taxa de juros nominal
Por: Tiago Reis

Taxa de juros nominal – entendê-la é essencial no sucesso do investidor

Diversas são as vertentes que envolvem a rentabilidade dos mais diversos tipos de ativos do mercado financeiro – sejam de renda fixa ou renda variável – e a taxa de juros nominal é um conceito que deve ser esclarecido de maneira premeditada por todo investidor interessado na multiplicação de seu capital ao longo do tempo.

Normalmente, é atribuído ao conceito de taxa de juros nominal a ideia de juros aparente, ou seja, é quanto, aparentemente, aquele investidor lucrou num determinado investimento.

A taxa de juros nominal é a taxa que, explicitamente, se encontra expressa em contratos de empréstimos, financiamentos e/ou aplicações financeiras.
No entanto, como veremos com detalhes ao decorrer do texto, esta pode não ser a taxa real de rentabilidade do investidor.

Isto ocorre pois há a presença da inflação. A inflação atua reduzindo a rentabilidade real de um investimento, fazendo com que esta, geralmente, seja menor do que a rentabilidade nominal.

  1. Relação entre taxa de juros nominal e real
  2. A inflação 
  3. Exemplo de taxa de juros real
  4. Taxa Selic
  5. Conclusão

Relação entre taxa de juros nominal e real

taxa de juros nominal e real
Existe uma diferença bastante confundida perante os investidores no que diz respeito aos juros de uma aplicação, e a taxa de juros real se faz presente na maioria delas.

Basicamente, a taxa de juros real é quanto, realmente, um investidor lucrou em uma aplicação financeira em um mesmo período de tempo.Estas duas taxas estão diretamente relacionadas e, para se encontrar a sua conexão, é necessário se interligar alguns fatores.

Para calcular a taxa de juros real, é necessário levar em consideração a taxa de juros nominal, ou seja, a sua rentabilidade.

O segundo fator que é necessário se levar em consideração, neste sentido, é a taxa de inflação acumulada no período, ou seja, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) acumulado naquele período.

O IPCA é o índice de inflação oficial do Brasil e é composto através de uma cesta média de produtos consumidas.

Uma vez estabelecida esta cesta de produtos, mede-se a sua variação de preço ao longo do tempo.

É importante frisar que o IPCA trata-se de uma média. Muitas pessoas reclamam que a inflação de seu consumo é, na realidade, maior do que a divulgada pelo IBGE.
Isto é normal, visto que os consumos das pessoas diferem entre si.

Sendo assim, enquanto determinada pessoa pode apresentar uma inflação do consumo maior do que a média, outra pode apresentar uma menor.

Importante ressaltar ainda que o IPCA leva em conta o consumidor médio brasileiro, ou seja, alguém que ganha entre 2 e 3 salários mínimos.

Quanto mais o investidor se afastar deste perfil, mais provável é que a sua inflação difira do IPCA.

O ganho nominal pode ser igual ao ganho real?

Esta é uma indagação bastante comum de se deparar.

A resposta para essa pergunta é sim, somente para o caso de a inflação, no período, tiver sido igual a zero.

Nesses casos de inflação nula, pode-se entender que não houve nenhuma ação “corrosiva” nessa rentabilidade e, portanto, a rentabilidade nominal acaba sendo igual a rentabilidade real.

No entanto, cabe ressaltar que este é um cenário extremamente raro de ocorrer.

No Brasil, por exemplo, nunca ocorreu este cenário. Na realidade, o que se vê no país é uma inflação que pode ser considerada alta quando comparada com o resto do mundo.

O ganho real pode ser superior ao ganho nominal?

A resposta para essa pergunta também é sim, porém para casos onde a inflação seja negativa no período, ou seja, em casos de deflação.

Logo, se a inflação for inferior a zero em um período, o ganho real supera o ganho nominal naquela circunstância.

Novamente, este também é um caso muito raro de acontecer.

Isto pois, mesmo em países desenvolvidos, onde a inflação é muito baixa, os governos adotam políticas para conter um cenário de deflação.

Com a redução geral nos preços da economia, as famílias e empresas podem passar a adiar o consumo, o que, se prolongado, pode trazer consequências negativas à economia de um país.

Portanto, os governos costumam adotar uma política monetária expansionistas, elevando a demanda de forma a conter um possível cenário de deflação onde a taxa de juros nominal seria superior à taxa de juros real.

A inflação – Taxa de juros nominal versus real

Inflação e taxa de juros nominal
Sabe-se que a inflação para o consumidor amplo no Brasil é medida pelo IPCA.

No entanto, do que se trata exatamente a inflação?

A inflação nada mais é do que o aumento generalizado no preço dos produtos.

Comumente, são apresentadas as seguintes 3 principais causas para a inflação:

  1. Aumento do custo de matéria prima
  2. Excesso de demanda
  3. Inflação crônica

Aumento do custo de matéria-prima

Muitos produtores sofrem com o aumento do custo de matéria-prima de seus produtos.

Com os insumos mais caros, eles precisam aumentar o preço dos produtos vendidos para manterem as suas margens de lucro.

Sendo esta uma das causas da inflação.

Como exemplo podemos citar o setor de commodities.

Quando ocorre um aumento no preço do barril de petróleo, exemplo, é comum que o preço da gasolina sofra um aumento para o consumidor final.

Excesso de demanda

Quando a demanda é superior à oferta por determinado produto, os produtores podem aumentar o preço para assim evitar a escassez e aumentar a sua margem de lucro.

É comum, conforme a renda per capta da população avance, que se tenha uma demanda cada vez maior por bens e serviços.

Suponha, por exemplo, que você é um revendedor de carros. Você vende um determinado modelo pelo valor de R$ 40 mil, e esgota todo o seu estoque em um determinado mês.

No entanto, através de uma análise da demanda, você constata que ao elevar o preço para R$ 45 mil você ainda conseguirá vender a mesma quantidade de carros.

Dessa forma, é racional supor que você fará o aumento de preço.

Portanto, esta é mais uma das causas da inflação.

Inflação crônica

Esta é uma causa mais rara de inflação, e ocorre em países que atravessam momentos de crise com um cenário de hiperinflação.

Este tipo de inflação ocorreu no Brasil nas décadas de 80 e 90.

A inflação crônica nada mais é do que a inflação por conta da inflação.

Com o cenário de hiperinflação instalado, o aumento de preço é tão severo e constante que os produtores e vendedores passam a ajustar os preços diariamente, independente da expectativa de inflação.

Muitas pessoas passam a adotar o racional de “o preço estará maior amanhã, portanto, aumentarei logo hoje”. Isto pode causar um efeito dominó perverso na economia, instalando-se o cenário de inflação crônica.

No Brasil, a hiperinflação apenas foi definitivamente superada após o plano real.

Para exemplificar – Taxa de juros real

Taxa de juros nominal e real

Fórmula de Fischer – Juros real

A título de ilustração, suponha-se que foram aplicados, por um investidor, R$ 1.000 em um investimento bancário qualquer, a juros de 10% ao ano, ao final de um ano, este investidor terá, como resultado do investimento, R$ 1.100.

Esses R$ 100 de diferença são os rendimentos daquela aplicação, e essa taxa de rendimento é considerada uma taxa nominal.

Entretanto, imaginemos que um produto qualquer uma loja esteja sendo vendido a R$ 1.000,00 ao início daquele mesmo ano.

Suponha também que, se esse investidor fosse comprar aquele produto ao final do ano, ela já custaria R$ 1.070,00.

Esta diferença de R$ 70,00 é um efeito da inflação de 7% no período, o que, na prática diminui o poder de compra do dinheiro das pessoas.

Logo, neste caso em questão, a taxa de juros nominal de investimento foi de 10%, mas o ambiente econômico teve uma inflação de 7%.

Então, com uma conta rápida, podemos deduzir que a taxa de juros real, neste caso, foi a taxa de juros nominal (10%) menos a inflação de 7% no período.

Logo, a taxa real foi de aproximadamente 3%, isto por que, para se calcular a taxa real, é preciso que se utilize a fórmula de Fischer, conforme imagem acima.

Taxa Selic

taxa selic
No âmbito da taxa de juros nominal, não se pode deixar de ressaltar a importância da taxa Selic para a economia brasileira.

A taxa Selic, inclusive, é muito utilizada como sendo a própria taxa de juros nominal.

Isto ocorre pois, além não levar em conta a inflação, ela é a taxa de juros básica da economia brasileira.

Isto é, todas as demais taxas de juros e empréstimos no Brasil dependem da taxa Selic.

A taxa Selic nada mais é o quanto o governo paga pelos seus empréstimos.

Por o governo possuir o monopólio da emissão de moeda, ele é considerado o emissor de melhor risco de crédito em uma economia. Dá-se ao risco do governo o nome de risco soberano.

Como nenhuma outra operação de empréstimo, em tese, apresenta risco menor do que o empréstimo ao governo, todas as outras taxas costumam ser maior do que a Selic.

É comum que quando a Selic se reduza, todas as outras taxas da economia também sofram redução.

Por exemplo, com a redução da Selic ocorrida em 2018 muitos bancos diminuíram as taxas requeridas para o financiamento imobiliário.

Da mesma forma, quando a taxa Selic sobe, é comum que as demais taxas da economia subam.

Por exemplo em 2016, quando a Selic teve uma grande alta, o acesso ao crédito no país se tornou mais restrito e mais caro.

A taxa Selic é definida pelo COPOM, o Comitê de Política Monetária, e é utilizada como instrumento para controlar a inflação.

Ela ainda possui diversas outras consequências sobre a economia do Brasil, entre as quais podemos citar:

  • Definição do custo de oportunidade
  • Influência na taxa de desconto
  • Custo da dívida das empresas

Definição do custo de oportunidade

O custo de oportunidade em investimentos pode ser definido como a melhor opção de investimento que você abre mão de realizar.

A taxa Selic possui uma relevância grande na definição dessa taxa de custo de oportunidade.

Como dito anteriormente, a governo federal paga pelos seus empréstimos a rentabilidade definida pela taxa Selic.

E, também, foi dito que o governo possui o menor risco de crédito em uma economia.

Sendo assim, ao empresário ou um empreendedor considerar um projeto, ele exigirá, obviamente, um retorno maior do que o estabelecido pela taxa Selic.

Pois, ao elaborar um novo projeto, ele está incorrendo em maiores riscos e incerteza do que se investisse simplesmente em títulos públicos que remuneram o valor da taxa de juros básica da economia.

Imagine, por exemplo, que ao governo esteja pagando 15% ao ano pelos seus títulos.

Faria sentido, neste caso, alguém investir em uma empresa que fosse lhe entregar um retorno de 10% ao ano?

Fica claro que não. Pois, por um risco maior de se investir em uma empresa, a pessoa teria um retorno menor.

Dessa forma a Selic age diretamente sobre o custo de oportunidade dos investimentos.

Uma taxa alta é associada a um custo de oportunidade maior, e as pessoas passam a ser mais criteriosas ao se avaliar outros investimentos.

Da mesma forma, uma taxa baixa é associada a um custo de oportunidade menor, e as pessoas passam a ser mais propensas a realizar outros tipos de investimento.

Taxa de desconto

A taxa de desconto é amplamente utilizada para se fazer o valuation de ativos.

Ela está associada ao risco que se considera para o investimento no ativo ao ser avaliado.

Uma taxa de desconto mais elevada está associada a um risco maior. Enquanto que uma taxa de desconto reduzida se associa a um risco menor.

De forma semelhante ao custo de oportunidade, a taxa de desconto apresenta influência direta da Selic.

Isto ocorre pois ao se investir em uma ação, por exemplo, o investidor está abrindo mão de diversos outros investimentos, dentre eles o investimento em títulos públicos que remunerem a taxa nominal de juros.

Sendo assim, quando a taxa Selic encontra-se elevada é normal que os investidores, ao realizarem os seus valuations, considerem uma taxa de desconto maior.

Isto explica porque a taxa de juros básica de economia possui uma correlação negativa com os investimentos em renda variável.

Quando a taxa cai, o investimento em ações se torna mais atrativo, portanto, esta classe de ativos tende a passar por uma alta em seus preços. Isto foi visto, por exemplo, no ano de 2017 no Brasil.

Por outro lado, quando a taxa de juros sobe, as ações tendem a sofrerem uma queda em seus preços.

Para saber mais sobre como funciona a taxa de desconto, assista o vídeo abaixo no qual é realizado o valuation de Multiplus.

Custo da dívida das empresas

Indexadores da dívida da AES Tiête – Release da empresa

As empresas, para financiarem os seus projetos, captam dívidas.

Como foi visto, toda as taxas de captação de dívida dependem da taxa Selic.

Portanto, quando a taxa de juros nominal se reduz, o custo da dívida das empresas também se reduz. Isto estimula a criação de novos projetos por parte das companhias.

Por outro lado, quando a taxa de juros sobe, o custo da dívida aumenta, e as empresas passam a ser mais criteriosas nas escolhas de seus investimentos.

Na imagem acima é apresentado o perfil do endividamento da AES Tiête, companhia do setor elétrico.

Observe como quase 50% da dívida da empresa está indexado ao CDI. O CDI, por sua vez, acompanha diretamente a taxa Selic.

Dessa, é possível concluir que a variação da taxa de juros afeta diretamente o custo da dívida desta empresa.

Conclusão sobre a taxa de juros nominal

conclusão taxa de juros nominal
É muito importante que os investidores se atentem, ao decidirem aplicar os seus recursos, às taxas de juros nominal e real presentes nas variáveis que medem os seus rendimentos para que, assim, possam ter uma ideia mais precisa da intensidade das rentabilidades de seus investimentos ao longo do tempo.

Portanto, a taxa de juros nominal pode não representar fielmente a rentabilidade de um investimento.

Afinal, de nada adianta um investimento render 20% se a inflação no mesmo período for de 30%. Nesta situação, inclusive, o investidor terá na realidade perdido poder de compra.

Dessa forma, é importante que o investidor tenha sempre em mente a diferença entre a taxa de juros nominal e a taxa de juros real.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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