Hoje iremos apresentar três características fundamentais que procuramos nas empresas recomendadas por nossas carteiras, especialmente a carteira de dividendos, que tem como um foco, além da excelência operacional das empresas e bons números, um bom histórico de dividendos para aqueles que buscam incrementar a geração de renda passiva, com consistência.

Obviamente que existem outras várias características que também procuramos, e sem dúvidas pretendemos abordar em outras oportunidades, como Suno Call ou mesmo relatórios semanais, porém hoje, nos concentraremos em abordar três características que consideramos bastante importantes e geralmente exigimos antes de recomendar uma empresa.

Empresas inseridas em setores menos cíclicos

 Quem acompanha nossas carteiras consegue perceber que, em linhas gerais, não costumamos adicionar à carteira ativos de empresas expostas a setores cíclicos.

O maior motivo de não adicionarmos esse perfil de empresa é justamente pelo fato de que empresas em setores cíclicos apresentam uma grande volatilidade em seus resultados, ou mesmo em sua geração de caixa, o que representa um risco para quem está de olho em dividendos consistentes.

Um caso legítimo de empresa de um segmento cíclico e que pagava elevados dividendos no “topo” deste ciclo é a Vale (VALE5) há alguns anos atrás.

O segmento de commodities, onde a Vale atua através da mineração, é um segmento altamente volátil, e o minério de ferro, principal mineral que a Vale trabalha, também sofre muitas variações em seus preços ao longo do tempo, por conta de uma natural ciclicidade da economia global, com períodos desequilíbrios de oferta e demanda, etc.

Por conta de uma forte aceleração na economia chinesa verificada ao longo da última década, com uma forte demanda pelo mineral, o minério de ferro atingiu patamares recordes de preço, sendo negociado a valores próximos de US$ 200,00 entre 2010 e 2011.

Podemos ver, no entanto, que ao longo de quase 20 anos que antecederam o chamado “boom das commodities”, os preços estiveram bem mais baixos, e o minério era negociado por pouco mais de U$ 10,00 em média.

Muitos investidores, incautos, acreditavam que o minério próximo a US$ 200 tinha vindo para “ficar”, mas os mais prudentes, que sabiam da alta ciclicidade do setor, viam as coisas de uma maneira diferente.

Com o minério nas “alturas”, a Vale apresentava resultados recordes, com lucros muito elevados, e consequentemente, realizava pagamentos igualmente muito expressivos, o que levou muitos investidores a comprarem ações da empresa buscando proventos.

Podemos ver abaixo como no ano de 2011 a empresa atingiu patamares recordes de pagamentos de dividendos.

Porém, nos anos seguintes com a queda do preço das commodities, em especial do minério de ferro, a empresa viu seus dividendos serem reduzidos de forma expressiva, tendo pago aos seus acionistas menos de R$ 0,20 por ação.

Resumindo: Quem comprou em 2010 ou 2011, onde a empresa realizava grandes pagamentos de dividendos por conta de lucros recordes, e esperava receber aqueles dividendos elevados no futuro, viu seu planejamento ser interrompido por um duro golpe de realidade.

Hoje o minério vem se recuperando, mas ainda negocia muito abaixo daqueles patamares vistos há alguns anos. Obviamente que conforme a Vale aumente sua produtividade, reduza seus custos de produção, e melhore sua eficiência, é esperado que a empresa passe a apresentar margens mais atrativas, mesmo com um minério muito mais barato, mas ainda assim, dificilmente a empresa, ao menos no curto ou médio prazo, voltará a pagar os dividendos que pagou no passado.

Sendo assim, os investidores devem sempre avaliar o setor onde a empresa está inserida e analisar todo o contexto, o “conjunto da obra”, justamente para não serem surpreendidos negativamente no futuro.

Empresas que negociam commodities, de um modo geral, são empresas que os investidores devem ter um grande cuidado ao investirem, justamente porque durante o período de alta dos ciclos seus lucros acabam evoluindo de forma significativa e o mercado, muitas vezes, acaba precificando esses lucros, que em algum momento serão fortemente reduzidos.

Além do mais, quando a alta do ciclo se encerra, as ações destas empresas costumam sofrer fortíssimas quedas, prejudicando e muito o retorno do investidor.

Podemos ver abaixo claramente como o investidor que comprou ações da Vale quando o minério estava próximo do pico de preços, e a empresa apresentava um dy elevado por conta disso (>6%), foi bastante prejudicado em termos de retorno, mesmo com as fortes valorizações que as ações da Vale vêm sofrendo nos últimos semestres.

Empresas cíclicas, em nossa visão, devem ser compradas no “fundo do ciclo”, ou seja, quando estão totalmente desvalorizadas, pagando dividendos relativamente baixos (ou nem pagando dividendos), com um valuation atrativo, pois, no momento que o ciclo é revertido, o investidor obtém ganhos muito expressivos.

Nós temos intenção de recomendar ações da Vale futuramente, porém a um valuation mais atrativo e dentro de um contexto mais interessante, que produza uma capacidade de retorno maior e mais margem de segurança.

Possuir um balanço saudável

Avaliar a saúde financeira da empresa através de seu balanço e seus dados financeiros é fundamental para se escolher uma empresa com foco no pagamento de dividendos para a aposentadoria, afinal de contas, como uma empresa conseguirá pagar boa parte de seus lucros aos acionistas com consistência no futuro se está em uma situação delicada e adversa no presente?

Pagar dividendos elevados ou acima da média, está longe de ser o suficiente em nossa visão, e prezamos muito pela qualidade e origem deste dividendo.

Sendo assim, avaliar a lucratividade da empresa, a capacidade da empresa em gerar caixa com consistência, avaliar o endividamento, sua lucratividade, seu nível de liquidez (disponibilidades), seu fluxo de caixa, o andamento de suas despesas, etc, são fatores imprescindíveis nessa análise.

Empresas com dificuldades financeiras, com problemas de fluxo de caixa, despesas e custos que estão se elevando de forma expressiva, margens contraídas, tendem a apresentar uma maior dificuldade em pagar bons dividendos e principalmente, dividendos constantes e estáveis no futuro.

Além disso, empresas muito endividadas, por exemplo, acabam tendo de direcionar boa parte de sua geração de caixa operacional para a amortização de dívidas e pagamento de juros, e por conta disso, acabam tendo dificuldades em termos de fluxo de caixa livre, o que acaba por comprometer também a capacidade de pagar proventos.

Uma forma de avaliar se a empresa está com um endividamento muito elevado é olhar para a relação de Dívida Líquida/Ebitda, que relaciona o seu endividamento à sua geração de caixa operacional.

Quando este indicador se encontra acima de 4 ou 5 vezes, normalmente exige uma maior atenção por parte dos investidores, visto que pode representar um endividamento excessivo e que compromete naturalmente a geração de caixa líquida da empresa e também pode indicar uma dificuldade da empresa em conseguir reduzir sua alavancagem.

Empresas negociadas em um valuation atrativo

Empresas que estejam com um valuation atrativo, com múltiplos relativamente baratos, além de proporcionarem uma maior margem de segurança ao investidor, ainda costumam entregar dividendos mais elevados que a média, visto que o dividend yield normalmente está maior nestas situações.

Sendo assim, na hora de buscarmos opções de investimentos para nossa carteira de dividendos, também costumamos dar uma atenção especial ao valuation da empresa, avaliando seus múltiplos, apesar de não avaliarmos nenhum múltiplo isoladamente, e isso é muito importante e deve ser deixado claro.

Normalmente quando a relação P/L de uma empresa, por exemplo, encontra-se abaixo das médias históricas, ou está abaixo dos seus pares, e a empresa não sofreu nenhuma deterioração relevante operacionalmente, ou no seu segmento, normalmente pode representar uma oportunidade interessante para quem também busca dividendos, além é claro, de trazer um maior potencial de valorização.

Um exemplo interessante é o da Ambev há alguns anos atrás, empresa que historicamente sempre negociou com múltiplos relativamente elevados e dividendos pouco atraentes, apesar de ser uma ótima pagadora de dividendos.  A empresa, em média, apresentou um P/L de mais de 20-25 vezes ao longo dos últimos 15 anos por exemplo. Esses múltiplos sempre afastaram muitos investidores de investirem na empresa.

De 2008 a 2011, porém, ainda refletindo os efeitos da crise de 2008, e algum receio sobre as perspectivas futuras da empresa, durante vários períodos pontuais a empresa apresentou retrações consideráveis em suas cotações, ao passo que seus lucros cresciam, com um crescimento de marketshare, aumento de preços, aquisições e ganhos de eficiência.

Com cotações menores em suas ações, apesar da empresa estar com lucros maiores e uma geração de caixa expressiva, a relação P/L da Ambev chegou a negociar próxima de 13 ou 14 vezes em alguns períodos pontuais, o que é um patamar muito abaixo de suas médias históricas, e que representou um ótimo momento para ir às compras.

Com uma cotação menor, e múltiplos mais em conta, a empresa chegou a entregar um yield de mais de 6% naquele momento, o que é um dividendo muito interessante para uma empresa consolidada e segura como a Ambev, que hoje entrega um dividend yield de menos de 3%, por exemplo, com uma relação P/L de quase 28 vezes, muito mais cara.

Infelizmente, muitas vezes para se adquirir um ativo por uma precificação atrativa, é necessário ter paciência, visto que não é sempre que observamos quedas relevantes no mercado que levam a oportunidades.

De qualquer forma, acreditamos que a nossa paciência ao longo destes últimos meses, em recomendar ativos apenas que avaliamos que estejam com um valuation interessante, tem sido um grande diferencial na entrega de resultados e margem de segurança aos nossos assinantes.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.