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A ascensão das fintechs continuará em 2019?

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As fintechs, as novas empresas de tecnologia que buscam inovar o sistema financeiro, conquistaram cada vez mais espaço em 2018.

A Nubank, por exemplo, neste ano tornou-se a primeira fintech unicórnio. Ou seja, uma empresa com uma avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão. Além disso, o Banco Inter fez sua Initial Public Offering (IPO), a abertura de capital, na Bolsa de São Paulo (B3). A primeira vez que uma fintech realiza esse tipo de operação na Bolsa brasileira. E, por último, o total de fintechs no Brasil cresceu, chegando a 400.

De acordo com o CEO da Suno Research, Tiago Reis, as fintechs mais capitalizadas, como o Nubank e o Banco Inter, devem iniciar um movimento de cross-selling.

Isto significa que as empresas do setor lentamente deixarão o foco em um segmento, como meios de pagamento, e começarão a ofertar outros tipos de serviços.

Por isso, em 2019 a concorrência com os grandes bancos tradicionais poderia dar uma acirrada.

Confira abaixo os principais desafios das fintechs brasileiras para 2019:

Os maiores desafios do próximo ano

A Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) realizou um levantamento em parceria com a PWC, cujos resultados estão no relatório “Pesquisa Fintech Deep Dive 2018”.

Foram entrevistados 224 fundadores de fintechs brasileiras, que definiram os três principais desafios do setor. Entre eles:

  • 50% Têm dificuldade de atrair recursos humanos qualificados;
  • 42% Acham difícil alcançar escala para operações;
  • 34% Acham complicado conseguir visibilidade para o negócio.

O total supera 100% pois os entrevistados podiam escolher mais do que uma opção.

De acordo com o analista Rodrigo Wainberg, a escala para operações é um problema que o Banco Inter, por exemplo, já está solucionando.

“Com custos fixos menores, já que o Banco Inter coloca todos os dados na nuvem, e com seu ritmo de abertura de contas, o problema do alcance de escala para operações já está se tornando menos relevante”, afirmou Wainberg ao SUNO Notícias.

Quanto a visibilidade do negócio, Wainberg defende que a internet tornou a distribuição dos serviços bancários mais rápida. Assim, anúncios no Facebook e no Youtube, por exemplo, encurtaram a distância entre o produto e o consumidor.

Para a diretora da ABFintechs, Ingrid Barth, “as legislações e os relacionamentos com os órgãos reguladores foram positivas neste ano”. Desta forma, a diretora prevê que este fator poderia ajudar a superar os desafios de 2019.

Independência para as fintechs

O último dia 5 de dezembro, o Banco Central (BC) autorizou pela primeira vez uma fintech a atuar no mercado financeiro sem a intermediação de um banco. A fintech autorizada foi a QI Tech.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) criou duas modalidades nas quais as fintechs podem atuar na concessão de crédito, sem atuação de bancos como intermediários. Essas modalidades são:

  • Sociedade de empréstimo entre pessoas (SEP);
  • Sociedade de crédito direto (SCD).

Segundo Rodrigo Caetano, analista de uma grande empresa do setor, “com a nova regulamentação do Banco Central que permite que as fintechs atuem sem intermédio de um banco, espera-se que elas conquistem um espaço maior no mercado financeiro”.

Depois da QI Tech, outros 11 pedidos estão sendo analisados pelo BC.

A regulamentação realizada pelo Banco Central está sendo recebida em maneira positiva pelo setor das fintechs. Por exemplo, o CEO do Nubank, David Vélez, afirmou em dezembro que o BC está atuando de forma positiva.

“Continuamos vendo um regulador que quer mais Nubank, e isso é bom para todo mundo”, declarou Vélez em entrevista coletiva após a divulgação do cartão de débito da Nubank.

Em dezembro, a fintech recebeu aval do BC para tornar-se uma instituição financeira. Foi então que o cartão de débito foi lançado, juntamente com a função saque.

Do outro lado, os bancos tradicionais estão sendo desafiados pelas fintechs. “Gostaria de ter os cinco milhões de clientes do Nubank”, declarou o presidente do Bradesco, Octávio de Lazari, comentando as conquistas do banco digital em um almoço com a imprensa.

Apesar de admitir que considera a fintech uma ameaça,  Lazari confirmou que “o Nubank vem fazendo um bom trabalho e precisa ser respeitado”.

Mudança na gestão

Em 1º de janeiro de 2019, o presidente eleito Jair Bolsonaro assumirá a presidência da República. O novo mandatário escolheu para presidir o BC o economista Roberto Campos Neto.

Campos Neto substituirá Ilan Goldfajn, indicado por Michel Temer em 2016.

No entanto, a mudança de gestão não deve interferir na na atuação do BC em relação as fintechs.

“Acreditamos que os incentivos serão mantidos e que novos avanços acontecerão, no intuito de trazer cada vez mais vantagens para o consumidor brasileiro”, afirmou Ingrid Barth.

Para Wainberg, apesar de não possuir independência formal, o BC tem demonstrado um grande nível de autonomia nos últimos anos. E este caráter será acentuado com a vertente liberal e pró mercado do novo governo.

Assim, será pouco provável uma mudança abrupta na trajetória de regulação das fintechs pelo BC.

A guerra das maquininhas

Durante 2018, a disputa entre fintechs, bancos e startups que disponibilizam meios de pagamento foi muito forte. Uma concorrência acirrada que levou a imprensa a criar a expressão “guerra das maquininhas”.

Por exemplo, a fintech Stone lançou em dezembro de 2018 a maquininha Stone Mais, voltadas para Microempreendedores Individuais (MEIs).

A Stone Mais concorre diretamente com:

  • Stelo Mini: comprada pela Cielo, cujos controladores são Bradesco e Banco do Brasil.
  • Credicard Pop: do Itaú Unibanco.
  • Super Get: do Santander.
  • Mercado Pago: do Mercado Livre
  • SumUp: da empresa do mesmo nome.

Apesar da alta concorrência, Barth não acredita que empresas do setor possam quebrar em 2019. Uma opinião contrária ao pensamento de Wainberg, que acredita que a ampla concorrência entre essas empresas reduz a rentabilidade da indústria como um todo.

“Como em qualquer briga de preços, não tenho dúvidas de que a disputa levará algumas empresas à insolvência”, afirmou o analista.

Ao longo de 2018, por exemplo, as ações da Cielo caíram cerca de 60%. Uma baixa que levou o presidente do Bradesco, Octávio de Lazari, a declarar que os bancos controladores não pretendem fechar o capital da Cielo.

Os grandes bancos ao contra-ataque

Mas fintechs tornaram-se um incômodo para os bancos não apenas nos meios de pagamento, e sim também na concorrência bancária tradicional.

Por isso, o mercado bancário está reagindo lançando suas próprias fintechs.

O Bradesco, por exemplo, lançou em 2017 seu próprio banco digital, o Next. Para Octávio de Lazari, as expectativas com o Next foram superadas em 2018, alcançando cerca de 500 mil clientes.

“Nossa meta era abrir entre 2.000 e 2.500 contas por dia. Já estamos abrindo 5.000. O Next é uma aposta vencedora e acreditamos que vai se fortalecer como um canal de distribuição do banco”, declarou Lazari.

Pensado para jovens, o Next oferece a conta corrente gratuita “Na Faixa” e os planos pagos “Na Medida”, “Tem Tudo” e “Turbinado”. O objetivo é entrar em concorrência direta com a NuConta do Nubank.

Por sua vez, o Itaú Unibanco lançou em agosto de 2018 o aplicativo Abreconta. O app permite a abertura de contas bancárias 100% digitais, similar à proposta das fintechs.

O Itaú foi o primeiro grande banco a realizar este tipo de produto, regulado pela resolução nº4.480 do BC.

Publicada em abril deste ano, a resolução permite que a abertura de conta corrente seja feita exclusivamente por meio eletrônico. Assim, foi eliminada a necessidade de presença física do cliente em uma agência bancária.

Em dezembro, o Banco do Brasil (BB) anunciou a possibilidade de sacar dinheiro pelo whatsapp. O BB já oferecia um serviço similar via sms.

Entretanto, o saque sem cartão não é novidade. Há anos a maioria dos grandes bancos já permitia o saque com o reconhecimento biométrico.

Mas a chegada das fintechs no mercado tem sido um motor de inovação para os grandes bancos. Por isso, a disputa deve ganhar novos contornos em 2019.

Fintechs x Bancos

O cenário brasileiro do mercado bancário é de oligopólio. Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do BC, cerca de 78% das operações de crédito estão concentradas em quatro bancos (Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal e Itaú Unibanco).

Essa concentração bancária fornece as fintechs um solo fértil para suas atividades.

Segundo Caetano, as fintechs tentam oferecer a melhor experiência possível para o cliente. Os maiores atrativos são um serviço transparente, rápido e sem burocracia. Além disso, as taxas de juros mais baixas são outro ponto interessante.

Para Caetano, esse conjunto torna-se um diferencial frente às instituições tradicionais, pois o mercado carece de soluções alternativas.

Por sua vez, Wainberg aponta também para o histórico dos bancos tradicionais. Em sua maioria, as instituições bancárias tradicionais cresceram via aquisição de bancos quebrados e/ou estatais.

Um histórico diferente da rápida ascensão do Nubank, por exemplo, que foi fundado em 2013 e já conta com cinco milhões de clientes.

Assim, apesar de admitir que a eficiência das fintechs ainda está distante dos grandes bancos, Wainberg acredita que a tendência é a concorrência das fintechs diminuírem o espaço ocupado pelos bancos tradicionais.

Mas nesse momento, a pergunta que o mercado se faz é: a ascensão das fintechs continuará no futuro?

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Amanda Gushiken
Amanda Sayuri Gushiken escreve sobre finanças e negócios para o portal Suno Notícias. Antes, trabalhou selecionando notícias da imprensa para clientes do mercado financeiro. Também desenvolveu pesquisa acadêmica pela Universidade Anhembi Morumbi na área de Teorias da Comunicação e é fotógrafa nas horas vagas.