Absolute aposta em commodities e contra o dólar no pós-crise

Absolute aposta em commodities e contra o dólar no pós-crise
O Ibovespa encerrou as negociações na última quarta-feira (16) com uma queda de 0,62%, a 99.675,680 pontos.

A resposta das autoridades monetárias ao redor do mundo em relação a crise causada pelo coronavírus (covid-19) deve dar o tom da recuperação econômica. A reabilitação, porém, deve ocorrer em ciclos e os setores ligados as commodities podem ter uma vantagem, segundo avaliação da Absolute.

“A retomada é cíclica. Achamos que vamos começar a ver um movimento de busca e um fluxo caminhando para países mais cíclicos, como a Austrália e China, com commodities voltando mais forte, moedas relacionadas retornando melhor e, assim, empresas ligadas a isso [devem se recuperar]”, Felipe Fiel, estrategista da Absolute, que conta com cerca de R$ 14 bilhões sob gestão.

Além da recuperação, a possibilidade de o dólar perder valor ante as principais divisas do mundo também é estudada pela gestora.

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“Seguem convicções de juros baixos, na retomada do ciclo econômico, mas também com uma combinação de política monetária e fiscal no mundo que pode favorecer o enfraquecimento do dólar no mundo”, disse o estrategista da Absolute.

Confira a entrevista do SUNO Notícias com Felipe Fiel, estrategista da Absolute:

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-Como vocês analisam a crise atual?
A resposta de política econômica teve e está tendo um papel muito importante nessa crise, tanto pela rapidez de resposta como pelo montante de estímulos.

Em processos recessivos comuns, um risco importante é a dificuldade de mensurar a quantidade de estímulos e também a implementação no tempo apropriado.

Essa crise foi gerada por uma variável exógena ao ciclo econômico. Diferente do que os mais pessimistas esperavam nos últimos anos, a recessão não veio pelos tais excessos de fim de ciclo.

Uma pandemia de raros precedentes gerou uma reação inevitável dos governos e indivíduos, um processo deliberado de “fechar” a economia. Esse aspecto facilitou um pouco a resposta rápida de política econômica, assim como esse cálculo de necessidade de estímulos, que em processos recessivos, tende a acontecer de forma atrasada, mais lenta.

Outra questão importante que contribuiu para a resposta rápida foi o papel dos Bancos Centrais, que chegaram no pre covid com a “caixa de ferramentas” totalmente preparada e pronta pra ser usada. Teve grande aprendizado pós crise 2008, tanto nas ferramentas, como também na avaliação apropriada do risco inflacionário.

Não menos importante é a origem da crise, diferente de 2008, gerada por excessos do sistema financeiro e consequentemente tinha a discussão do “risco moral”. Uma pandemia gera um anti-moral hazard, uma tendencia a governos e Bancos Centrais de “errarem” por mais estímulos, e não menos.

O cenário que trabalhamos é similar ao pre covid em alguns aspectos, com algumas tendencias tendo sido aceleradas. Vínhamos há alguns anos trabalhando com a convicção de que inflação não era um problema e a consequência disso seria uma tendencia a respostas de politica de estímulos assimétrica por mais acomodação.

A crise, por gerar um impacto desproporcional no setor de serviços, acaba tendo um viés desinflacionário importante (afeta mais emprego do que produto). A retomada, como em qualquer recessão forte, deve ser desinflacionária, mas talvez com um potencial maior do que em crises comuns.

Olhando pra frente, estamos ainda no meio do processo de reabertura, alguns países mais avançados, outros menos. Enquanto não tiver a vacina ou chegamos perto de um percentual alto da população imunizado, não teremos uma retomada linear e equilibrada. Setor de serviços mais tradicionais vai voltar um pouco mais lentamente, isso tem impacto direto sobre a retomada do emprego e requer ainda alguma cautela.

-Para vocês, a segunda onda vem?
O que estamos vendo em alguns países é um processo natural, era um risco “conhecido” pelos mercados e que agora mais recentemente foi colocado no preço. Gera uma pausa ou uma lentidão maior no processo de reabertura, aumenta incerteza e vai requerer adição de estímulos. De uma certa forma, em alguns casos veremos uma segunda onda de estímulos.

Entendemos que nessa segunda fase o processo será menos custoso economicamente. Setores que são tidos como de “alto risco de exposição” sofrerão mais, inevitavelmente.

-A crise muda o portfólio da Absolute?
A crise potencializou algumas tendências. Era um mundo que vinha caminhando para juros zero e baixa inflação. Na verdade, no mundo desenvolvido os EUA eram o ponto fora da curva, ainda tinha juros, mas o mindset dentro do comitê do FED vinha mudando rapidamente desde o inicio de 2019, de forma bem importante.

Na crise, para evitar 2008, os BCs em um mundo sem inflação erraram para mais e vão continuar com esse viés por algum tempo.

Pre covid tínhamos uma visão construtiva com ativos de risco/bolsas, não comprávamos a tese de fim de ciclo e entendiamos que ausência dos clássicos excessos de fim de ciclo, continuariam favorecendo a continuidade do ciclo. Nesse momento, temos uma economia global em processo de retomada, com muito espaço pra crescer sem gerar pressão inflacionária.

Seguem convicções de juros baixos, na retomada do ciclo econômico, mas também com uma combinação de política monetária e fiscal no mundo que pode favorecer o enfraquecimento do dólar no mundo.

-As empresas estão esticadas demais neste momento?
Mercados sempre foram e vão continuar sendo forward looking e o chamado descolamento entre mercados e atividade econômica é comum. Em 2008/2009, o mercado antecipou o pico do desemprego em mais ou menos seis meses, a inflexão aconteceu com o desemprego ainda piorando.

Na atual crise, qual foi o piso de atividade global? Em abril mais ou menos, ali no início da saída do “global lockdown”. Isso ajuda a explicar a inflexão rápida dos mercados.

Se estão esticadas ou não é preciso olhar caso a caso, setorialmente. O fato de a crise impactar muito serviços tradicionais, micro e pequenas empresas, contribui pra termos um decoupling maior entre mercados e economia, porque os índices de bolsas não são representados nem de longe pelo PIB, ainda mais com impacto desproporcional como esse.

-O que pode impactar os mercados no curto e médio prazo?
Estamos otimistas com o ciclo econômico global, e podemos, depois de muito tempo, uma recuperação mais forte na Asia e Europa.

Olhando setorialmente, você consegue ver algumas coisas. O PIB volta de um jeito, o emprego de outro, e alguns setores com uma outra rapidez.

Há questão eleitoral nos EUA que será muito importante para os mercados. No Brasil temos uma questão pouco espaço fiscal pra frente, na esperada retomada de agenda de reformas. Isso se coloca com uma diferença importante em relação a outras economias no mundo.

-Em quais ativos apostam mais na Absolute?
Estamos apostando nos ativos cíclicos, pois acreditamos na retomada, havia excesso de dinheiro e escassez de ativos no mundo, agora temos uma vazamento para ativos financeiros e está sendo potencializado.

Então, por esse aspecto, com desemprego alto e inflação baixa, e o excesso de dinheiro a melhor posição é estar posicionado em ativo de risco neste momento.

Dólar fraco no mundo. Gostamos de posições e começamos a enxergar algumas outras bolsas, para além das americanas, com algum interesse e o dólar fraco no mundo podemos apostar em posições na depreciação do dólar no mundo.

Olhando para o resto do mundo, a ferramenta contra-cíclica a Europa e o G10 fazendo muito dentro do PIB e uma administração melhor do covid faz com que a recuperação seja mais rápida.

China foi o primeiro choque, é uma economia que é menos concentrada em serviço, então volta mais rápido, também provém estímulos, então achamos que nesse processo estarmos comprados em ativos cíclico.

A retomada é cíclica. Achamos que vamos começar a ver um movimento de busca e um fluxo caminhando para países mais cíclicos, como a Austrália e China, com commodities voltando mais forte, moedas relacionadas retornando melhor e, assim, empresas ligadas a isso [devem se recuperar].

-E o Brasil?
Também teremos um processo de retomada não inflacionário. No entanto, entramos na crise com um desemprego alto, Brasil não chegou a recuperar de fato da ultima recessão, se a gente olhar pro mercado de trabalho.

Economia não cresceu acima do potencial de forma consistente pós recessão de 2014-2016. Alem disso existe uma limitação do uso de política fiscal. Existe portanto uma preocupação com a velocidade da retomada, vis a vis resto do mundo.

Entrevista com Absolute

Vinicius Pereira

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