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Braskem enfrenta pesadelo de Maceió para voltar ao jogo

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No dia 3 de março do ano passado, após fortes chuvas, moradores de alguns bairros de Maceió (AL) sentiram algo nada comum por lá: um tremor de terra se fez sentir na região. Em meio ao susto, houve corre corre e diversos moradores abandonaram suas casas. E, além do susto inicial das pessoas, o tremor atingiu também a Braskem (BRKM5).

A petroquímica realizava, perto dali, a extração de sal-gema em cerca de 35 poços, que retiravam matéria prima utilizada na fabricação de soda cáustica e PVC pela Braskem.

Foi aquele incidente que fez com que as autoridades locais realmente abrissem os olhos para a operação da companhia na região. Apesar de não haver uma ligação comprovada entre o incidente e a operação, o cerco se fechou para a empresa.

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Agora, a empresa decidiu por encerrar a operação no local após pressão das autoridades competentes e teve de aumentar as provisões judiciais para bancar indenizações. Assim, o que começou naquele tremor desaguou no prejuízo reportado pela Braskem no terceiro trimestre deste ano.

Nesse período, a petroquímica, que tem Odebrecht e Petrobras como sócias, reportou prejuízo de R$ 887,8 milhões ante lucro de R$ 1,34 bilhão no mesmo período de 2018.

A receita líquida da Braskem foi de R$ 13,368 bilhões, uma queda de 18%. Já a dívida líquida consolidada foi de US$ 6,566 bilhões, baixa de 8% na comparação anual.

Um dos fatores para uma mudança tão drástica foi o aumento das contingências com processos judiciais, que passaram de cerca de R$ 15 bilhões em junho para cerca de R$ 40 bilhões no momento, dado o problema em Maceió.

Veja também: Braskem tem queda de 76% no lucro do segundo trimestre

O que parecia o início da recuperação da Braskem após escândalos de corrupção, dificuldades de caixa e problemas com a bolsa de Nova York mostrou que a companhia ainda tem um longo caminho pela frente.

“O quadro ainda é desafiador para a empresa que, além dos problemas em Alagoas, ainda enfrenta a diminuição dos spreads em seus principais produtos dado a redução da demanda global”, afirmou Luis Sales, analista da Guide.

Maceió foi pedra no sapato da Braskem

Meses depois do incidente com os tremores de terra em Alagoas, a atenção das autoridades responsáveis pela investigação estava toda na operação da Braskem na região.

Assim, a Agência Nacional de Mineração (ANM), em conjunto com outros órgãos estaduais, decidiu interditar todas as atividades dos poços de extração de sal-gema da Braskem.

A acusação é de que a operação da Braskem fez com que diversas casas apresentassem rachaduras, além da investigação pela relação com o tremor.

Apesar de não haver uma conclusão efetiva, o MPF afirmou que “o aparecimento de uma depressão no solo, gerada pelo abatimento do teto de cavernas de produção de sal” era a responsável pelos danos.

Por causa desse impacto na região, a empresa também passou a ser objeto de três ações judiciais do Ministério Público com pedidos de indenizações aos moradores dos bairros afetados, além de obrigações com a redução do impacto ambiental.

O impacto da operação no solo fez com que cerca de 400 imóveis fossem interditados, causando a remoção e indenização de 1,5 mil pessoas.

“Desde o abalo sísmico registrado em Maceió em março de 2018, a Braskem vem colaborando com as autoridades e realizando estudos para compreender as causas do fenômeno”, informou, em nota, a empresa.

A Braskem, entretanto, deixou claro que mesmo se colocando à disposição a indenizações, não está assumindo a culpa pois “não há relação entre o fenômeno geológico e a extração de sal-gema”.

Mesmo assim, todas as ações judiciais, na casa dos R$ 40 bilhões, pesando no balanço da companhia.

Resolução de Maceió pode ajudar companhia

Se depois da tempestade vem a bonança, a Braskem espera que toda a resolução seja a nuvem branca no céu. O início do fim do problema pode soar, finalmente, como um novo capítulo para a companhia.

De acordo com uma fonte com conhecimento do setor, a resolução do caso, com o encerramento em definitivo da operação em Maceió, pode ser positivo à Braskem, apesar de todas as multas.

“A ação pode ser positiva pois [a medida] abre espaço para que a Braskem seja adquirida por outras companhias”, afirmou uma fonte com conhecimento do setor.

A Odebrecht espera vender a participação na Braskem para tentar sair da recuperação judicial que se encontra desde junho deste ano.

A construtora já havia negociado a participação com a LyondellBasell, mas o negócio não foi para frente justamente por conta do passivo que pode ser gerado pela operação em Alagoas.

Empresa ainda enfrenta desafios

Apesar de a janela para uma venda futura ter sido aberta com a resolução do caso de Maceió, a petroquímica ainda enfrenta outros desafios para se tornar atrativa a investidores novamente.

“O prejuízo anunciado foi impactado pela questão cambial, já que a despesa financeira cresceu muito por ser uma dívida em moeda estrangeira”, afirmou Luis Sales, da Guide.

Além disso, as exportações e operações nos Estados Unidos, México e Europa são cerca de 55% de toda a receita da empresa. Por isso, o câmbio desfavorável atual pesa no balanço.

Para o analista, a Braskem ainda precisa melhorar o desempenho para voltar a ser um ativo interessante ao investidor.

“A receita está bem em linha com o que o mercado estava esperando, enquanto o EBTIDA da Braskem apresentou leve queda com despesas acima do trimestre passado”, disse.

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Vinicius Pereira
Vinicius Pereira foi repórter de economia da Folha de S.Paulo, stringer do jornal no Canadá e colaborador de VEJA. Já escreveu também para BBC Brasil, The Intercept Brasil e UOL.