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    Todo investidor de valor é também um investigador

    Todo investidor de valor é também um investigador

    Os telefones celulares modernos ganharam um nome em inglês: smartphones – que em português soariam como “fones espertos”. “Esperto” é a definição correta para tais instrumentos, que ainda estão longe de serem aparelhos inteligentes.

    Os smartphones são espertos, pois eles tentam adivinhar o que você está teclando e completam as palavras antes mesmo de você digitá-las inteiramente. Por vezes você escreve alguma palavra errada e o programa lhe sugere a correção ou inadvertidamente substitui a mesma por você.

    Você pretende escrever “surpreendidos” e o termo surge na tela bastando digitar “surpree”. Legal, que aplicativo esperto! Mas longe de ser inteligente. Digitamos a palavra em inglês “template” e a mensagem é encaminhada como “tem plateia”. E toca enviarmos outra mensagem com a palavra que queríamos realmente escrever. Droga, que aplicativo burro – e teimoso.

    Porém, de vez em quando o smartphone promove associações interessantes para você. Já experimentou tentar escrever “investidor de valor” no seu aparelho? Pode ser que ele troque a expressão por “investigador”. E não é que desta vez faz sentido?

    O VERBO É PROSPECTAR

    Todo investidor de valor é também um investigador. A diferença é que investigadores policiais ou detetives particulares investigam crimes diversos, ao passo que o investidor de valor investiga empresas, não para resolver o crime perfeito, mas para encontrar o investimento perfeito, ou para desfazer-se de uma posição antes que uma empresa se deteriore por completo.

    Toda investigação, para ser bem sucedida, deve começar por uma eficiente coleta de dados: todos que forem possíveis. Detetives primeiramente analisam a cena do crime. Investidores iniciam seus estudos, muitas vezes, pelo Balanço Patrimonial de uma empresa. Detetives reúnem indícios. Investidores reúnem indicadores financeiros.

    Numa investigação policial, a reconstituição de um crime a partir do relato de testemunhas e suspeitos, pode ajudar na elucidação dos fatos. Procedimentos semelhantes são verificados nas Demonstrações de Resultados de Exercícios e Demonstrações de Fluxos de Caixa, que contam a história contábil das empresas.

    Na segunda fase das investigações, é feito um cruzamento de dados para a elaboração das hipóteses, que vão sendo descartadas comparativamente até que reste a alternativa mais provável.

    OBSERVAÇÕES E ASSOCIAÇÕES

    Logo, de bons investigadores se espera que tenham dois atributos essenciais: o primeiro é a capacidade de observação e o segundo é a capacidade de fazer associações inteligentes – não as associações espertas dos aplicativos de smartphones, que trocam apressadamente “cambagem” por “combatem”.

    Detetives espertos e apressados podem acusar o suspeito errado. Detetives inteligentes provam quem é o culpado. Investidores espertos e apressados podem ir à falência. Investidores inteligentes enriquecem no longo prazo.

    “A Investigação é, ou deveria ser, uma ciência exata e, portanto, deve ser tratada da mesma forma fria, sem emoção” – disse Sherlock Holmes para seu amigo, Doutor Watson, no conto “Um Estudo em Vermelho” de Sir Arthur Conan Doyle.

    FONTE DE INSPIRAÇÃO

    Sherlock Holmes é o detetive mais famoso da literatura policial. Seu criador era formado em Medicina e baseou parte da sua personalidade na figura de um de seus professores, o Doutor Joseph Bell, um cirurgião que era capaz de relatar a profissão, o país de origem e até os vícios ocultos de um estranho observado na rua, em função de seu modo de se vestir, seu jeito de caminhar, seus gestos e suas expressões faciais.

    A impressionante capacidade de tirar conclusões a partir de observações de pequenos detalhes emprestou a Holmes a fama de ser um mestre da intuição e da dedução. Porém, de acordo com Doyle, seu método intelectual era baseado no raciocínio abdutivo. A abdução, diferentemente da indução e da dedução, é uma lógica filosófica usada para estabelecer hipóteses científicas através de relações de causalidades.

    Este é um princípio que o investidor de valor inteligente deve empregar: identificar através do raciocínio abdutivo as relações entre causas e efeitos através das histórias que os números dos documentos contáveis das empresas contam, ao fornecer pistas de como as empresas empregam seu capital, como elas se financiam, como elas fazem seu planejamento tributário e como elas se relacionam com as dívidas.

    OS NÚMEROS NÃO MENTEM

    Por exemplo, se uma empresa tem a política de vender seus produtos somente à vista, mas paga seus fornecedores somente a prazo (causa) ela certamente vai operar com fluxo de caixa positivo (efeito). O Balanço Patrimonial vai apontar em seu passivo circulante que a empresa gira seu capital baseado no compromisso com seus fornecedores.

    A Demonstração do Resultado do Exercício apontará o lucro gerado com as vendas e a Demonstração do Fluxo de Caixa apontará que o dinheiro das vendas ingressou na empresa, que poderá fazê-lo render ainda mais, antes de quitar as contas com os fornecedores. O montante do capital investido também aparecerá no ativo do Balanço Patrimonial.

    “Elementar, meu caro Watson” – poderia dizer Sherlock Holmes. Apesar do personagem nunca ter proferido tal frase nos contos de Conan Doyle, mas apenas em filmes e peças de teatro, ela faz muito sentido depois que um crime é elucidado OU um bom investimento é realizado. Tudo parece se encaixar perfeitamente depois da solução encontrada após um criterioso trabalho de investigação.

    O FATOR HUMANO

    Holmes era tão perspicaz que era capaz de resolver certos enigmas sem sair de seu escritório no apartamento 221 B da Baker Street em Londres. Em outros casos, ele arrastava seu amigo Watson para visitar a cena de um crime. Do mesmo modo o investidor de valor é capaz de identificar uma oportunidade de investimento sem sair de sua escrivaninha, embora uma visita nas instalações de uma empresa objeto de estudo possa ser decisiva para avaliar a capacidade dos seus gestores e a organização do negócio.

    Para tanto, investigadores nunca atuam sozinhos: ao longo do tempo eles constroem uma rede de relacionamentos que pode ser útil em diversas ocasiões futuras. A formulação de uma hipótese provável não é baseada apenas em indícios e indicadores, mas envolve fatores humanos, que somente cenas de crimes e documentos contábeis não entregam.

    Holmes ficava absolutamente entediado quando não tinha um caso para resolver. Igualmente um investidor de valor sente-se aborrecido quando prospecta a oportunidade de um negócio que não pode ser realizado quando o mercado financeiro ingressa num ciclo de alta, deixando as ações caras demais.

    ESTUDAR SEMPRE

    O remédio para os momentos de calmaria é continuar estudando. Os melhores investigadores, capazes de concatenar associações inteligentes, fazem isso baseado numa cultura geral e no repertório adquirido através da leitura constante, principalmente.

    Se nos romances policiais são enxertados aspectos de aventura e emoção, com o uso de disfarces, perseguições e armadilhas, entre outros expedientes para manter o leitor atento; no mercado financeiro o que os acionistas de longo prazo buscam é a chatice dos retornos previsíveis e ininterruptos. Nisto, detetives da ficção e investidores da vida real divergem diametralmente.

    Nem todos possuem o dom e a dedicação com tempo suficiente para se tornar um ótimo detetive ou um grande investidor de valor. Por isso os londrinos do final do século 19 contratavam Sherlock Holmes para averiguar suas demandas. Para investimentos inteligentes no século 21, aqui no Brasil, você pode contar com os investigadores profissionais da Suno Research. Faça a sua assinatura premium hoje mesmo.

    Jean Tosetto
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