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Mercado considera Argentina uma bomba relógio, diz especialista

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O resultado das eleições primárias na Argentina causou turbulência nos mercados globais na última semana. O presidente Mauricio Macri sofreu uma forte derrota para a chapa encabeçada por Alberto Fernández, que traz como candidata a vice-presidente e ex-mandatária Cristina Kirchner. A esquerda argentina se tornou assim favorita para as eleições presidenciais que acontecerão em outubro.

Fernández conseguiu 47,36% dos votos, enquanto o atual mandatário da Argentina obteve apenas 32,23%. Uma distância que não foi prevista em nenhuma pesquisa anterior e gerou pânico nos mercados.

Esse possível cenário eleitoral poderia levar novamente ao país vizinho a política econômica populista dos anos 2003 – 2015. Para Edson Capoano, doutor em estudos latino-americanos pela Universidade de São Paulo (USP), o mercado enxerga, por essa razão, um risco na mudança do governo argentino. “Aumentando os gastos sociais para ter apoio popular, a Argentina voltaria a ser uma bomba relógio, uma nação cada vez mais endividada, de novo a beira de uma moratória, que é o que acontece a cada 10 anos com o país sul-americano”, explicou Capoano a SUNO Research.

Para o especialista em estudos da América Latina, a Argentina é um mercado regional importante, e por isso sua desestabilização política e econômica teria consequências não somente regionais mas também globais. “Quem tem dinheiro investido globalmente tende a retirar o capital dos mercados emergentes quando vê que esses mercados regionais estão desestabilizados, e ai o Brasil pode sofrer um pouco com essa crise Argentina, tendo menos investimento estrangeiro”, salientou Capoano.

Moeda e Bolsa na Argentina

No primeiro dia após as eleições primárias, na segunda-feira (12), o peso argentino obteve uma desvalorização de mais de 25% em relação ao real. Com R$ 1 era possível comprar 9,17 pesos. A bolsa argentina também registrou uma forte queda de mais de 30%.

Naquela ocasião, o Merval, principal índice da Bolsa de Comércio de Buenos Aires, fechou em queda de 37,93% , a 27.530,80 pontos. Essa foi a maior queda do índice argentino desde 1950. Uma reação dos mercados que mostra a preocupação dos investidores com o futuro econômico do país.

O bolsa argentina fechou na sexta-feira (16) em queda de 2,05% a 30.402,510 pontos. No acumulado da semana, a queda foi de 31%.

O peso argentino, entretanto, encerrou a semana em recuperação. Na última sexta feira a moeda argentina registrou uma alta de 4,36%, negociada a 54,60 pesos por dólar. Contudo, no acumulado dos cinco dias, a moeda argentina fechou a semana com queda de 17,6% .

Medidas de Macri para reverter a derrota

Para tentar recuperar a ampla distância com seu opositor, o presidente argentino anunciou poucas horas depois da derrota eleitoral um pacote de medidas econômicas. O objetivo era tentar reconquistar os votos das camadas mais baixas da população, tradicionalmente mais próximo das posições do peronismo de esquerda representado pelos Kirchner. Entre as mudanças, Macri anunciou:

  • aumento do salário mínimo;
  • bônus salariais para empregados públicos;
  • alívio da carga tributaria para classe media;
  • congelamento do preço da gasolina por 90 dias (em seguida anulado).

“Tivemos uma votação ruim e isso nos obriga, a partir de amanhã, a redobrar os esforços para que em outubro consigamos o apoio necessário para continuar com a mudança”, disse Macri logo após a derrota.

As medidas tomadas pelo presidente da Argentina agitaram ainda mais o mercado, tanto interno quanto internacional.

Para Capuano, o motivo pelo qual a população decidiu votar novamente em um governo de centro-esquerda/esquerda  foi a falta de realização das medidas liberais prometidas por Macri em 2015.

“O presidente atual não conseguiu efetivar as medidas liberais que ele sugeriu na candidatura dele. A população viu uma piora dos índices sociais: aumento de pobreza, aumento de violência…gastos públicos com educação e saúde diminuindo. Assim, ele não conseguiu nem ajudar o país e nem assistir a sua população”, explicou o professor.

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Em 2019 a economia argentina terminará em recessão pelo segundo ano consecutivo. Um resultado catastrófico para um presidente que baseou sua campanha eleitoral sobre a promessa de um crescimento da economia argentina.

Efeitos do Governo Kirchner na Argentina

A era Kirchner durou 12 anos. Iniciou-se em 2003 com a conturbada eleição de Néstor Kirchner, ex-presidente e marido de Cristina. Néstor morreu em 2010, vítima de parada cardíaca, deixando o poder na mão de sua esposa.

Na realidade, Cristina já tinha tomado posse em 2007 como primeira mulher a ser eleita ao cargo de presidente da Argentina. Mas Néstor se tornou seu principal conselheiro. O governo kirchnerista se caracterizou por uma política econômica baseada no aumento dos gastos públicos, incremento da carga tributária, especialmente sobre as exportações de grãos, maior protecionismo (inclusive com os parceiros do Mercosul, como o Brasil) e um desenfreado populismo, com aumentos salariais, expansão da massa monetária e contratações em massa de funcionários públicos.

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A herança dessa era foi um desastre nas contas públicas, uma inflação fora de controle, corrupção desenfreada e cerca de 25% da força de trabalho argentina empregada no serviço público.

Nos últimos quatro anos do governo kirchnerista a economia argentina voltou para a recessão e a pobreza e o trabalho informal cresceram. A intervenção do governo dos Kirchner em órgãos públicos, como o instituto de estatística local ou o Banco Central, essencialmente para tentar maquiar as contas públicas e o cálculo da inflação, tem efeitos negativos ainda hoje.

“A visão do mercado sobre kirchnerismo, que é uma vertente contemporânea do peronismo, é de que não vai haver o choque liberalizante que a Argentina precisa para conseguir pagar sua dívida publica, seus funcionários públicos, para pagar a aposentadoria dos pensionistas”, diz Capoano.

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Juliano Passaro
Juliano Passaro escreve sobre política, economia e negócios para o portal da Suno Research. Antes da Suno, trabalhou no Portal da Band. É formado em jornalismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.