Por: Tiago Reis

A Segunda-Feira negra de 1987

Quem gosta de estudar a história do mercado de ações americano já deve ter se deparado com a crise de 29, uma das maiores crises da bolsa dos Estados Unidos. Mas o que muitas pessoas não sabem é que houve um outro período igualmente dramático para quem estava comprado em ações.

No dia 19 de outubro de 1987, uma segunda-feira, o índice Dow Jones, um dos mais importantes termômetros do mercado de ações, despencou 22,6%. Esta foi a maior queda diária na história da bolsa americana.

O caos se espalhou pelo mundo. No Japão, a bolsa de Tóquio registrou uma queda de 15,6% enquanto as ações neozelandesas perderam quase 40% do seu valor.

As causas da Black Monday

Não houve uma causa específica para a queda das ações a partir do dia 19, mas a moeda americana vinha se valorizando desde a metade da década de 80, quando o investimento estrangeiro Japonês e Europeu se intensificou bastante.

Com o Dólar fortalecendo, as exportações americanas se tornavam cada vez menos atrativas, o que fazia aumentar o déficit em conta corrente do país. Inicialmente, o Dólar começou a desvalorizar, mas os países Europeus, para protegerem suas exportações, juntamente com o FED (relutante), começaram um programa para segurar o Dólar.

Como o déficit corrente não melhorou, a medida necessária para atingir este objetivo foi via aumento das taxas de juros. Os investidores ignoraram este aumento em um primeiro momento, mas depois a atratividade crescente dos títulos de renda fixa ocasionou a queda das ações americanas.

Quando o governo anunciou o déficit de quase U$ 16 bilhões, uma semana antes da Black Monday, a bolsa começou a cair devagar, e no dia 19 de maneira mais intensa, a medida em que os investidores posicionados em ações começaram a vender contratos futuros, ou então outros investidores exerceram ordens de stop-loss. 

Um falso sinal

Crise de 29 (em cima) – Black Monday (embaixo) SIEGEL. Jeremy J. Stocks for the long run: the definitive guide to financial market returns and long-term investment strategies. 2 ed. Nova York: McGraw-Hill, 1998. Página 226.

Uma das coincidências mais interessantes da Black Monday é a incrível similaridade com a crise de 29, quando olhamos o padrão de preços antes do crash.

Exceto por um detalhe. Enquanto a Crise de 29 gerou uma grande depressão que se estendeu por uma década, o Dow Jones recuperou em quatro anos o mesmo nível antes da Black Monday.

Neste último caso, quem vendeu as ações no pânico e abandonou o investimento em ações, deixou de participar de um dos melhores períodos para a bolsa americana, culminando na bolha da internet nos anos 2000.

O que podemos aprender com a Black Monday

Muitos assinantes da Suno ainda não experimentaram uma queda da magnitude apresentada na Black Monday.

Como sempre gostamos de ressaltar, ações não sobem em linha reta. Quem esteve na bolsa no “Joesley Day” ano passado sabe muito como a bolsa brasileira pode ser muito volátil no curto prazo.

Este aviso é especialmente importante neste momento em que o otimismo começa a tomar conta dos brasileiros, que esperam um país melhor, e dos investidores, que esperam suas ações valorizarem.

Caso as reformas de que o Brasil precisa sejam realmente aprovadas, temos grande convicção de que haverá um grande influxo de capital para o país, assim como vários novos investidores começarão a investir na bolsa de valores.

Mas não acreditamos que esta trajetória ascendente de preços ocorra de maneira suave e sem interrupções. Esperamos muita volatilidade no caminho. É preciso estar preparado para esta turbulência.

Assim como o piloto do avião avisa os seus passageiros, nós estamos avisando os novos clientes.

Dias difíceis virão. Por isso é importante não entrar em pânico. Existem vários estudos que demonstram que deixar de estar investido em apenas alguns dias e semanas pode comprometer a rentabilidade final. Novamente, ações não sobem em linha reta.

Foco no longo prazo e bons aportes!

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

2 comentários

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  • Michel 17 de março de 2020

    Bom dia, sou assinante Suno e lendo esse artigo justamente enquanto estudo o livro de Siegel “investindo em ações no longo prazo” me faz questionar se foi feito a devida referência bibliográfica no artigo..

    Responder
    • Suno Research 17 de março de 2020

      Olá Michel,
      Obrigado pelo comentário! Ótima observação. A referência já foi adicionada.

      Responder
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