Por: Tiago Reis

Vale a pena investir em um IPO? (Parte 2)

Investindo em IPOs

Os poucos casos de pessoas que obtiveram retornos muito elevados investindo em IPOs e obtiveram bons resultados de forma rápida parecem ser suficientes para que muitas outras pessoas se sintam atraídas e motivadas a investir em ofertas iniciais com o objetivo de ser um desses “sortudos”.

Entretanto, isso é algo que não necessariamente atrai ou soa como uma boa oportunidade para quem é ou busca se tornar um o Investidor de Valor (Value Investor), cujo foco é no longo prazo e na compra de ações com o preço significativamente baixo, garantindo assim uma margem de segurança.

Ofertas públicas são frequentes quando há otimismo por parte do mercado, o que garante às empresas que façam o levantamento do capital necessário através da venda de suas ações, e devido a esse momento de euforia a maior parte das ações se valorizam. No entanto, o mercado é cíclico e em algum momento o mercado ficará pessimista, fazendo com que o preço dessas ações despenque.

As pessoas tendem a comprar mais, de forma agressiva e tomando riscos mais elevados quando ocorre essa euforia no mercado e fazem o oposto em situações de crise.

Esse pensamento não se enquadra para um Investidor de Valor, que adota um posicionamento contrário à multidão. Tim Loughran, Jay R. Ritter e Kristian Rydqvist afirmam em seu artigo “Initial Public Offerings: International Insights” publicado em 1994 no Pacific-Basin Finance Journal que as empresas optam por realizar o IPO em períodos onde há otimismo em excesso.

Tal estudo é complementado pela observação de Charles Lee, Andrei Schleifer e Richard Thaler em seu artigo “Investor Sentiment and the Closed-End Fund Puzzle” publicado em 1991 no The Journal of Finance, onde eles dizem que o número de empresas que vêm a mercado quando os investidores estão animados é maior.

A leitura do livro “Beyond Greed and Fear” elucida ainda mais os aspectos que envolvem a abertura de capital de uma empresa. O autor indica que existem três fatores comportamentais que se relacionam ao IPO:

Underpricing inicial: ocorre quando o preço da ação é muito baixo no lançamento, fazendo com que ele decole no primeiro dia de venda da ação.

Desempenho inferior no longo prazo: o preço sobe tanto que ele possivelmente ultrapassará o valor fundamental, de forma que com o tempo esse preço cairá, dando assim origem ao desempenho inferior no longo prazo.

Mercado otimista (hot-issue market): é o momento onde os investidores estão propensos a comprar, isto é, a demanda por IPOs é elevada neste período.

Hersh Shefrin completa dizendo que os investidores excessivamente otimistas quanto a essas empresas que emitem ações ao público pela primeira vez provavelmente são motivados por aspectos psicológicos como arrependimento de não ter investido em algum IPO que obtiveram sucesso, viés para apostar em tendências e a mentalidade de multidão.

Há uma frase de Warren Buffett que retrata essa situação de forma contundente: “Um IPO é como uma transação negociada – o vendedor escolhe quando vir a público – e é pouco provável que o momento seja favorável a você”.

Motivos para ficar de fora da onda de IPOs

Existem alguns motivos para um Investidor de Valor agir de forma cautelosa quando se trata de IPO e muito provavelmente ficar de fora de qualquer onda desse “fenômeno”.

Um estudo realizado pela Loughran e Ritter em 1995, mostrou que o desempenho de empresas que realizaram IPO entre 1970 e 1993, nos Estados Unidos foi bem abaixo, das empresas mais maduras no mercado em seus primeiros 5 anos como companhias abertas.

Já para o Brasil, nós já realizamos um estudo onde analisamos a performance de todas as empresas que vieram a público desde 2004 no Brasil e comparamos seus resultados com o Ibovespa e o CDI, e o resultado mostrou claramente um desempenho mais fraco em termos de rentabilidade para quem entrou no IPO.

Evidentemente que posteriormente, muitas dessas empresas sofreram quedas, e possibilitaram a compra de suas ações por um valuation mais atrativo, e aí sim poderia valer a pena, de fato.

Ou seja, é evidente que investindo em IPOs há uma chance pequena de se obter um retorno atrativo, e na maior parte das vezes, o investidor pagará caro, prejudicando sua rentabilidade.

Na média o que acontecerá é que investindo em IPO provavelmente se obterá um retorno abaixo da renda fixa e com risco superior.

Os investidores devem se atentar também, ao analisar empresas em processo de abertura de capital, ao fato de que muitas vezes os controladores “enfeitam a noiva” para vender a empresa em seu IPO, como pode se ver nessa entrevista com o mega investidor Luiz Barsi.

Ademais, a ausência de um histórico dessas empresas é mais um fator que dificulta uma análise própria dessas empresas para decidir se o negócio é interessante no longo prazo e se vale a pena realizar o investimento.

Conclusão

Após estudar e analisar o desempenho histórico de IPOs não só no Brasil como nos EUA e entender os motivos por trás de uma onda de IPOs, fica fácil de perceber o que leva grande parte dos investidores inexperientes aderirem a essa onda com tanta agressividade. Neste caso você deve deixar os fluxos especulativos de lado e adotar uma postura “contrarian” à multidão.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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