Por: Tiago Reis

A inteligência no mundo dos investimentos

Isaac Newton trouxe avanços tão importantes à Ciência que poucos, até hoje, tiveram capacidade de fazer algo similar. Com um QI extremamente elevado e a habilidade de calcular “na mão” até a 55ª casa decimal, sua inteligência está num patamar em que poucos, como Charles Darwin e Stephen Hawking, foram capazes de chegar.

Entretanto, por mais poderoso que seu cérebro fosse, acabou sendo incapaz de salvá-lo de dois dos instintos humanos mais básicos: ganância e inveja.

Em 1720, as ações da South Sea Company começavam a subir e a histeria coletiva estava se instalando nas ruas de Londres. Neste momento, Newton se viu em uma situação interessante. Ele havia comprado e vendido as ações após certa valorização, acumulando um retorno de 100% em seu investimento.

Mas, posteriormente, as ações acabaram multiplicando por oito em menos de seis meses. Incapaz de conter seu arrependimento, Newton comprou novamente as ações, investindo o triplo do capital que havia investido da primeira vez.

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Neste momento, as ações estavam perto da máxima histórica. Newton perdeu quase tudo. Quando a bolha estourou, foram necessárias apenas quatro semanas para que a cotação caísse 70%.

O ocorrido deixou-o desanimado. Dizem que, até o fim de sua vida, ele nunca mais suportou ouvir a combinação de palavras “South Sea” em uma frase.

Newton pagou caro para refletir sobre o seguinte: o quanto somos capazes de manter a inteligência e a lucidez quando fazemos uma tentativa de transformar dinheiro em ainda mais dinheiro?

Quando perguntado a respeito das movimentações do mercado, Newton respondia:

“Posso calcular o movimento de corpos celestes, mas não a loucura das pessoas”.

Trata-se de uma das pessoas mais sábias que já andaram sobre a Terra, mas, mesmo com todo o poder cerebral, não foi capaz de resistir e ficar de fora quando viu outros indivíduos alcançando ganhos expressivos.

Um alto QI não garante absolutamente nada no mundo dos investimentos. Esta é uma das coisas mais difíceis de serem aceitas pelos investidores iniciantes. O mercado não te recompensa apenas por ser inteligente.

Poder cerebral, por si só, é apenas um dos pré-requisitos que pode lhe conferir chances de ter uma experiência de investimentos positiva. Ser apenas inteligente não determina resultados de investimentos, pois os mercados não são lineares. A maioria das fórmulas eventualmente falhará (isso se um dia, pelo menos, elas já funcionaram).

As chances de retirar um sete de copas em um baralho completo é de 1 em 52. Porém, não existem meios de calcular as chances de uma recessão, dados x, y e z.

A inteligência no mundo dos investimentos não é absoluta, é relativa. Em outras palavras, não importa apenas o quão inteligente você é, mas sim quão inteligentes são seus competidores.

Em qualquer atividade que envolva habilidade e uma dose de sorte – como investir claramente envolve –, à medida que competência e inteligência melhoram, a sorte passa a assumir um papel mais relevante no resultado final.

Michael Mauboussin escreveu sobre esta ideia em diversas ocasiões, trata-se do “Paradoxo da habilidade”, como ele chama.

A ideia central é de que existem muitos participantes habilidosos no mercado, de modo que inteligência, por si só, não é suficiente. Outras habilidades são necessárias.

Um ótimo exemplo de gênios e suas limitações – que, por sinal, falei a respeito recentemente – se dá no caso de John Meriwether e seu grupo de Einsteins do Long-Term Capital Management.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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