taxa selic

Não precisa ser investidor da bolsa de valores para se deparar, quase diariamente, com diversos termos econômicos. Um dos mais comuns é a taxa Selic.

Com muita frequência, as pessoas ligam a televisão ou acessam a internet e se deparam com notícias sobre o sobe e desce desse indicador.

Mesmo assim, ele acaba sendo muito pouco compreendido pelas pessoas em geral.

A taxa Selic é taxa que o governo paga quando pega dinheiro emprestado. Por isso, ela também é conhecida como taxa básica de juros, justamente porque serve como a base para os juros de toda a economia do país.

Assim, ela tem uma influência direta sobre a vida das pessoas, já que sua variação pode afetar o controle da inflação, que se relaciona diretamente com a atividade econômica.

Neste guia, explicaremos um pouco mais sobre o que é a taxa Selic, assim como as consequências de sua variação no dia a dia das pessoas e da economia brasileira.

  1. Conceitos da taxa Selic
  2. Como funciona
  3. Taxa de juros e distorções do mercado
  4. Como é definida a taxa Selic?
  5. O seu impacto na inflação
  6. Qual o seu valor hoje?
  7. Impacto nas contas públicas
  8. Influência na renda fixa
  9. Influência na renda variável
  10. Conclusão
  11. Perguntas e Respostas

Taxa Selic – conceito

selic.conceitos

A taxa Selic anual é a taxa de juros da economia do Brasil. Para começar, ela é dividida em duas taxas que servem para coisas diferentes:

  • A taxa Selic meta, que é a meta deliberada em reuniões do Comitê de Política Monetária e serve para balizar os juros no país.
  • A taxa Selic over, que utilizada como o juro nos empréstimos interbancários de curta duração.

A meta da Selic é a mais utilizada por diversos motivos, que explicaremos a seguir. Mas vamos falar primeiro o funcionamento da Selic over.

Taxa Selic over

A Selic over é utilizada pelo mercado interbancário para o financiamento de operações com duração diária, que são lastreadas em títulos públicos federais.

Vamos à prática. Todos os bancos do país são obrigados por lei a depositar uma parte do dinheiro que têm sob sua custódia em uma espécie de “conta” no Banco Central (BC).

No entanto, como todo dia essas instituições realizam várias operações financeiras, é muito comum que, ao final do expediente, elas tenham em seu poder mais ou menos dinheiro do que quando o dia começou.

Por isso, a porcentagem que deve ficar com o Banco Central varia diariamente.

Para se adaptarem à regra, os bancos que têm uma porcentagem menor do que a necessária sob posse do BC tomam empréstimos de curtíssimo prazo dos bancos que têm mais do que o que precisam.

Essa operação é chamada de overnight.

A garantia para esses empréstimos são os títulos do Tesouro Nacional, de forma a reduzir ao máximo o risco – e também os juros.

Assim, como os empréstimos são de curtíssima duração e o risco praticamente inexiste, a remuneração por esse crédito é baseada no quanto o governo paga de juros sobre esses títulos.

Dessa forma, a taxa de juros praticada pelos bancos e credores é, em geral,  igual ou ligeiramente supererior às pagas para os detentores dos títulos públicos federais lastreados na Selic, já que esse também é um tipo de empréstimo considerado seguro.

Vale ressaltar, aqui, que a sigla Selic significa Sistema Especial de Liquidação e Custódia, que é o sistema onde esse tipo de operação é registrada.

Dessa forma, o sistema Selic nada mais é do que um sistema computadorizado, comandado pelo Banco Central, por onde ele controla a emissão, compra e venda de seus títulos públicos.

Embora o valor definido pelo governo seja a base para as negociações, a taxa Selic varia diariamente com base na média de juros paga nessas operações interbancárias.

Geralmente, essa variação é muito pequena, na casa dos décimos.

O valor da Selic over é divulgado diariamente pelo Departamento de Operações de Mercado Aberto (Demab), subordinado ao Banco Central.

Como funciona a taxa Selic meta

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Agora que tratamos sobre a Selic over, que é menos utilizada pelas pessoas em geral, vamos tratar da Selic meta.

A taxa Selic meta é a que normalmente é citada em noticiários e tem maior importância no dia a dia dos brasileiros.

Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária e corresponde ao valor que o governo paga quando pega dinheiro emprestado.

Assim como qualquer pessoa, o governo também empresta recursos para manter sua “máquina” em funcionamento.

Esse recurso é o que vai ser usado para educação, saúde, infraestrutura, além de ser direcionado para a manutenção da estrutura dos três Poderes.

Embora os impostos sejam a principal forma de financiamento do governo, muitas vezes ele precisa de outras fontes de recurso.

Isso acontece por diversos motivos, como:

  1. Crescimento econômico menor do que o esperado, que ocasiona uma menor arrecadação
  2. Gastos acima do previsto
  3. Antecipar recursos de anos seguintes para investir em determinado momento

Para obter esses fundos, o governo lança seus títulos públicos ao mercado.

Como os juros em geral estão diretamente ligados ao risco de o mutuário não pagar o montante emprestado, convencionou-se que o risco do Estado em não pagar sua dívida, é o menor possível dentro de uma economia de mercado.

Essa dívida é baseada na taxa Selic, que o próprio governo define.

Logo, pode-se concluir que a taxa Selic é a balizadora dos juros praticados em todo o território nacional. E, nesse lógica, as demais taxas praticadas são maiores que os juros pagos pelo governo, já que eles possuem um risco de crédito maior.

Taxa de juros e distorções do mercado

A taxa de juros da economia influencia o dia-a-dia da população

Aqui, quase sempre surge uma pergunta:

Se o próprio governo define quanto paga de juros para o mercado, por quê o ele não define o menor valor possível?

A resposta é tão simples quanto:

Porque isso causaria distorções no mercado.

Vamos a um exemplo prático.

Digamos que Pedro tem interesse em comprar um notebook no valor de R$ 2000,00, mas não possui dinheiro suficiente para pagar o produto à vista.

Então, ele resolve pagar parcelado a uma taxa de juros de 10% ao mês.

Depois de um mês, Pedro volta ao banco do qual tomou o dinheiro emprestado e o devolve um total de R$ 2200,00, desses quais R$ 2000,00 provenientes do montante mais R$ 200,00 de juros.

Analisando mais profundamente essa situação, para o Pedro, foi mais importante ter R$ 2000,00 na mão naquele momento para realizar a compra do produto do que R$ 2200,00 no mês seguinte.

Esses R$200,00 extras que Pedro pagou foi o preço por ter o dinheiro naquele momento, por isso que se costuma ouvir que a taxa de juros é o preço do dinheiro no tempo.

Se o juro fosse, por exemplo, de 30% ao mês, talvez Pedro não tivesse tanto interesse em realizar a compra naquele momento e preferisse esperar.

Dessa forma, fica fácil para entender que uma subida da taxa de juros pode afetar as decisões de compras das pessoas, adiando ou fazendo-as preferir realizar pagamentos à vista.

De modo contrário, acontece quando a sua taxa cai, fazendo com que as pessoas se sintam estimuladas a comprar mais, pois o preço do dinheiro no futuro se encontra reduzido.

Como é definida a taxa Selic?

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Devido a sua relevância, decidiu-se formalizar a decisão de mudanças na taxa Selic da forma mais transparente possível. Por isso, ela é realizada através de reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

O Copom é o responsável por definir a taxa básica de juros, bem como a quantidade de dinheiro existente na economia brasileira.

As reuniões do Copom para a definição da taxa Selic são realizadas 8 vezes ao ano, ou a cada 45 dias, sempre em uma terça e uma quarta-feira.

Na terça, os participantes da reunião analisam a conjuntura da economia com base em indicadores recentes.

Na quarta, a reunião decide, com base nas informações apresentadas no dia anterior, qual o melhor caminho para a taxa.

Taxa Selic e inflação

inflação

Como o patamar dos juros é responsável pela quantidade de dinheiro circulando pela economia, a taxa Selic é diretamente ligada ao controle da inflação.

A lógica é simples: com juros menores, há mais incentivos para que o dinheiro circule. Ele passa a ser melhor remunerado sendo investido no setor produtivo, por exemplo.

E com mais dinheiro circulando, a pressão inflacionária é maior. Isso funciona até que se encontre um ponto de equilíbrio entre a atividade econômica e o controle da inflação.

O patamar considerado baixo para a taxa de juros, no entanto, varia de país a país. No Japão, por exemplo, ela chega a ser negativa e isso não é o suficiente para quecer a economia do país, que com frequência está em deflação.

Por outro lado, se a inflação subir mais do que o esperado, a taxa Selic anual também pode subir.

E aí começa o efeito contrário.

Com uma remuneração melhor com o dinheiro investido em um local seguro – títulos públicos -, os investidores tem menos incentivos para colocar seu dinheiro em outro local.

Com menos dinheiro circulando, a pressão inflacionaria cai.

Taxa Selic hoje

Confira o valor da taxa Selic hoje:

Relembrando o exemplo do Pedro.

Se ele fosse um investidor e tivesse R$1.000.000 separado para pensar em seu futuro.

Imagine que ele pode escolher entre investir em uma empresa ou em comprar títulos do Tesouro.

Se esses títulos estiverem pagando juros de cerca de 15% ao ano, Pedro se sentiria desestimulado a investir em qualquer companhia por dois motivos principais

  1. Porque pouquíssimas empresas conseguiriam dar um rendimento de anual 15%.
  2. Além disso, existe o risco atrelado a todo investimento, que é menor em títulos públicos.

Pedro poderia ganhar mais do que os 15%, mas também poderia ganhar menos – o que já seria um cenário ruim -, ou, ainda pior, perder parte e até tudo o que investiu.

Dessa forma, quanto mais alta a taxa Selic, mais o Banco Central contribui para diminuir a a atividade econômica do país e, também, a inflação.

Assim, a Selic é a principal ferramenta usada pelo BC para controlar a inflação no país. Foi isso que vimos, por exemplo, durante a crise que iniciou em 2013.

A Selic, que estava em 7,25%, logo começou a subir, até atingir 14,25 em setembro de 2015.

Ao mesmo tempo, a inflação, que estava em 6,5% em meados de 2013 atingiu 10% – e teria subido ainda mais não fossem os movimentos feitos na taxa de juros.

Por outro lado, quando a inflação arrefeceu, a Selic também começou a baixar.

correlação entre taxa Selic e a inflação

Selic e as contas públicas

Como a taxa Selic indica quanto o governo está disposto a pagar pelo dinheiro que pega emprestado, ela também pode refletir diretamente nas contas públicas.

Isso porque pagando juros maiores, o governo gasta mais para manter a própria dívida e isso aumenta o déficit público.

Por exemplo, na crise, o aumento da Selic acelerou o crescimento da dívida pública, que foi de R$ 2,3 trilhões em 2014 para R$ 3,5 trilhões no final de 2017.

Taxa Selic e renda fixa

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Servindo como base para os juros no país, a taxa Selic é uma das principais métricas utilizadas para a remuneração de investimentos em renda fixa como:

  • Títulos privados pós-fixados
  • CDBs
  • LCIs
  • LCAs
  • Tesouro Selic
  • Investimentos atrelados à inflação, que tem ligação direta com a Selic, como explicamos.

No caso dos títulos públicos pós-fixados, a mudança na Selic ao longo do tempo pode influenciar o rendimento do investimento.

Isso porque, se ela cai, a remuneração sobre o valor investido é menor. O mesmo acontece se ela sobe.

Com a Letra de Crédito Imobiliário (LCI), a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e o Certificado de Depósito Bancário (CDB), o movimento é parecido.

Isso porque, nesses casos, a remuneração é atrelada a uma porcentagem do CDI (Certificados de Deposito Interbancário), que é diretamente ligado à Selic.

Títulos de CDI nada mais são do que títulos emitidos agora pelas instituições financeiras, visando sanar suas necessidades de caixa no curto prazo.

Esses títulos são ligados diretamente à solidez do banco que os emitiu e, dessa forma, eles são utilizados como garantias de empréstimos entre uma instituição financeira e outra.

Selic e poupança

Por último, a taxa Selic também influencia diretamente as variações no rendimento da poupança.

Elas acontecem em dois casos diferentes:

Influência da Selic na renda variável

De forma indireta, a Selic também influencia o rendimento da renda variável.

Em teoria, a queda favorece o mercado de capitais, pois aumenta o acesso a crédito.

Os juros baixos também sinalizam que a economia está em um bom momento, o que é bom para o mercado como um todo.

Com o mercado desaquecido, por outro lado, a tendência é uma diminuição no consumo, aumento nos índices de desemprego, entre outras consequências ruins.

No médio prazo, os investimentos em renda variável costumam superar os investimentos em renda fixa atrelados à Selic.

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correção entre o Ibovespa e a Taxa Selic

Taxa Selic – conclusão

 

É sempre importante compreender algumas das múltiplas finalidades que a taxa Selic tem sobre a economia brasileira, bem como sua direta influencia sobre a criação de empregos, consumo e poupança da população em geral.

Por esse motivo, acompanhar com frequência o patamar da Selic é algo fundamental e básico para quem é investidor.

Justamente porque ela pode indicar qual é o melhor investimento naquele momento.

Por exemplo, em um cenário de Selic em queda, a tendência é que os investimentos em renda variável valham mais a pena do que em renda fixa.

Isso porque o acesso a crédito tende a ser facilitado, além de ficar mais barato.

Dessa forma, as empresas podem alavancar seu crescimento.

Além disso, a Selic baixa também representa um cenário de mais estabilidade econômica no país, o que é bom para as empresas, que podem planejar bem seu futuro.

Por consequência, esse cenário também é bom para o mercado de capitais, já que as empresas tendem a produzir mais e ganhar valor de mercado.

Isso cria um ciclo virtuoso, já que um mercado competitivo e eficiente é o motor para que o país se mantenha estável econômicamente.

Um país com uma economia que cresce cria empregos e renda, além de distribuir melhor sua riqueza.

E isso nos leva para o começo do ciclo novamente.

Percebeu a importância da taxa Selic no dia a dia dos brasileiros?

Ela é uma ferramenta muito importante nos ajustes macroeconômicos, mas também tem correlação direta com fatores microeconômicos.

Por isso,  os cidadãos brasileiros devem entender o funcionamento da taxa Selic e cobrar a responsabilidade por parte de seus governantes na correta e responsável manipulação dessa taxa de juros.

Perguntas frequentes sobre Taxa Selic

  • Devo revisar meus investimentos com mudanças na taxa Selic?

Sim, mudanças na taxa Selic podem servir para que vocÊ revise seus investimentos, principalmente se eles estiverem atrelados a ela.

  • Uma queda na taxa Selic pode beneficiar empresas endividadas?

Sim, a queda na Selic pode beneficiar empresas endividadas. Depende de do indexador, mas grandes empresas costumam ter alguma dívida indexada à Selic.

  • Um país pode ter taxa de juros negativa?

É possível, sim. Depende da atividade econômica do país. Em termos de taxa de juros nominal, o Japão é o exemplo sempre citado. Mesmo assim, se falarmos de taxa de juros reais, boa parte dos países desenvolvidos tem a taxa básica de juros abaixo da inflação.

  • Como saber o histórico da Selic?

Ele pode ser acessado no site do Banco Central.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.