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Como a Coréia do Sul conseguiu enfrentar o coronavírus sem lockdown

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A Coréia do Sul foi o maior surto de coronavírus (covid-19) depois da China. O país asiático, geograficamente próximo ao epicentro da pandemia conseguiu todavia bloquear o avanço das das infecções sem ter que paralisar sua economia através de um chamado “lockdown”. Como isso foi possível?

Apenas algumas semanas atrás, a Coreia era o segundo país no mundo em número de casos de coronavírus depois da China, com 7.000 contágios confirmados. Em pouco tempo, todavia, Seul conseguiu desacelerar as infecções e até diminuir o número de casos. E tudo isso sem parar comércios, indústrias e a vida social.

A Coreia não fez sequer um dia de lockdown. Mas enfrentou a pandemia através de uma estratégia de investigação pontual e precisa das cadeias de transmissão sobre o vírus.

Atualmente, na Coréia do Sul existem “apenas” 9 mil casos e menos de 150 mortes. Por outro lado, países que adotaram o lockdown, como a Itália e a Espanha, estão registrando dezenas de milhares de casos de contágio por covid-19 e milhares de mortos. Mais de 10 mil italianos já faleceram pela doença, e quase 6 mil espanhóis também morreram.

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Em vez de tentar forçar a desaceleração das infecções impondo a todos os cidadãos – mesmo aos saudáveis ​​- um isolamento forçado, o governo coreano realizou um enorme número de teste. Não somente em casos suspeitos e naqueles que tiveram contato com os doentes, mas em qualquer pessoa que quisesse verificar se estava contagiado.

Ao contrário do que ocorreu na Itália, que realiza testes apenas nos casos de evidentes sintomas da doença, como problemas respiratórios, para ter um diagnóstico confirmatório. Na Coréia do Sul os testes têm o objetivo de identificar casos assintomáticos para colocá-los em quarentena e evitar que eles possam constituir cadeias de contágio.

Antes mesmo da chegada da pandemia no país, o governo coreano reuniu os representantes das indústrias farmacêuticas e concordou com eles a produção em massa de kit de testes para coronavírus. Agora a Coreia do Sul não somente é autossuficiente nesse insumo, produzindo cerca de 100 mil kits por dia, mas vai em breve poder exportar o produto.

Para ter uma ideia, a Itália, com uma população maior que a coreana, fez menos de 50 mil testes no total, enquanto na Coreia foram realizados quase 400 mil.

Uma das vantagens da Coreia do Sul é que o país enfrentou a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS, na sigla em inglês), outro tipo de coronavírus que teve um surto em 2012-2014. E assim Seul conseguiu identificar a emergência do covid-19 antes que chegasse.

Tecnologias contra o coronavírus

Além da prevenção do contágio identificando casos positivos, a Coréia do Sul usou a tecnologia para rastrear os movimentos das pessoas infectadas e identificar seus contatos.

Isso foi possível graças a uma lei que permite ao governo acessar as filmagens de câmeras de vigilância, aos GPS de carros e telefones celulares, transações de pagamento com cartão e cartão de débito. Além disso, o avanço na tecnologia de reconhecimento facial, assim como o uso de tecnologias e big data permitiu o rastreamento e a identificação de pessoas que podem ter tido contato com a pessoa infectada.

As pessoas que são individuadas como positivas ao coronavírus devem instalar um aplicativo no celular que permite às autoridades de verificar seus movimentos durante a quarentena.

Além disso, as pessoas que não foram infectadas podem baixar outro app que sinaliza quando um contagiado está próximo, e quais foram seus eventuais saídas caso ele esteja violando a quarentena. Dessa forma, elas podem verificar se o encontraram.

Na Itália e na Espanha essa opção não foi sequer avaliada, pois foi considerada uma violação da privacidade.

Não hospitais e sim laboratórios temporários

Sob o perfil hospitalar, a Coreia optou para não construir hospitais de emergência, diferente por exemplo do que foi feito na Itália ou no estado de São Paulo.

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Ao contrário, realizou um grande número de laboratórios móveis e temporários, que permitem realizar o maior número de testes no menor tempo possível, minimizando os contatos com o médicos e enfermeiros.

Na Itália e na Espanha os contágios ocorreram especialmente nos hospitais, com contatos com os funcionários, que acabaram se infectando e até morrendo. Os próprios hospitais se tornaram veículos de contágio.

Na Coreia ha locais onde são realizados testes no estilo drive-thru, sem sair do próprio carro. Ou até em uma espécie de cabines onde os pacientes entram sem precisar agendar e realizam o teste na hora.

Em suma, o exemplo coreano, pelo menos até agora, demostra que há alternativas para o contraste ao coronavírus sem a necessidade de um lockdown. Um fechamento total da economia e da vida social que terá consequências enormes, dramáticas e imprevisíveis no curto, médio e longo prazo nos países que escolheram esse caminho.

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Carlo Cauti
Editor-chefe do SUNO Notícias. Italiano, formado em Ciências Políticas pela universidade LUISS G. Carli de Roma e mestre cum laude em Relações Internacionais, Jornalismo Internacional e de Guerra e em Economia Internacional. Concluiu também um MBA em Finanças na B3. No Brasil, teve passagem por veículos de comunicação como O Estado de S.Paulo, G1, Veja e EXAME. Também trabalhou nas agências de notícias italianas ANSA e NOVA.