utiliza o aço como insumo, e o aço sofre um grande aumento no seu preço, é provável que o produtor repasse este custo adicional para o seu produto.

Assim, o aumento do custo da matéria-prima acaba por causar inflação ao consumidor.

Foi o que ocorreu por exemplo com os EUA na década de 70 quando o preço do petróleo aumentou repentinamente.

Excesso de demanda

Se determinado produto possui uma demanda superior à oferta os produtores irão elevar o seu preço.

Dessa forma, este aumento irá gerar inflação.

Inflação crônica

Este tipo de inflação é comum é países que sofrem da hiperinflação.

A inflação crônica ocorre quando os produtores e vendedores passam a reajustar os seus preços independe de pressão no custo ou excesso de demanda.

Eles, como estão acostumados à grande e contínua inflação, passam a antecipadamente elevar os preços.

Isto, por sua vez, causa uma pressão maior ainda na inflação.

Esta foi uma situação vivida pelo Brasil nas décadas de 80 e 90.

Consequências da inflação

A inflação pode trazer sérios danos a uma economia e consequentemente à população.

Entre eles podemos citar:

  • Perda do poder de compra
  • Redistribuição aleatória de riqueza
  • Aumento excessivo do câmbio
  • Incerteza econômica

Como solucionar uma estagflação?

Este é um tema polêmico e que até hoje não há resposta definida.

Muitos economistas divergem a respeito da melhor solução.

No entanto, a história mostra que, para superar períodos de estagflação, são necessárias algumas medidas contracionistas.

Entre elas, pode-se citar uma política monetária restritiva, com elevação dos juros para conter a inflação.

No caso da estagflação também está sendo ocasionada por déficits fiscais, recomenda-se a diminuição dos gastos do governo.

Além disso, medidas para elevar a produtividade da economia devem ser realizadas de forma a retomar o crescimento.

Uma estagflação não se formou do dia para a noite, são necessárias anos de políticas econômicas equivocadas para chegar neste cenário.

Assim como a solução também pode demorar.

Ainda, as medidas contracionistas necessária para a solução podem causar, antes da melhoras, um aperto ainda maior na economia.

Por exemplo, a subida dos juros como medida para conter a inflação pode causar o aumento do desemprego.

Conclusão sobre estagflação


conclusão sobre estagflaçãoPolíticas econômicas governamentais equivocadas quase sempre trarão inicialmente uma prosperidade artificial por um tempo, no entanto, quando a realidade bater a porta e as pessoas menos esperarem um cenário de estagflação poderá estar instalado no país.

Uma medida que todo empresário ou investidor pode tomar para se precaver deste cenário é nunca trabalhar com muita alavancagem.

Além disso, ser moderadamente conservador ajuda pessoas e empresas a passar pelos ciclos econômicos de estagflação relativamente melhor do que todos os concorrentes, e isso é o que importa.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.