Por: Tiago Reis

Dicas para melhorar sua análise de empresas – Parte IV

Nesta última etapa, apresentarei uma dica para fechar a série de sugestões que apresentei essa semana com o objetivo de fundamentar melhor a decisão de investimento do leitor.

Foram apresentadas anteriormente três dicas essenciais para a elaboração de uma análise sólida de empresas. Na primeira parte, mostrei que é fundamental compreender o modelo de negócio e o funcionamento da operação da companhia.

Nas Partes II e III, abordei alguns conceitos contábeis essenciais na análise de uma empresa. Apresentei três documentos da contabilidade – Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado do Exercício e Demonstração dos Fluxos de Caixa – e mostrei a enorme diferença existente entre lucros e geração de caixa.

Hoje apresentarei um ponto relevante que o leitor deve se atentar ao analisar o Balanço Patrimonial de uma companhia.

 

4) O Balanço Patrimonial é uma “foto” dos investimentos e financiamentos da empresa

Pense na seguinte situação. Você acaba de se mudar para morar junto com seu cônjuge e ainda não se adaptou à mudança. Sua casa está extremamente desorganizada. Já é quinta-feira e sua esposa marcou uma confraternização na sexta.

Certamente, você não quer apresentar uma casa desorganizada aos seus colegas, então, você contrata uma faxineira para organizar sua casa.

Na confraternização, você e seus colegas tiram uma foto e a casa está perfeitamente organizada.

Uma semana depois, a desordem se instala novamente.

Podemos trazer essa analogia para a contabilidade de uma empresa. O Balanço Patrimonial (BP), mostra a situação dos investimentos e financiamentos de uma companhia ao final do exercício (geralmente no dia 31 de dezembro de cada ano).

Assim como a foto tirada na confraternização, o BP não mostra a situação da empresa ao longo do ano. Todos os ativos e passivos apresentados referem-se à situação da empresa no dia 31 de dezembro.

Da mesma maneira que a desorganização da casa foi mascarada com uma bela faxina, uma empresa pode mascarar suas contas de ativos e passivos para a “foto” sair melhor.

Pense que você é uma construtora que participa de licitações públicas. Em alguns casos, para participar da licitação, a empresa deve apresentar um índice de liquidez corrente superior a 1,5. Este índice é calculado subtraindo o passivo circulante do ativo circulante, ou seja, os ativos realizáveis no curto prazo devem ser 50% maiores do que as dívidas de curto prazo da empresa.

Na sua empresa, no dia 15 de novembro o seu índice de liquidez corrente está em 1,3, ou seja, você precisa aumentar seus ativos circulantes ou reduzir seus passivos circulantes para participar da licitação.

O bom resultado de suas operações depende disso e, portanto, você tem que corrigir este problema. Como sócio, você decide vender alguns ativos de longo prazo para inflar a conta caixa e, consequentemente, levar o índice ao patamar de 1,5.

No dia 31 de dezembro, o Balanço Patrimonial da empresa é divulgado e o índice está no patamar aceitável. Dois dias depois, você utiliza o dinheiro em caixa para comprar equipamentos e o índice volta ao patamar inicial.

Ao fazer isso, você não cometeu nenhuma atitude ilegal. Você apenas utilizou das normas contábeis a seu favor para poder participar de uma licitação pública. A ética por trás desta operação pode ser questionável, mas muitas empresas fazem operações deste tipo para participar de licitações públicas, conseguir crédito mais barato ou para atingir outros objetivos.

Outras contas podem não expressar a realidade da empresa e merecem ser analisadas com cautela. Entre as rubricas de ativos da empresa, geralmente encontramos a “contas a receber”.

Esta rubrica representa todos os pagamentos que a empresa deve receber no futuro e que ainda não foram realizados. Esta conta pode conter pagamentos a vencer e pagamentos vencidos. Aí que está o problema.

Em tese, a rubrica representa um ativo de alta liquidez, entretanto, muitas vezes a liquidez não existe. Pense que esta rubrica representa para sua empresa uma ativo de um milhão de reais, entretanto, 80% deste ativo está vinculado a contas vencidas a mais de 180 dias.

Muito provavelmente, uma parte significativa deste ativo não será realizada e, mesmo que ele represente um ativo bastante líquido na teoria, isso não se concretiza na prática.

Portanto, temos que tomar muito cuidado com a divergência entre a realidade da empresa e o que o Balanço Patrimonial nos diz. Uma análise mais bem fundamentada requer um detalhamento minuciosos das contas relevantes da empresa bem como de seus resultados.

Para isso, o analista deve utilizar as notas explicativas divulgadas pela companhia que trazem informações complementares as rubricas contidas no Balanço Patrimonial.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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