Ano será de Bolsa para cima de novo, diz Spyer, da Mirae

Ano será de Bolsa para cima de novo, diz Spyer, da Mirae
S&P Global reduz projeções para mercados emergentes

Conhecido no mercado financeiro pelo bom humor, o “Touro de Ouro” Pablo Spyer, diretor de operações da Mirae Asset, mantém o estado de espírito positivo para a B3 em 2020.

Segundo Spyer, a agenda reformista de 2019 abriu um caminho positivo para este ano, além de impulsionar milhões de novos investidores à Bolsa. “Em 2020, vai bater dois milhões de investidores e, por isso, a probabilidade da Bolsa cair é baixa”, afirma o diretor da Mirae.

Para ele, a saída de estrangeiros da B3 em 2019 se deu mais por questões internas de fundos do que pela análise negativa do País por parte dos investidores do exterior.

“Não é que o estrangeiro está fugindo. Boa parte dessa saída se chama rebalanceamento de portfólio. Só que se o Brasil ter o grau de investimento, começará a vir dinheiro, smart money, para pegar essa alta”, afirmou o diretor de operações da Mirae.

Spyer mantém a previsão de que, apesar dos mais otimistas, o Brasil conseguirá recuperar o selo de bom pagador das agências já em 2021.

“Eu acho que, apesar das previsões mais otimistas, o grau de investimento só volta em 2021. E isso eu já venho falando há tempos”, disse.

Confira a entrevista completa de Pablo Spyer, diretor de operações da Mirae Asset, ao SUNO Notícias:

-Como a Mirae começou no mercado?
Mirae é futuro na Coreia do Sul. A gestora chegou em 2008 e a corretora chegou em 2010. Começamos mais tranquilo, inicialmente com parte de bolsa mesmo, aí montamos home broker, vendas fixas, parte de papel, de títulos públicos e privados. Fomos devagar ampliando, montamos a área de câmbio, tiramos os selos, fomos crescendo gradativamente como tem que ser, um crescimento forte e sustentável.

Eu tenho 25 anos de mercado e estou na Mirae há dez anos, participando desde o business plan. Somos três líderes, com o CEO e o CFO, acima de mim, que são dois coreanos. Somos mais de 30 mil clientes. Temos hoje diversas linhas de receita: temos a parte de operações, a mesa de equity para institucional, tem a que atende futuros, tenho a mesa de câmbio, a de renda fixa pública, renda fixa privada, entre outras coisas.

Temos a área de gestão de fortunas, com outros produtos por lá, como fundos de investimentos, CRI/CRA, LCI/CLA e assim vai. Temos também a asset.

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-No plano macro, como vocês analisam a economia brasileira para 2020?
Eu estou bastante otimista, acho que as mudanças estruturais da economia brasileira irão sustentar um cenário positivo para a Bolsa. Acho que houveram algumas instabilidades, incertezas em torno da disputa comercial entre EUA e China, algumas declarações do ministro Paulo Guedes sob intervenção do BC no câmbio e CPMF, mas acho que tudo isso confirma o que já sabemos: a Bolsa reage a fatores políticas e econômicos pontuais sem necessariamente perder tendência estrutural de médio e longo prazo.

O ciclo das Bolsas está associado ao desempenho e a qualidade das empresas e, obviamente, aos momentos econômicos daquela época. Não vejo nenhum espaço para retrocesso na agenda reformista que teve na Previdência a mãe das reformas. Creio que os bons indicadores da atividade brasileira, a queda brutal da Selic, a perspectiva de aprovação do projeto de autonomia do BC, as recomendações de compra dos bancos estrangeiros, etc, vão fazer o mercado subir.

Os bancos estrangeiros até pouco tempo atrás davam venda. A virada de todos esses bancos para compra é um inequívoco cenário para a Bolsa brasileira. Não à toa, o CDS vem afundando a níveis inferiores a países que têm grau de investimento. Nós somos 100, a Itália tem mais e com grau de investimento.

A Fitch falou que o PIB vai crescer mais que o esperado e a S&P diz que o Brasil vai subir antes do esperado. A briga EUA e China arrefeceu. No Brexit, deu Boris Johnson. As máximas e máximas nas bolsas americanas dão alegria ao investidor. De qualquer forma, eu acho que, apesar das previsões mais otimistas, o grau de investimento só volta em 2021. E isso eu já venho falando há tempos.

-Por que?
Porque as mudanças estruturais do País estão muito fortes. 2021 é muito bom, passei um ano e meio falando que a coisa mais importante era a reforma da Previdência. Quando o Bolsonaro foi eleito, falei que ia passar no fim do ano. Quando aprovou, eu comecei a falar que ia vir máximas das máximas na Bolsa e que chegaria a perto dos 120 mil pontos. O que interessa é você acertar o caminho e, no meu ponto de vista, ainda há muito espaço para melhoras.

O país esta crescendo. O efeito da taxa básica de juros em níveis historicamente baixos é visto na migração para o mercado de capitais. 50 mil clientes novos por mês, é um negócio nunca visto, nunca imaginado. Daí a razão da Bolsa estar onde estar. Em 2020, vai bater dois milhões de investidores e, por isso, a probabilidade da Bolsa cair é baixa.

-E por que tem tanto estrangeiro saindo ao mesmo tempo?
A saída do estrangeiro requer um pouco de cuidado na análise. Vamos supor que você toque um fundo lá fora. Aí você tem US$ 4,4 trilhões sob gestão e define uma regra de colocar 10% em cada país. O Brasil nessa vai de subir muito, com dólar caindo e bolsa subindo. Aí você passa a ter 20% no Brasil graças a essa alta e fica desbalanceado. Para respeitar a regra, você vende onde tem mais e manda de volta. Coloca no bolso. Não é que o estrangeiro está fugindo. Boa parte dessa saída se chama rebalanceamento de portfólio. Só que se o Brasil ter o grau de investimento, começará a vir dinheiro, smart money, para pegar essa alta.

Estamos voando em ares nunca antes pilotados. É o que eu acredito. Pode parecer uma visão excessivamente otimista, mas o mercado brasileiro nunca teve a atual configuração.

Claro que esses projetos de taxação ou a CPMF, por exemplo, mudariam um pouco esse cenário. Mas, acho que não falta sensibilidade e senso histórico de oportunidade para nossa equipe econômica. O fato do juro cair de 14% para 4,5% ao ano, estamos economizando R$ 100 bilhões, são três Bolsa Família, e isso faz com que o Brasil decole.

O BNDES está saindo de tudo e isso será absorvido pelo mercado. As empresas estão refazendo as dívidas, com debênture, pois estão achando aqueles juros subsidiados caros. Isso é virtuoso. Eu que tenho que tomar risco, vou receber mais dividendo desses caras. O governo vai receber o dinheiro dos bancos e das empresas de volta. É um círculo virtuoso que não para.

O meu chefe diz que na Coreia ocorreu a mesma coisa, a força do juro baixo, e transformou o país. Todo mundo está revisando o PIB para cima. Se não fosse o câmbio, os resultados das empresas teriam sido ainda melhores. As empresas nesse trimestre, em janeiro, serão espetaculares. Vai ter solavanco para cima já em janeiro, pois o dólar está para baixo.

-Tem algum setor para 2020 que você olhe com carinho?
O setor imobiliário ainda vai mais. Quando o Bolsonaro foi eleito, eu, particularmente, coloquei meu dinheiro nesse setor. Isso explodiu e subiu mais que a Bolsa. Não sou nenhum gênio. Eu colei daquilo que se passou na Coreia.

Os dados brasileiros que saem estão se mostrando bons. Eu não vejo falta de argumento para recomendar uma compra de ações brasileiras. Os estrangeiros vão entrar. As mudanças radicais do governo estão muito boas e irão restaurar o consumo no Brasil. Ele é o motor do crescimento.

Eu sou o Touro de Ouro, todo mundo mandava vender, eu mandava comprar. Está longe de mim falar que vai chegar 300 mil pontos, não é assim, mas eu sou super otimista com o mercado atual.

Vinicius Pereira

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