Renda Cidadã é visto como descompromisso e mercado rejeita “populismo”

Renda Cidadã é visto como descompromisso e mercado rejeita “populismo”
Renda Cidadã é visto como descompromisso e mercado rejeita "populismo"

O anúncio do Renda Cidadã, realizado na segunda-feira (28), por membros do governo Bolsonaro, pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e congressistas, caiu como uma bomba no mercado de capitais brasileiro. O Ibovespa, o principal índice acionário da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), que vinha subindo até então, passou a engatar duas quedas seguidas depois do aviso -se descolando dos índices internacionais, que operam em alta.

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De acordo com especialistas ouvidos pelo SUNO Notícias, a forma como o governo pretende arranjar recursos para financiar o Renda Cidadã é o principal ponto de descontentamento entre os agentes do mercado financeiro, que classificaram a estratégia como “populismo” e “descompromisso com a saúde fiscal brasileira”.

Na proposta apresentada pelo governo Bolsonaro, o Renda Cidadã, programa social que deverá substituir o Bolsa Família, deverá ser bancado por recursos que deveriam ser destinados a pagamentos de precatórios e ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).

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Para Miguel Galvão, analista da Vista Capital, a opção de destinação dos recursos da educação e de dívidas (que são os precatórios) da União mostra que o governo não possui compromisso fiscal.

“[O anúncio] mostrou um total descompromisso com o fiscal, priorizando eleições. Ao invés de reformas, e uma agenda de sustentabilidade fiscal, optaram por contabilidade criativa/calote. Já vimos esse filme antes com Dilma”, disse o analista.

A proposta prevê que cerca de 2% da receita corrente líquida para pagar os precatórios seja destinada ao novo programa social. Os precatórios são valores devidos pela União a pessoas físicas ou jurídicas após sentença definitiva na Justiça. Essa destinação foi vista como uma forma de calote do governo.

O senador Márcio Bittar (MDB-AC), relator do orçamento de 2021,  afirmou que o valor pago no Renda Cidadã deve ficar entre R$ 200 e R$ 300, pelo menos no primeiro ano. Isso traria um custo de cerca de R$ 32 bilhões por ano aos cofres públicos.

Além da destinação de recursos dos precatórios, a queda nas receitas causada pela crise do coronavírus (covid-19) e a necessidade de cortes para manter o teto dos gastos intacto, a sinalização de novos gastos -sem contrapartidas -é vista como uma forma de populismo.

“O mercado não gostou da ideia da Renda Cidadã porque parece que vem a mente uma ideia de populismo e há uma sinalização mais forte com um descompromisso com os gastos fiscais”, disse Johnny Mendes, professor de economia da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

“Populismo não é visto com bons olhos. Qualquer sinalização negativa e que vá em linha em qualquer compromisso com risco fiscal, atrapalha”, afirmou Mendes.

Forma de financiamento do Renda Cidadã derruba o mercado

A interpretação negativa dos agentes do mercado em relação a forma de financiamento do Renda Cidadã fez com que a Bolsa caísse. Na segunda-feira (28), o Ibovespa fechou em queda de 2,41%, a 94.666,37 pontos, após abrir em forte alta acompanhando o bom desempenho do setor bancário no exterior.

Já nesta terça-feira (29), em meio a digestão das notícias, o índice volta a operar em queda. Segundo analistas, o governo também demora a mostrar que entendeu o recado.

“A dificuldade do governo de entender o “choque” do mercado, assusta também. Parece em total descompasso com a realidade”, disse Miguel Galvão, analista da Vista Capital.

Como o mercado de capitais precifica também o risco, os preços dos ativos despencaram. Como o governo Bolsonaro sinaliza que pode aumentar os gastos públicos, o risco país tende a aumentar. Com o risco país maior, o valor dos ativos também deve passar por uma correção.

“Se os gastos vão subir de maneira desproporcional, o risco país vai aumentar. Esse aumento está dentro de um contexto de pandemia que ainda estamos vivendo, de eleições presidenciais nos EUA”, disse Johnny Mendes.

“Isso aumenta o risco país e o risco de todas as empresas. Então o valuation das empresas acaba ficando menor do que o que vinha sendo pautado com um outro tipo de risco. Nesse momento incluir o Renda Cidadã como estava sendo incluída, o mercado reage negativamente e alinhado com o que ele tinha de expectativa”, concluiu.

Vinicius Pereira

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