Por: Tiago Reis

A importância do Ciclo de Caixa

Ao longo dessa semana tentei esclarecer alguns pontos fundamentais para auxiliar o leitor a aprofundar suas análises de empresas. Entre os temas abordados, comentei sobre a importância de conhecer profundamente a operação da empresa e sobre alguns tópicos de contabilidade, entre eles, a diferenças de geração de caixa e lucro.

Senti a necessidade de complementar os temas abordados com um texto sobre o ciclo de caixa das empresas, afinal, muitas pessoas já ouviram falar de capital de giro, entretanto, poucas pessoas compreendem o real significado do conceito.

Este conceito é fundamental para analisar a saúde financeira de uma empresa e tem origem no ciclo de caixa.

Começaremos com um exemplo para facilitar a compreensão. Pense que você possui uma revendedora de material escolar. Você compra o material com um fornecedor e revende para diversos clientes.

Como sua compra representa parcela significativa do faturamento do seu fornecedor, ele te oferece um prazo para pagamento de 20 dias. O número de dias entre a realização da compra e o pagamento representa o Prazo Médio de Pagamento (PMP).

Pense que este material ficou em média 40 dias estocado e, após esse período, você conseguiu vender o produto para seus clientes. O tempo entre a realização da compra e a venda do produto representa o Prazo Médio de Estocagem (PME).

Assim como seu fornecedor, você ofereceu aos seus clientes a possibilidade de realizar o pagamento com prazo de 20 dias. O tempo entre a realização da venda e o recebimento do pagamento representa o Prazo Médio de Recebimento (PMR).

Estes três conceitos são fundamentais para compreender o Ciclo de Caixa. Pense que na maioria dos casos, as empresas têm que desembolsar caixa para pagar os fornecedores antes de receber o pagamento dos clientes e essa diferença entre o pagamento e recebimento configura o Ciclo de Caixa.

Para calcular o Ciclo de Caixa, você deve somar o Prazo Médio de Estocagem (PME) ao Prazo Médio de Recebimento (PMR) e subtrair o Prazo médio de Pagamento (PMP).

Assim você terá o tempo entre o pagamento dos fornecedores e o recebimento dos clientes. Este tempo determina o prazo de empréstimo necessário para sustentar sua operação, uma vez que você realizará o pagamento dos fornecedores antes de receber o dinheiro dos clientes. Para isso, é necessário que a empresa tenha capital de giro disponível.

Entretanto, nem sempre isso é verdade. Empresas com grande poder de barganha podem ter Ciclo de Caixa negativo. Mas quando isso ocorre?

Quando uma empresa tem um market share muito significativo no setor, ela geralmente consegue impor prazos de pagamento e recebimento que favorecem sua operação.

Pense no caso da Ambev, por exemplo. A empresa é a maior produtora de cerveja do país com diversas marcas que inundam as redes de supermercados, bares e restaurantes.

Seus fornecedores têm de oferecer prazos enormes para pagamento, uma vez que, caso não o façam, perderão suas vendas e muito provavelmente permanecerão com os estoques parados já que a Ambev compra boa parte da produção nacional de insumos para cerveja.

Do outro lado da cadeia, a Ambev não fornece prazos longos para recebimento de seus clientes, já que ela é a maior produtora de cerveja e qualquer bar, restaurante ou supermercado comercializa seus produtos.

Deste modo, a empresa consegue receber o pagamento dos clientes antes mesmo de realizar o pagamento de seus fornecedores, o que resulta em um Ciclo de Caixa negativo.

Olhemos para a fórmula anteriormente mencionada através de um exemplo didático.

Pense no seguinte ciclo operacional hipotético. A Ambev compra os insumos para a fabricação da cerveja e exige de seus fornecedores um prazo para realizar o pagamento de 120 dias.

A produção da cerveja leva cerca de 30 dias e, após 10 dias com o produto pronto em estoque, as cervejas são vendidas. Assim, 40 dias após a compra dos insumos, a Ambev recebe o pagamento de seus clientes, entretanto, ela pagará seus fornecedores 120 dias após a compra dos insumos.

Vamos calcular o Ciclo de Caixa da empresa. O Prazo Médio de Estocagem (PME) é de 40 dias enquanto o Prazo Médio de Recebimentos (PMR) é de zero dias, uma vez que ela recebe o pagamento à vista. O Prazo Médio de Pagamento (PMP) é de 120 dias.

Neste caso, a empresa possui um Ciclo de Caixa negativo de 80 dias (40 – 0 – 120 = -80), o que significa que a Ambev financia suas atividades com recursos dos fornecedores e ainda pode utilizar este recurso aplicando-o no mercado financeiro por um período de 80 dias antes de realizar o pagamento aos fornecedores.

Para qualquer empresa, quanto menor o ciclo de caixa, melhor. Ter o Ciclo de Caixa negativo é extremamente difícil e requer grande poder de barganha da empresa tanto em relação a seus fornecedores, quanto em relação aos seus clientes.

Empresas que conseguem operar desta maneira se encontram no melhor cenário possível em relação ao Ciclo de Caixa, pois conseguem financiar sua operação com capital não oneroso disponibilizado por seus fornecedores devido ao grande poder de barganha da empresa.

Agora se ponha no lugar do fornecedor da Ambev. Você se encontra no cenário diametralmente oposto. Sem poder de barganha, você tem de oferecer prazos enormes para recebimento e nem sempre consegue negociar com seus fornecedores grandes prazos de pagamento.

Assim, seu Ciclo de Caixa se torna muito longo e o capital de giro necessário para sustentar sua operação é grande. Isso faz com que você tenha a necessidade de captar recursos onerosos para sustentar a operação, o que te coloca em um cenário não muito agradável.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

1 comentário

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  • Flavio 21 de maio de 2019

    Parabéns! Bastante didático e esclarecedor

    Responder
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