A diversificação

No final da década de 1990 o mercado de capitais dos Estados Unidos vivenciou o que hoje conhecemos como a “bolha da Internet” ou a “bolha das empresas ponto com”. Este movimento especulativo valorizava exponencialmente as ações das empresas do setor de tecnologia e comércio eletrônico relacionado com a rede mundial de computadores.

O sucesso repentino de empresas recentemente criadas, com promessas de lucros vindouros, fez muitos investidores ignorarem regras básicas de análise fundamentalista. Houve quem promoveu o que acreditava ser uma diversificação de investimento, comprando papéis de várias empresas do segmento “ponto com”. Com o estouro da bolha na virada do século, muitas empresas deste ramo simplesmente desapareceram, ou foram vendidas por preços módicos.

Quem investiu apenas em empresas “ponto com” naquele período, praticamente quebrou junto com elas, pois não estava devidamente protegido pela diversificação, que implicaria em investir em empresas de outros setores, como os da área financeira e energética.

Risco versus retorno

Para compreender o risco de se investir num único ativo, tomemos como exemplo a bolsa de valores de São Paulo, que possui cerca de 370 empresas listadas. Considerando apenas o período coberto pelo Plano Real, quem concentrou seus aportes na rede de lojas Grazziotin, presente apenas nos estados da Região Sul do Brasil, só teve motivos para sorrir: a empresa se valorizou mais de 55% no período, conforme dados aferidos pela Economatica.

Por outro lado, quem optou por tornar-se sócio de Eike Batista na portentosa OGX, empresa exploradora de petróleo e gás natural, viu seu dinheiro evaporar como gasolina no carburador de um Dodge Dart. A ação da empresa, que chegou a valer mais de R$ 2.300 em outubro de 2010, desembarcou no mês de junho de 2017 valendo menos de R$ 5.

Se a diversificação tivesse sido levada ao extremo, com aportes distribuídos pelas mais de 370 empresas, o risco de perca total do patrimônio seria zerado, mas o rendimento da carteira seria muito prejudicado, pois o sucesso das empresas campeãs de rendimento seria ofuscado pelos péssimos resultados das dezenas de empresas zumbis que se arrastam pelo mercado, drenando os miolos e o poder aquisitivo do investidor.

Diversificar é preciso

Saber diversificar na bolsa de valores é encontrar a razão que combina a diminuição de riscos com a preservação dos rendimentos, escondida num número de ativos entre dois e quase quatrocentos.

A diversificação é uma premissa básica de investimentos em valores. Existem vários modos de abordar este conceito, e não há consenso sobre a receita mais eficiente, por uma simples razão: ela simplesmente não existe, pois depende muito do perfil do investidor. Não há verdade absoluta sobre o tema. O que existem são experiências bem-sucedidas e estudos aprofundados sobre o assunto. É uma questão de bom senso conhecer as principais abordagens sobre a diversificação, para obter referências com vistas a definir uma estratégia própria de investimento.

Benjamin Graham e seus discípulos

O guru do “Value Investing”, Benjamin Graham, preconizava que uma diversificação eficiente era obtida com a carteira distribuída entre dez e trinta ativos. A carteira de ações ordinárias da Berkshire Hataway, empresa de investimentos regida por Warren Buffett e Charles Munger, teve variações fora deste intervalo ao longo dos anos: de apenas três papéis em 1987 para dez em 2003. Em 1980, no entanto, a Berkshire manteve 18 ativos em seu portfólio.

Walter Schloss, que trabalhou com Buffett na empresa de Graham na década de 1950, embora sem formação universitária, seguiu uma carreira como investidor sem acesso às fontes primárias de informação, mas pesquisando os relatórios anuais das empresas. Ele levou o critério de “margem de segurança” a sério e optou por encampar mais de cem ações, sempre compradas por valores de mercado abaixo dos valores intrínsecos das empresas. Obviamente este número elevado de ativos foi atingido ao longo de décadas, através do padrão “buy and hold” (comprar e abraçar).

O mito da diversificação com 15 ações

De acordo com William J. Bernstein há um mito em torno do número ideal de ações para se atingir uma diversificação segura. O número 15 ganhou destaque em diversos estudos e publicações na imprensa especializada em finanças desde a década de 1960. Concordava-se que com apenas 20 ações, de diferentes setores, se reduzia o risco da carteira em 70% e que, adicionar novos papéis não significariam reduções consideráveis no mesmo.

No entanto, novos estudos revelam que, nas últimas décadas, a volatilidade das ações aumentou de modo significativo. Paralelamente, o retorno do investimento em cada ação foi reduzido, mantendo inalterada a noção de volatilidade do mercado como um todo. Porém, como consequência, o número de ações necessárias para reduzir os riscos dos investimentos teria aumentado.

Aqui entra em voga a Teoria Moderna do Portfólio, que busca a proteção contra riscos sistêmicos de flutuações generalizadas no mercado, analisando o desvio padrão de retorno de uma carteira, cuja diversificação deve ir além das ações do mercado de capitais, englobando também fundos diversos e títulos de renda fixa, entre outros ativos.

Fique atento às taxas de gerenciamento da sua carteira

Dentre os jovens investidores mais respeitados do mercado, nesta segunda década do século 21, está Gretchen Tai, gestora do fundo de pensão dos empregados da Hewlett-Packard. Ela recomenda que as taxas para manter uma carteira de investimento devem ser próximas de meio por cento ao ano, e que muitos gestores de fundos e conselheiros financeiros cobram bem mais do que isso, indicando que o ideal seria que o investidor pudesse gerir pessoalmente sua carteira.

Tai distribui sua carteira da seguinte forma: 26% em ações de empresas consagradas no mercado norte-americano; 26% em fundos que investem em ações de mercados desenvolvidos como Alemanha, Japão, França, Reino Unido e Austrália; 10% em fundos que investem em ações de mercados emergentes como Brasil, China, Índia, México, Filipinas, Rússia e África do Sul; 3% em ações consideradas “small caps” nos Estados Unidos; e 10% em renda fixa atrelada aos papéis do Tesouro norte-americano, além de hipotecas e títulos corporativos com grau de investimento afiançado.

Ainda segundo Gretchen, o portfólio deve variar conforme a idade do investidor. Entre 24 e 34 anos ele pode ter sua carteira distribuída com 85% em renda variável e apenas 15% em renda fixa. Já após os 55 anos, os ativos de renda variável não devem passar de 55% da carteira daqueles que já atingiram a independência financeira.

Fundos atrelados aos índices de ações

Jack Bogle é o fundador do Grupo Vanguard e criador do primeiro fundo de índice para pessoas comuns em nível mundial. O conselho dele para o investidor individual é: Compre um fundo de índice de ações e adicione títulos à medida que envelhece”. Para ele, no longo prazo, os fundos de investimentos de baixo custo, atrelados aos índices das bolsas de valores, superam os resultados de grande parte dos fundos gerenciados ativamente, sem a necessidade do investidor se debruçar sobre a escolha de ações que podem não ser as vencedoras.

Para Bogle, o investidor com até 34 anos pode aplicar seus recursos em renda variável, desde que limitados a 70% da sua carteira. Acima dos 55 anos, este valor deve cair para 40%. Ele recomenda, em linhas gerais, que se adote a regra de descontar 20 anos da idade do investidor, para definir o quanto ele deve ter aplicado minimamente em renda fixa. Por exemplo, um sujeito de 40 anos deve ter pelo menos 20% de sua carteira atrelada à renda fixa. Já o senhor com 80 anos deverá elevar tal número para 60%.

A diversificação pelo “Modelo Yale”

David Swensen é o responsável pela gestão do fundo de investimentos da Universidade de Yale desde 1985, tendo desenvolvido o “Modelo Yale” com Dean Takahashi a partir da Teoria Moderna do Portfólio proposta inicialmente por William Sharpe, John Lintner e Jack Treynor. O sucesso de sua abordagem de investimento chamou a atenção de diversos agentes do mercado financeiro.

modelo yale

O “Modelo de Yale” é conhecido também como “Modelo de Doação”, que é baseado na divisão de um portfólio em seis partes iguais, com cada uma delas investindo numa classe de ativos diferente, mas evitando classes de ativos com baixo retorno, como os da renda fixa e os atrelados às commodities.

Ao contrário da maioria dos investidores que procuram ativos que tenham liquidez maior, Swensen afirma que ativos de grande liquidez estão relacionados com baixos retornos, preferindo aumentar a exposição de suas carteiras aos investimentos alternativos, incluindo os mercados emergentes, bem como as ações de empresas novas e menos conhecidas.

Swensen recomenda que o investidor reequilibre sua carteira de investimentos regularmente e que, se não estiver confortável com sua estratégia para bater o mercado, que invista em fundos indexados de baixo custo, como prega Jack Bogle, assumindo uma postura mais defensiva, uma vez que replicar o “Modelo de Yale” exige dedicação em tempo integral.

O método adotado por Barsi

A carteira do megainvestidor brasileiro Luiz Barsi Filho é mais parecida com a carteira da Berkshire Hataway do que com a carteira proposta por David Swensen. Como o mercado financeiro do Brasil ainda é um mercado de oportunidades, Barsi concentra sua carteira em apenas poucas ações, com uma exposição estratégica em renda fixa – não para obter retornos significativos das aplicações bancárias de resgates imediatos, mas justamente para que este montante seja usado nos aportes sempre que uma oportunidade surgir.

Barsi recomenda ao investidor individual que concentre suas aquisições sempre na melhor ação do momento. Como as condições do mercado são variáveis, as melhores ações também mudam a cada cenário que se estabelece – quando este não está claro, o melhor a fazer é guardar o dinheiro na renda fixa. É deste modo que a diversificação se desenvolverá ao longo do tempo, como aconteceu com a carteira gerida por Walter Schloss.

Pulverização?

Pequenos investidores, que conseguem poupar de R$ 500 a R$ 2.500 por mês com vistas a investir em bolsa de valores, devem tomar cuidado com as aquisições pulverizadas. Como as ações são vendidas primordialmente em lotes de cem unidades, não é aconselhável fazer compras fracionadas, pois elas tendem a encarecer o processo.

Tomemos por exemplo um investidor que tenha R$ 2.000 para investir na bolsa num mês. Se a taxa da corretora for de R$ 10 e os emolumentos cobrados pela bolsa também somarem R$ 10, os R$ 20 gastos na operação vão representar apenas 1% do valor total. Se ao invés disso o investidor dividir a compra em quatro ações, as despesas operacionais se elevariam para R$ 80 – ou 4% do mesmo valor. Ao longo dos anos, a diferença faria um estrago considerável.

Por outro lado, supondo que alguém venda um apartamento por R$ 500.000 visando trocar o aluguel por dividendos de fundos imobiliários. Neste caso, fazer a aquisição de cotas de quatro fundos, ao invés de apenas um, passa a ser interessante, dado o valor desprezível das taxas numa ocasião especial.

Quando concentrar é melhor

Ao fazer uma Assinatura Premium com a Suno Research, você tem acesso aos relatórios produzidos por analistas em linha com as melhores praticas de investimento em longo prazo, disponibilizando as oportunidades para a diversificação de ativos ao longo de sua carreira.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do "Value Investing". Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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