Avanço das mulheres nos investimentos enfrenta revés na pandemia

Avanço das mulheres nos investimentos enfrenta revés na pandemia
Desemprego feminino afeta avanço das mulheres nos investimentos

O mercado financeiro tem começado a se mobilizar para atrair as mulheres para o mundo dos investimentos, ao mesmo tempo em que elas buscam mais informações sobre o assunto. No entanto, o avanço das mulheres nos investimentos tem enfrentado um desafio adicional durante a pandemia do coronavírus: o desemprego.

Isso porque a mulher foi o grupo mais afetado pelo desemprego no Brasil. Segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), entre março e setembro, foram fechados 897,2 mil postos com carteira assinada, sendo que 588,5 mil eram ocupados por mulheres.

Com o retrocesso, a participação feminina no mercado de trabalho ficou em 46,3% no segundo trimestre deste ano, sendo que desde 1991 não ficava abaixo de 50%, segundo dados do IBGE.

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Pandemia compromete avanço das mulheres nos investimentos

Além disso, a mulher tem vivenciado uma jornada muito mais intensa com filhos em casa, devido ao fechamento das escolas em todo o país, iniciado em março. De acordo com dados compilados da Gênero e Número e da SOF pelo Estadão, 50% das mulheres passaram a se responsabilizar pelo cuidado de outra pessoa durante o período do isolamento social.

“Sem a menor dúvida as mulheres foram as mais afetadas no ponto de vista de demissões. Mas também muitas consideraram deixar as empresas da onde elas trabalham, em diferentes níveis e posições, devido às pressões que estão sofrendo tanto em casa quanto no trabalho”, disse a fundadora do Todas Group, plataforma de educação para carreiras femininas, Tatiana Sadala.

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As dificuldades enfrentadas pelo público feminino em relação ao mercado de trabalho impactam diretamente a capacidade de investir. “Investe no mercado financeiro quem tem entrada recorrente. A pessoa sem uma renda, não só deixará de investir mensalmente como “raspará” todas as suas economias para assegurar o pagamento de suas necessidades mais básicas”, afirma a  educadora financeira Silvia Alambert Hala.

Segundo ela, a oportunidade de mais mulheres investirem na bolsa diminui, à medida que vemos mais mulheres sendo demitidas de seus trabalhos.

Além da situação das que perderam o emprego, Silvia destaca o desafio vivido por aquelas que seguem trabalhando. “Ainda que a família conte com duas rendas, as mulheres são as que passam mais tempo se ocupando com os cuidados e a educação dos filhos. Além disso, o mercado de trabalho ignora o fato das mulheres terem passado a realizar tripla jornada“, diz.

Dentista precisou utilizar as economias

A história da dentista Sheila Cardoso Sipas, de 45 anos, é um bom exemplo de como a situação do trabalho feminino pode jogar um balde de água fria sobre os planos das investidoras. Dona de um consultório odontológico na capital paulista há 22 anos, ela precisou parar de trabalhar por determinação dos órgãos de saúde.

Mulheres investimentos
A dentista Sheila Sipas teve que desistir dos investimentos com a pandemia

Ela conta que havia começado a investir no início de 2020, com o objetivo de ter mais liberdade financeira. “Eu tinha aberto conta em uma corretora de valores e estava dando os primeiros passos para conseguir investir mais, mas com a pandemia eu tive que ‘raspar’ este investimento para pagar minhas contas e conseguir me manter e sustentar o meu consultório”, conta.

Quando o trabalho voltou, Sheila enfrentou outro problema. Os filhos, de 10 e 12 anos, estão sem frequentar a escola, e ela não tem com quem deixá-los. O marido de Sheila continuou a trabalhar no escritório, e a única opção de Sheila era ficar em casa para cuidar dos filhos. “Mesmo quando voltei a trabalhar, era apenas com emergências porque realmente não tinha como lidar com trabalho, casa e as crianças.”

Sheila às vezes ainda tem de levar seus filhos ao consultório, “o que é uma confusão porque eu não trabalho direito e eles também não estudam”.

Perdi meu emprego, e agora?

Para as mulheres que perderam seus empregos na pandemia, é importante revisar todos os gastos para procurar otimizar os recursos. Segundo a economista e educadora financeira fundadora da Rico Foco, Andreia Fernanda, o consumo deve ser reduzido para tentar sobrar recursos para o mês seguinte.

A educadora Silvia também destaca que mudar o estilo de vida para fazer as contas fecharem é fundamental. “Se ela tiver alguma renda, ela deve poupar, o mínimo que seja”, diz, se referindo a famílias em que alguma das pessoas manteve o trabalho ou está no mercado informal.

Além disso, há caminhos também para a mulher que deseja se reinserir no mercado. A fundadora do Todas Group, aponta que primeiro precisa entender qual é o anseio desta mulher. Algumas perguntas podem guiar esse processo, como qual empresa? Qual área? O que quer fazer? Respondidas essas dúvidas, agora é partir para cuidar do currículo e se conectar com pessoas no LinkedIn.

Na falta de um emprego formal, muitas mulheres acabam empreendendo. “Existe uma parte conexão e uma parte de preparação. Outra coisa que surpreende é que as mulheres por falta de opções, com dificuldade de reinserção, acabaram empreendendo e muitas falaram que não querem voltar para o mercado corporativo, tenho acompanhado mulheres se reencontrando no empreendedorismo”.

Embora seja impossível equilibrar todos os “pratos”, as especialistas destacam que o planejamento financeiro precisa ser uma prioridade. “Porque se ela perde o controle financeiro inicia-se uma ansiedade. E com a queda desse prato ela perde também o poder de escolhas”, afirma Andreia Fernanda, economista e consultora financeira da Rico Foco. “Esse prato é o único que ela não pode deixar cair”.

Presença das mulheres nos investimentos ainda é desafio

Atualmente, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) conta com 25,7% de participação feminina nos investimentos. O número de mulheres investidoras na bolsa de valores quase dobrou em outubro de 2020, quando comparado com um ano antes, passando de 388 mil para 809 mil.

Apesar da plataforma de negociações estar registrando avanço, esse número é pequeno quando comparado com o total de mulheres no Brasil, o que corresponde a 51,8%.

“A independência financeira é poder fazer suas próprias escolhas da sua vida. Quando a mulher passa a investir ela passa a ter uma voz de decisão e ser independente financeiramente”. Ela sugere que as mulheres comecem seus investimentos assim que possível, mesmo que o valor seja pequeno. “Comece com R$ 10, mas comece”, afirma Andreia.

“Tem pessoas que falam, meu relacionamento é super estável e eu não vou me separar, mas não é apenas sobre isso. E se você quiser sair do seu emprego? Se tiver seu dinheiro, não precisará que todo mundo te apoie para sair do seu trabalho. E se você quiser aposentar mais cedo? Ou viajar? Seja sempre investidora para que você tenha essa autonomia de decisão”, destaca Andreia Fernanda.

Em outras palavras, é importante que as mulheres continuem investindo em suas vidas, em seus negócios e na bolsa. “Conquistar sua liberdade financeira é também ter voz nos negócios e na própria vida”, completou Sadala, sobre a importância das mulheres nos investimentos. Para isso, a educação financeira das mulheres é fundamental.

Poliana Santos

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