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JBS se recupera pós “Joesley Day” e quer protagonismo de volta

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Quem acompanha negócios fatalmente se lembra (ou já ouviu falar) do famigerado “Joesley Day”. O dia que o mercado acionário no Brasil sofreu um de seus maiores traumas recentes. Tudo provocado por um escândalo que tinha como seu epicentro a gigante das carnes JBS (JBSS3).

Naquele dia 17 de maio de 2017 a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) chegou a cair 10,47%, as negociações foram suspensas por 30 minutos e o dólar teve sua maior alta em 14 anos. O que parecia o fim da linha para a JBS, que viu seu principal executivo envolvido em crimes e intrigas com o poder público, se tornou um marco na reconstrução da gigante das carnes, que agora quitou dívidas, voltou às compras e busca de volta o protagonismo global de outrora.

Joesley Day e a crise na JBS

O “Joesley Day” ocorreu após a divulgação de que um dos principais acionistas da multinacional JBS, Joesley Batista, tinha gravado o então presidente Michel Temer. Joesley teria sido recebido no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, fora da agenda oficial e no meio da noite. Durante a gravação o presidente teria pedido a ele a manutenção de um esquema de pagamentos de propina envolvendo outros políticos, entre os quais, o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. 

No olho do furacão, a empresa chegou a perder cerca R$ 9 bilhões em valor de mercado nos dias seguintes, segundo dados da consultoria Economatica.

O papel caiu para a casa dos R$ 5. O mercado, atento as movimentações e ao noticiário, previa que a empresa perderia negócios bilionários e empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por causa do envolvimento de seus principais executivos em esquemas ilícitos.

O caos acabou se instalando exatamente onde já haviam problemas. Dois meses antes, a Polícia Federal (PF) tinha realizado uma operação em plantas da empresa em busca de vestígios de corrupção envolvendo a fiscalização sanitária, no âmbito da operação Carne Fraca. 

Nesse período de pura turbulência, o futuro da antes considerada “campeã nacional” e escolhida para liderar o setor de carnes no País, ficava nebuloso aos olhos do mercado. A empresa afundava. E o mercado se perguntava se ela seria mais uma que ficaria pelo caminho?

Há um ditado popular que diz que “quando tudo for tempestade, aprenda a dançar na chuva”. E parece que foi isso que os executivos da JBS fizeram. A gigante alimentícia mostrou que os passos de dança aprendidos em meio ao aguaceiro estavam seguindo a batida de volta ao ritmo.

Quem previu que esse seria o fim da empresa, perdeu a aposta. Apesar de o dia do caos ficar famoso e levar a alcunha do dono da JBS até hoje, a empresa parece ter dado e a volta por cima.

Suas ações subiram cerca de 300% desde maio 2017. Hoje os papéis da JBS estão sendo negociados por volta de R$ 30.  Mesmo assim, a companhia ainda aparece menos valorizada do que suas principais concorrentes no setor.

“O problema da Lava Jato assustou bastante o mercado, mas a JBS reagiu e afastou os envolvidos, inclusive o Joesley, e também profissionalizou o time das empresas. Também foi beneficiada por fatores externos, e, assim, a empresa voltou a ser interessante”, declarou para o SUNO Notícias Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos.

Joesley está, desde 2017, afastado do comando. O executivo durante um prazo de cinco anos, como parte do acordo entre JBS com a Justiça.

JBS se recupera de “Joesley Day” e volta à ativa

A volta por cima da JBS também se comprovou nas contas, quando a empresa voltou a ter resultados expressivos em seus balanços. No segundo trimestre deste ano, a gigante das carnes apresentou lucro de R$ 2,2 bilhões ante R$ 911 milhões no mesmo período do ano passado. A geração de caixa livre da empresa no período foi de R$ 3,7 bilhões, valor 92,6% superior ao apresentado no segundo trimestre de 2018.

O resultado foi, em parte, provocado pelo surto de peste suína na China, no qual o setor brasileiro de carnes como um todo também vem sendo favorecido. 

O país asiático, maior produtor mundial de carne suína, está sacrificando cerca de 200 milhões de animais por causa da epidemia. Um problema que afetou sensivelmente a oferta chinesa e abriu o caminho para os produtores brasileiros.

Para Silveira, essa queda na oferta no maior mercado mundial  ajudou a empurrar a JBS de novo para o centro das atenções mundiais.

O lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) aumentou em 20,3%, atingindo R$ 5,1 bilhões.

“O aumento das vendas pelo problema chinês acaba gerando um aumento da margem do Ebitda porque o lucro dela aumenta e o custo não sobe na mesma velocidade da receita”, explicou o economista, “A JBS continua vendendo carne a um preço super elevado e a expansão das compras dela no mercado não sobe. Então, se a empresa tinha alguns milhões de cabeça já adquiridas, prontas para o abate, venderá por um valor muito maior que o planejado anteriormente”, afirmou ele.

A companhia também se antecipou e quitou todas as dívidas com bancos públicos, orçadas em cerca de R$ 5 bilhões, segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”.

Os pagamentos poderiam ser realizados até 2021, mas a JBS preferiu quitar os débitos como forma de diminuir a exposição da empresa e a exposição de ativos dados em garantia, reduzindo os juros e o alongamento do perfil de endividamento.

JBS volta às compras

Com menos dívidas e o caixa cheio, a gigante brasileira anunciou a compra da britânica Tulip Company, líder em produção de carne suína, em um negócio avaliado em US$ 354 milhões. Era o marco definitivo da volta da JBS ao mercado global, onde tentara ser protagonista antes dos escândalos, com uma série de aquisições de concorrentes.

Confira: JBS compra Tulip Company, líder do mercado de carne suína do Reino Unido

O presidente Gilberto Tomazoni afirmou que a companhia está voltando aos planos de listar ações na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE). “A JBS está em seu melhor momento na história”, declarou o executivo há algumas semanas, não descartando possíveis novas compras no exterior.

O perigo, agora, parece ser mais em relação a fatores externos do que na própria estrutura de governança da empresa. Na avaliação do BTG Pactual, a taxa de câmbio e alguns fatores, como a possibilidade de sanções comerciais, podem afetar a JBS no futuro.

“A JBS está sujeita a condições macroeconômicas locais, principalmente taxa de câmbio, crescimento do PIB e inflação”, informou o banco de investimento em um comunicado, “As sanções dos países importadores e a exposição a commodities são preocupações fundamentais do setor”.

Qual o futuro da JBS agora?

Os bons resultados da empresa, aliada com a volta de sua estratégia global, trouxeram o debate sobre o futuro da JBS. A perspectiva é positiva, segundo analistas consultados pelo SUNO Notícias.

Alguns indicadores de mercado mostram que a companhia já começou a arrumar a casa. A gigante das carnes possui, atualmente, números melhores que as concorrentes no País.

“A JBS tem apresentado um desempenho mediano, comparado a Marfrig, Minerva e BRF. Porém, a JBS está em melhor situação quanto à geração líquida de caixa (fluxo de caixa livre) e também tem melhores indicadores de endividamento, com risco inferior às concorrentes”, declarou Marcos Piellusch, professor de contabilidade e coordenador dos cursos de finanças da FIA.

Mesmo com os resultados, o múltiplo Ebitda mostra que JBS não está longe do valor das concorrentes na análise do mercado. Ou seja, segundo analistas, não há como indicar se a empresa está subvalorizada no mercado.

Confira: JBS apresenta lucro líquido de R$ 2,2 bilhões no segundo trimestre

Para Piellusch, a JBS está com um desempenho regular justamente por ter seu múltiplo próximo as demais empresas. “O múltiplo de Ebitda da empresa está 10,5, enquanto Marfrig está com 6,75, Minerva com 6,4 e BRF com 13,5. Comparando apenas com as concorrentes, os múltiplos da JBS são medianos”, explicou o professor.

Se é difícil apontar um caminho para o futuro da JBS no momento. Entretanto, a história recente da empresa mostra que duvidar da capacidade da gigante das carnes não é a melhor das opções.

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Vinicius Pereira
Vinicius Pereira foi repórter de economia da Folha de S.Paulo, stringer do jornal no Canadá e colaborador de VEJA. Já escreveu também para BBC Brasil, The Intercept Brasil e UOL.