Luiz Barsi

Aportes, Indicadores e Crashes

23ª Carta de Luiz Barsi

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Nessa semana trazemos a ultima parte da série de perguntas e respostas feitas pelos assinantes da Suno Research para Luiz Barsi.

Vale lembrar que algumas dessas perguntas também estão sendo publicadas em formato de vídeo em nosso canal do Youtube e na nossa página no Facebook.

Ciro Miranda: Para uma pessoa que deseja acumular patrimônio suficiente para viver de dividendos, como isso funciona na prática? Somente através de dividendos ou também através de retiradas ou vendas das ações acumuladas? 

Luiz Barsi: Eu não sou favorável a você retirar recursos, porque se não você não potencializa o futuro dos seus dividendos, em maior generosidade. Você precisa criar uma carteira, que ela possa produzir uma renda mensal que supere sua expectativa de vida, e que você ainda tenha alguma possibilidade de investir.

Vai chegar uma hora que sua renda mensal será tão grande que você não conseguirá gastar, por mais gastador que você seja, então aí nunca haverá necessidade de vender, e sim de comprar, essa que é a realidade. 

Fernando Vigato: No caso de você identificar um crash na bolsa brasileira, não seria mais vantajoso vender os ativos em carteira e recomprá-los posteriormente por um valor melhor?

Luiz Barsi: Para você ser capaz de identificar um crash, é preciso que você tenha um senso futurólogo extraordinário.

Aqui no Brasil existem, acredito eu, poucas possibilidades de surgir um crash nos moldes do crash que ocorreu nos EUA, primeiro porque o número de investidores aqui é pífio, então, esse universo não teria condições de proporcionar uma catástrofe tão relevante quanto a dos EUA, nos EUA cerca de 87% da população tem ações, então um universo dessa natureza tem condições de produzir um efeito devastador.

Nós tivemos recentemente ali em 2008 as ações do Citibank que vieram a centavos de dólar, ali foi uma situação absurdamente atrativa para o investidor comprar, pois, o Citibank jamais vai quebrar, o Citibank recebeu aportes do governo e hoje voltou a valer uma fortuna em termos de cotação.

É tudo uma questão de oportunidade, o crash é um fator de mercado, se você souber avaliar, eu acredito, eu não sei avaliar precisamente, mas acredito que no crash de 1929 teve muito mais gente que ganhou do que gente que perdeu nos EUA.

Tiago Reis: E você como investidor experiente, já conseguiu identificar de antemão um crash aqui?

Luiz Barsi: Não… O que nós conseguimos detectar, sem termos a pretensão de estar fazendo alguma futurologia, foi quando a ex presidente Dilma através da implementação do decreto lei 579, que ela pretendeu com aquele decreto reduzir o custo da energia elétrica, uma coisa que a gente estava vendo, o mercado inteiro percebeu, e todos nós que acompanhamos o mercado, sabemos que é muito difícil se reduzir custos por decretos, isso deve ser feito através de planilhas, enfim, de avaliações, de mecanismos mais apurados, então avaliou-se que havia uma possibilidade muito grande das empresas especificamente do setor elétrico sofrerem um recuo, como de fato recuaram, a Eletrobrás por exemplo custava R$ 26,00 e veio para R$ 4,00. As ações da Cemig que custavam R$ 20~22 e vieram para R$ 4, enfim, a grande maioria dessas empresas do setor elétrico recuaram.

Esse efeito devastador que ocorreu no setor de energia elétrica acabou contaminando outros setores, por exemplo, as ações do Banco do Brasil vieram para R$ 12,00, as ações do Bradesco vieram para R$ 17,00, enfim, houve uma contaminação, podemos dizer que houve um “mini-crash”. Mas nada que não pudesse ser revertido a médio e longo prazo, como de fato foi revertido.

Uriel Barbosa: No seu ponto de vista quais são os 5 principais critérios e indicadores fundamentalistas que devemos analisar para montarmos uma carteira de dividendos no longo prazo?

Luiz Barsi: Eu considero o risco uma questão importante. Como se mede o risco? O risco das ações você mede através da avaliação do patrimônio líquido de uma ação, se você compra uma ação que o patrimônio líquido é de R$ 1,00 por ação e você paga R$ 20,00, você está assumindo um risco 19 vezes maior do que aquele patrimônio representa, se você comprar uma ação por R$ 0,50 e o valor patrimonial daquela ação é R$ 1,00, você não tá assumindo nenhum risco, você está aproveitando uma oportunidade.

Então a relação do preço e o patrimônio é um dos fatores, que não é determinante, mas é um dos fatores importantes. O Yield também é um fator que considero interessante, o retorno anual através de dividendos.

O setor de atividade que a empresa está e o posicionamento dela dentro deste setor, por exemplo, a gente tem inúmeras empresas no setor de celulose por exemplo, então você tem que avaliar dentro desse setor quais são as empresas que tem uma estabilidade maior, em função da sua postura, da sua estratégia, você pega por exemplo a Fibria, ela é só celulose.

A Suzano tá se transformando e deixando de ser uma empresa verticalizada, de celulose e papel e aos poucos tá deixando o papel, a Klabin tá investindo no papel, mas não o papel de escrever, é o papel de embalagem, e o que ela faz? Ela converte aquele papel em papelão e do papelão ela faz a caixa de papelão que serve de embalagem, e é algo que dificilmente será substituído.

Outro fator é o histórico de resultados, o histórico de distribuições, e também outro fator que devemos analisar é o comprometimento dos controladores da empresa. Se você tiver um controlador que tem só 4 ou 5% da empresa, ele não terá o mesmo empenho provavelmente que aquele controlador que tem 70% de uma empresa por exemplo, então ele vai ter maior compromisso com a empresa, com a estrutura e um maior empenho em remunerar a si mesmo e aquelas ações.

Um outro fator muito importante também é a gestão, a qualidade do gestor, quando você vai comprar ações de uma empresa, que você vai participar de um projeto é sempre interessante você avaliar quem são os gestores, ou quem é o principal gestor, se ele é um gestor bom, por exemplo, se ele é um cidadão que conseguiu ganhar pra ele mesmo, pois um cidadão que não consegue ganhar pra ele mesmo não consegue ganhar para terceiros. A qualidade do gestor é importante, a qualidade além de seu compromisso com a estrutura que ele representa.

Daniel Martins: Senhor Barsi, no passado você falou que possuía ações da geradora Tietê, gostaria de saber a sua opinião sobre o futuro da empresa e se você ainda considera uma boa oportunidade de investimento após o término do contrato com a Eletropaulo que provocou grande diminuição de sua receita?

Luiz Barsi: A Geradora Tietê possuía uma condição “sine qua non”, como é do mesmo grupo, eles tinham uma venda garantida e agora eles têm que vender no mercado, eu não acredito que a geradora Tietê deixe de ter uma receita de qualidade, pode não ser a mesma receita com a garantia da Eletropaulo, mas não acredito que ela irá participar do mercado de uma maneira que não seja vencedora.

Ela pode ter alguma diminuição da receita, mas não ao nível de comprometer sua estrutura de ganho. E há de se avaliar outra coisa importante, a geradora Tietê acabou de adquirir um parque eólico, ela está alternando a sua matriz energética, de hidro energia para energia eólica e energia solar, então eu acredito que vão continuar produzindo energia, independente da matriz.

E quanto as receitas, elas poderão eventualmente sofrer uma ligeira redução, mas eu não acredito que seja uma redução drástica.

Jean Arcego: Seus ativos sempre foram adquiridos na titularidade da pessoa física ou em algum momento se tornou vantajoso alterar a titularidade dos ativos para pessoa jurídica ou algum fundo de investimento?

Luiz Barsi: Não, sempre foram na pessoa física. A pessoa física tem algumas vantagens, você tem as vantagens, uma das vantagens seria você poder comprar e vender sem pagar o tributo, mas eu não sou de comprar e vender, eu sou de comprar e guardar pelos dividendos, então eu acumulo ações para majorar minha receita de dividendos.

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