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Ações da Sinqia disparam: é uma bolha?

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Nos últimos dias, as ações da Sinqia (SQIA3), empresa de software bancários, passaram por enorme volatilidade. Há cerca de dois meses, os papéis estavam cotados na casa dos R$ 37, mas chegaram a beirar os R$ 90 nos início desta semana. Desde então, no entanto, as ações operam em baixa e já desvalorizaram quase 20%. Neste momento (12h20), a cotação da SQIA3 está em 74,20, 6% a menos do que no início do pregão.

No entanto, não houve nenhuma razão concreta para que a empresa registrasse essa volatilidade. Não foi anunciado nenhum novo contrato, ou foram registradas mudanças radicais no segmento de atuação. Por isso, muitas pessoas acabam se perguntando se esse andamento das ações da Sinqia é uma bolha financeira ou não.

Segundo Tiago Reis, fundador da SUNO Research, a Sinqia, como boa parte das empresas de software, é uma companhia que apresentou um bom crescimento nos últimos anos.

“A empresa tem uma rentabilidade consistente, o que é uma característica típica do segmento. Estamos falando de uma indústria, a de software, que segundo um estudo recente da consultoria McKinsey tem uma das maiores rentabilidades sobre o capital empregado”, explicou Reis.

Além disso, a Sinqia é uma empresa tradicional do mercado brasileiro, que fornece softwares para o sistema financeiro nacional, como bancos, seguradoras, fundos de pensão, corretoras, entre outros. A companhia é atualmente líder de fornecimento de sistemas informáticos para a indústria bancária brasileira.

“Entretanto, todos os ativos tem um preço. E será que a Sinqia tem um preço que justifica os ativos que ela detêm?”, se perguntou Reis.

Valuation da Sinqia

Os analistas da SUNO Research realizaram o valuation da Sinqia, e, mesmo com premissas muito otimistas, o resultado não se mostrou animador para os patamares atuais do preço da ação.

A valuation da Sinqia tinha as seguintes premissas:

  • um crescimento da receitas de 20% ao ano ao longo de 10 anos. Um resultado que menos de 1% das empresas listadas conseguiram entregar nos últimos anos.
  • margem da EBITDA entorno de 20% no período de 10 anos. Algo que a Sinqia, desde que se tornou listada, ainda não apresentou.
  • o CAPEX, ou seja os investimentos em bens de capital da empresa, foram calculados como iguais a depreciação no período de 10 anos e também na perpetuidade. Entretanto, a Sinqia obteve seu crescimento passado sempre através de investimentos pesados em aquisição.
  • Por último, o custo de capital médio ponderado (WACC) foi colocado em 10% nominal. Um dos WACCs mais baixos das empresas listadas atualmente na Bolsa de Valores de São Paulo (B3).

“Mesmo sendo ultra-otimista em cada uma dessas premissas, chegamos a uma valuation de R$ 76,84 centavos. Ou seja, mesmo se essas premissas ultra-otimistas ocorrerem, o que é praticamente impossível que aconteça, as ações da Sinqia estão caras no atual preço”, explicou Reis.

Sinqia vendendo ações de tesouraria

O preço muito caro em relação ao valuation da empresa é confirmado pela própria atitude da Sinqia. A companhia tem sido uma das principais vendedoras de suas próprias ações no mercado.

Ela tinha comprado ações quando estavam abaixo de R$ 20 e as detinha em tesouraria. Agora as está vendendo na Bolsa com um preço mais de quatro vezes superior.

Além disso, a semana passada a empresa contratou o Credit Suisse e o BTG Pactual para coordenar uma nova oferta pública de ações (follow on). Ou seja, os acionistas estão dispostos a serem diluídos nesse preço.

“Essas duas atitudes Sinqia, tanto a oferta pública quanto a venda de ações de tesouraria, passam para o mercado a mensagem que a própria empresa acredita que com esse nível de preço seja um bom negócio vender e não comprar suas ações”, explicou Reis.

Para o fundador da SUNO Research, “a expansão do número de pessoas físicas que estão comprando ações na Bolsa de Valores brasileira tem ficado muito evidente ao longo dos últimos meses. Será que essas pessoas que estão comprando as ações da Sinquia sabem fazer valuation? Pois se essas pessoas não sabem, é provável que estão comprando de investidores instruídos, ou até da própria empresa. Algo que representa um risco para os investidores, pois eles não estão levando em conta a capacidade de geração de caixa da empresa.”.

Em termos de comparação, salientou Reis, Google e Facebok, duas das maiores e mais bem geridas empresas do mundo, que têm praticamente o monopólio de seus segmentos, negociam com múltiplos menores do que Sinqia.

“Essas são empresas que têm uma rentabilidade sobre capital mais expressiva, crescem mais e sem fazer grandes desembolsos. Fazem aquisições menores do que a Sinqia. Por tudo isso, existem evidências mais do que claras que existe um exagero no preço da Sinquia”, concluiu Reis.

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Carlo Cauti
Editor-chefe da SUNO Notícias. Formado em Ciências Políticas pela universidade LUISS G. Carli de Roma e mestre cum laude em Relações Internacionais, Jornalismo Internacional e de Guerra e em Economia Internacional. No Brasil, teve passagem por veículos de comunicação como O Estado de S.Paulo, G1, Veja e EXAME. Também trabalhou nas agências de notícias italianas ANSA e NOVA.