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SoftBank ajudará no próximo grande passo, diz fundador do Olist

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O aporte de cerca de R$ 190 milhões na startup Olist, anunciado nesta quarta-feira (23), chamou a atenção do mercado. O investimento, sete vezes maior do que todo o capital que a empresa havia captado até então, deve ser usado para catapultar de vez a companhia no Brasil.

A Olist conecta lojistas, de pequeno e médio porte, a plataformas de marketplace, como Mercado Livre, Walmart e Americanas.

De acordo com o fundador do Olist, Tiago Dalvi, em entrevista exclusiva ao SUNO Notícias, para além do capital, a escolha do SoftBank para liderar o aporte foi baseada no poderio dos japoneses no mercado e na visão expansionista do fundo.

“Acho que o papel do fundo é ajudar a empresa a dar o próximo grande salto”, disse Dalvi.

Segundo o fundador, o montante servirá para financiar novas operações ao Olist, que pretende mais do que conectar lojistas aos marketplaces, mas também ofertar serviços financeiros, como crédito e capital de giro aos lojistas.

Além disso, o dinheiro também ajudará a expansão da operação da empresa, que pretende passar de 7 mil lojistas para 100 mil lojistas cadastrados nos próximos dois anos.

Confira a entrevista do fundador do Olist, Tiago Dalvi:

Como foi o aporte anunciado e por que neste momento?
É importante entender que na história inteira da Olist, nos últimos quatro anos, nós captamos algo próximo a R$ 24 milhões ao todo. Sempre fomos super diligentes na alocação de investimentos e preocupados com a saúde econômica do negócio e o quanto isso nos permitia investir em crescimento.

Chegamos no início de 2019 olhando para o mercado, o contexto era excelente, o negócio também estava com crescimento no número de lojistas, [crescimento] do marketing, estava tudo azeitado e, assim, decidimos sair para o mercado conversar com os investidores sobre a melhor forma de fazer essa rodada, falamos com muitos fundos, praticamente todos os grandes do Brasil, muitos fundos dos EUA.

Saiba mais: Olist, startup brasileira, recebe aporte do fundo de investimento do Softbank

De onde veio a conversa com o SoftBank e por que eles?
Quando falamos com o SoftBank foi muito bacana porque, de certa forma, o modelo do Olist é único no mundo, não tem nenhuma empresa fazendo exatamente o que a gente faz, não há algo para se comparar nem nos EUA ou na China, de onde eu acabei de voltar, e não tem gente fazendo. Isso é algo que o SoftBank adora e vem ajudar a escalar isso.

O grande motivo de escolher o SoftBank, muito além de capital, foi o ecossistema de suporte que eles trazem para as investidas. É algo fantástico. O apoio, a maneira de como sofisticar o negócio, o time, tem muitas sessões de value creation, eles fazem muitos summits. Eu acabei de voltar de um summit deles na Califórnia falando de marketing e aí é só a galera dessas empresas super referência, que estão muito lá na frente, então você aprende muito com essa rede. Esse foi o fator principal, muito além do capital.

Outra coisa é que tem um match muito forte com os sócios do SoftBank. São só pessoas que admiramos muito, com fantásticas experiências. Acho que o papel do fundo, que talvez seja o racional utilizado para tomar a decisão, é ajudar a empresa a dar o próximo grande salto. A gente viu no SoftBank que eles têm exatamente essa característica e essa qualidade.

Tem muito do que a Red Point Eventures e o Valor Capital Group fizeram com a gente lá atrás no seed, depois no serie A e serie B. Cada um deles ajudou o Olist a dar um salto de sofisticação a chegar no próximo nível e acho que agora o SoftBank vem com esse papel também.

Objetivo de crescimento da Olist

Esse aporte vem como forma de participação acionária no Olist?
Sim. Eles entram para investir na companhia então esse dinheiro vem para a gente poder escalar. Red Point e Valor Capital acompanharam para manter participação e para a gente isso é super relevante.

Quais os propósitos dessa rodada?
Os propósitos desse investimento é utilizar esse montante em basicamente dois grandes blocos. O primeiro é, como falei, aproveitar que azeitamos muito bem a parte comercial e expandir a base de lojistas cadastradas no Olist. Queremos sair de 7 mil lojistas para 100 mil nos próximos dois anos.

Isso é um crescimento relevante…
Isso é muita coisa, o Brasil tem hoje cerca de 1,6 milhão de micro, pequenas e médias empresas com o perfil que a gente trabalha das quais eu diria que 150 mil estão online e o resto estão offline. É o cara que não tem ideia de como se digitalizar, não sabem o que é marketplace e esse é o perfil que o Olist trabalha. É o cara que não precisa entender, a gente entra, conecta no negócio dele, extrai o cardápio dele, o portfólio, traz inteligência de preço, ajudamos na logística e colocamos tudo isso no piloto automático.

Mas, para esse crescimento acontecer, não é necessário uma retomada do varejo? Ou ao menos do varejo via e-commerce?
Não, a gente não depende de nada disso. Hoje, para o Olist crescer, é que trazemos lojistas que nunca entraram no digital para esse mundo online. E esse é o brilho do negócio. Esse lojista já existe e só precisamos captar essas pessoas. Também teremos uma presença muito mais marcante no offline e iremos fincar a bandeirinha do Olist offline e estar cada vez mais próximo desse lojista, distribuidor, fabricante, marcas.

A segunda frente é a construção de ecossistema com serviços adicionais que giram em torno do core do Olist, que é gerar vendas a esses lojistas. Hoje quando conectamos no lojistas a gente dá liquidez para o estoque parado na loja dele. O que a gente quer começar a fazer a partir deste aporte é entregar adicionais. Por exemplo, eu posso entregar uma integração com uma plataforma de e-commerce, com soluções para ajudar eles a serem mais eficientes, serviços financeiros, como crédito produtivo, capital de giro, antecipação de recebíveis, e muita coisa legal que a gente consegue adicionar nesse core do Olist e vamos começar a testar nesta iniciativa a partir de agora.

Vocês estão baseados em Curitiba (PR). A MadeiraMadeira, também da cidade, recebeu aporte recente do SoftBank Na semana passada, a Ebanx se tornou um unicórnio. Como está o ecossistema da cidade?
Curitiba tradicionalmente nunca foi vista como uma cidade onde o empreendedorismo está bombando. E é verdade que os empreendedores aqui presentes sempre foram muito focados no negócio, na execução. Nunca foram aqueles que falam para o mercado, estão o tempo todo na mídia.

Só que agora, as empresas atingiram um tempo de maturidade que não tem mais como aparecer. MadeiraMadeira, Ebanx, Olist, temos diversas empresas que estão em nível de maturidade acima de serie B, serie C que são relevantes para o ecossistema e também tem uma série de startups, talvez em rodadas de serie A, que fazem um grupo de acesso, que estão bombando também.

Então eu diria que o ecossistema está super forte, os empreendedores estão super próximos, estamos fortes para trazer pessoas de fora para Curitiba. A base de sustentação para o nosso crescimento é a expansão do nosso time, estamos com 300 pessoas, com projeção de 380 para o final do ano e para mais de 800 no ano que vem.

Muitas dessas pessoas vem de fora, inclusive. Curitiba é uma cidade muito atrativa, com qualidade de vida excelente, custo de vida razoável em comparação com São Paulo e Rio de Janeiro e isso ajuda muito.

Você já havia tentado empreender em outras oportunidades e falhou. Como essas falhas te ajudaram agora no Olist?
Eu senti as dores. A gente nunca teria construído o nosso modelo de negócio atual sem ter tido a dor de ser um lojista, então o efeito não seria o mesmo se eu nunca tivesse consolidado caixa, embalado produtos no final de semana para fazer entrega na semana seguinte, ter tido muita dor com operadores logísticos.

Hoje, de certa forma, a solução que o Olist traz para o lojista é baseado em contornar a dor que tivemos no passado. Então acho que não teria como chegado onde chegou se não tivéssemos vivido o passado.

Isso também ajuda muito a formar uma cultura a dar valor. Aqui não é uma cultura que entrou dinheiro e agora vamos bombar, agora tudo é festa. Não. Chegar até aqui deu muito trabalho e é muito difícil na verdade ter passado por cada uma dessas etapas, então é importante a gente dar valor e ter um racional muito relevante e que faça sentido nas coisas que fazemos.

Então sem essa história, a história do Olist não seria tão robusta e um negócio tão sólido como é hoje.

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Vinicius Pereira
Vinicius Pereira foi repórter de economia da Folha de S.Paulo, stringer do jornal no Canadá e colaborador de VEJA. Já escreveu também para BBC Brasil, The Intercept Brasil e UOL.