Finanças pessoais

FGV: mais 90% de quem tenta viver de day trade têm prejuízo

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Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra como seja quase impossível sobreviver fazendo “day trade”. A pesquisa foi encomendada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Os pesquisadores da FGV Fernando Chague e Bruno Giovannetti analisaram dados de 2012 até 2017. Foram monitoradas 19.696 pessoas que começaram a operar com day trade. 

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Desse total, apenas 1.558 (7,9%) tentaram operar no médio-longo prazo. Ou seja, continuaram no day trade por mais de 300 pregões. Cerca de 91% desse grupo registrou prejuízo. No total, as perdas acumularam R$ 68,4 milhões. Uma média de R$ 35,90 por dia para investidor, com picos de mais de R$ 1 mil. Um cálculo que não considera o custo de corretagem e despesas com plataformas de negociação ou eventuais cursos. Foram contabilizados apenas os emolumentos e taxa de registro variável cobrada pela B3.

Apenas 13 pessoas, ou o 0,8% desse grupo, tiveram lucro médio diário acima de R$ 300. O valor médio diário de R$ 300 é considerado como o ganho de um motorista de um aplicativo de transporte particular.

“Nós apresentamos fortes evidências de que não faz sentido, ao menos econômico, tentar viver de day trading. Os dados indicam que a chance de obter uma renda significativa é remota para as pessoas que persistem na atividade. Por outro lado, a chance de se obter prejuízo é muito elevada”, escreveram os pesquisadores no estudo.

Curva de aprendizagem é falso mito

Além disso, a pesquisa mostra como a curva de aprendizagem também seja um falso mito. Muitas consultorias indicam como, em cerca de um ano, o trader possa aprender como lucrar em operações de day trade.

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Os pesquisadores da FGV excluíram então da análise os primeiros 250 pregões dos investidores. E, mesmo assim, os resultados não mudaram sensivelmente. Cerca de 88% dos operadores continuaram tendo prejuízo e menos de 1% teve lucro diário acima de R$ 300.

Ao contrário do que se pensa, o estudo mostra como o desempenho do day trader piore com o tempo. Um resultado que aparece utilizando a regressão.

“Uma possível explicação é que à medida que a perda acumulada do day trader vai aumentando, ele vai tomando decisões cada vez mais equivocadas”, explica o estudo da FGV.

Segundo os pesquisadores, o mercado de day trade envolve grandes operadores e investidores institucionais com muitos recursos e tecnologia. Sendo um mercado com  jogo de soma zero, sempre há alguém que perde outros ganham.

A pesquisa não considerou ganhos com dividendos. Isso porque no day trade o investidor não mantém a ação em sua carteira, não tendo o direito a receber os dividendos distribuídos para os acionistas. Assim como, do outro lado, não tem a obrigação de pagar qualquer imposto.

Longo prazo muda o jogo

A pesquisa da FGV mostra como os investimentos de longo prazo mudem radicalmente o cenário.  “Se você investe em ações pensando no longo prazo, na aposentadoria, vale muito a pena. Porém, isso é completamente diferente de entrar na bolsa todo dia para comprar e vender”, mostra o estudo.

CVM lança alerta contra day trade

A proliferação de corretoras e casas de análises que promovem o day trade levou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a emitir um ofício na última quinta-feira (7). A CVM orientou as casas de análise a evitar expressões como “renda certa”.

Nova cultura de investimentos no Brasil

Para Tiago Reis, fundador da SUNO Research, o resultado dessa pesquisa era esperado. “Para mim isso não é novidade. Basta pegar a lista dos maiores investidores do mundo para ver claramente que não tem um day trader”, explicou Reis.

Entretanto, segundo ele o Brasil ainda precisa de uma nova cultura de investimentos de longo prazo, que supere o day trade. “O País está caminhando na construção de uma cultura de investimentos. O brasileiro médio ainda não investe em ações. Ao criar uma falsa expectativa no investidor que não conhece o mercado, cria-se uma noção errada quanto à capacidade das ações em criarem riqueza”, explicou Reis, “vejo como altamente positivo a intenção da CVM em punir aqueles praticam a propaganda enganosa. Se queremos um país sério, precisamos de um mercado de capitais fortes e sem players operando na clandestinidade”.

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Carlo Cauti
Editor-chefe da SUNO Notícias. Formado em Ciências Políticas pela universidade LUISS G. Carli de Roma e mestre cum laude em Relações Internacionais, Jornalismo Internacional e de Guerra e em Economia Internacional. No Brasil, teve passagem por veículos de comunicação como O Estado de S.Paulo, G1, Veja e EXAME. Também trabalhou nas agências de notícias italianas ANSA e NOVA.