Stop Loss

Em maio de 2017 a Bolsa de Valores de São Paulo (antiga Bovespa e atual B3 – Bolsa Balcão Brasil, após a fusão com a Cetip) acionou o mecanismo denominado “Circuit Breaker”, em função das delações premiadas dos controladores da JBS envolvendo o presidente da República e o líder de sua base de apoio, gerando o medo do mercado financeiro na manutenção da retomada da economia após anos de recessão.

O “Circuit Breaker” ocorre raramente: apenas quando há uma queda brusca no índice da Bolsa. Assim que a queda atinge 10%, as operações são paralisadas por meia hora. Se na retomada das negociações o índice atingir queda de 15%, a paralisação dura uma hora. Antes do “Circuit Breaker” da B3 em maio de 2017, houve interrupções em outubro de 2008, numa reação à deflagração da crise do mercado financeiro dos Estados Unidos. Em 2001 a Bolsa de São Paulo simplesmente fechou o pregão, por causa dos atentados terroristas de 11 de setembro.

Circuit Breaker

Antes do “Circuit Breaker” – referente à delação dos irmãos da Friboi – ter sido acionado, no entanto, alguns papéis da Bolsa de São Paulo já haviam derretido mais de 30%. As ações da Cemig chegaram a desvalorizar 40%, se recuperando parcialmente após a retomada do pregão. Nesse período de polvorosa do mercado, milhares de ordens de venda foram disparadas automaticamente, através de outro mecanismo, conhecido como “Stop Loss”.

O que é o Stop Loss?

Uma ordem “Stop Loss” (em português seria algo como “Parar a Perda”) pode ser estabelecida junto à corretora de valores determinando uma porcentagem máxima de prejuízo em relação ao preço pago originalmente por uma ação. Por exemplo, você adquire os papéis hipotéticos de ACME11 a R$ 100 por ação, esperando logicamente pela valorização, e determina que, se o papel cair 3%, para R$ 97, o mesmo deve ser vendido automaticamente. Na teoria, esta seria uma estratégia para interromper um prejuízo, se a ação de ACME11 continuar caindo.

Limitar a perda significa admitir a mesma

A porcentagem do “Stop Loss” é determinada pelo investidor, conforme sua aversão ao risco. É como se ele pudesse avisar ao maquinista do chapéu mexicano, do parque de diversões, que pare a brincadeira antes dele vomitar de enjoo. Os estudos norte-americanos que defendem a estratégia do “Stop Loss” alegam que ela pode ser efetiva entre 10 e 15%. Mas não há consenso: há quem recomende que esta margem fique entre 5 e 10%. A determinação de tal porcentagem é mais atrelada à análise técnica ou gráfica do mercado, do que baseada em análise fundamentalista das empresas.

Alguns operadores de “Day Trade” trabalham com margens ainda mais reduzidas, entre 1 e 2%. Como a velocidade das operações é alta, com o objetivo de recolher lucros de grão em grão, a margem de lucro também é reduzida, na mesma proporção – neste caso existem ainda as ordens do tipo “Stop Gain”, sempre que um lucro esperado é atingido.

Os “traders” também se habituam a trabalhar com dois valores atrelados ao “Stop Loss”: o valor de disparo da ordem e o valor mínimo da operação. Por exemplo, se ACME11 foi comprada a R$ 100, a ordem de venda pode ser acionada quando a cotação chegar em R$ 97 – com um valor limite de venda fixado em R$ 94. Se a cotação cair rapidamente para abaixo de R$ 94, a ordem é saltada, ficando à espera da recuperação mínima do papel.

Quando a bolsa ganha, a corretora ganha, mas você perde

O mecanismo de interromper uma perda na bolsa de valores é uma trava que transmite a sensação de segurança para o investidor novato e o praticante do “Day Trade”. De certo modo o “Stop Loss” é incentivado pelas bolsas de valores e pelas corretoras, pois, sempre que uma ordem é executada automaticamente, a bolsa em questão recolhe emolumentos da operação e a corretora recebe a sua taxa acordada. No longo prazo os custos com tais operações, que promovem o giro excessivo da carteira de um investidor, lhe tiram boa parte da sua rentabilidade.

A venda automática de um papel na bolsa de valores também deixa o dinheiro disponível na conta da corretora, despertando outro medo de perder no investidor. Como muitas vezes ele acredita que o dinheiro não pode ficar parado, ele é tentado a comprar outro papel impulsivamente, no susto, já predeterminando uma margem para acionar outra ordem de “Stop Loss”, alimentando um círculo vicioso. Por vezes ele pode levar seu dinheiro para outros tipos de investimentos, como os de renda fixa, limitando suas chances de acumular patrimônio em longo prazo.

O Stop Loss pode ser um catalisador do pânico

Não são apenas os “traders” que recorrem às ordens de “Stop Loss”. Este é um expediente usado também por grandes fundos de investimentos. Os gestores de tais instituições possuem a sua capacidade de decisão restringida pela adoção de protocolos. Grandes fundos são obrigados, inclusive por legislações específicas, a distribuírem suas carteiras de ativos mediante porcentagens pré-estabelecidas. Alguns fundos são forçados a se desfazer de certos papéis quando eles se desvalorizam abaixo de determinado gabarito.

Em épocas de crise generalizada, se um grande fundo acionar uma “Stop Loss” de determinado papel, os gestores de outros fundos podem ser influenciados e tomar o mesmo rumo, derrubando vertiginosamente os preços das ações envolvidas no processo. Quando o pânico é catalisado por ordens de “Stop Loss”, surgem grandes oportunidades de compra por parte daqueles que praticam o “Value Investing” – uma vez que este movimento contamina também o preço de empresas sólidas e fundamentadas no mercado.

Saber lidar com a flutuação do mercado é uma premissa do bom investidor

Suponha que um pequeno investidor, com renda assalariada de R$ 10.000 por mês, consiga formar uma carteira de ações avaliada em R$ 500.000. Bastará que ela oscile negativamente

1% num dia para este investidor constatar que “perdeu” uma quinzena de trabalho. Seu humor pode variar da depressão para a euforia se, nos dias seguintes, sua carteira se valorizar em apenas 2%. Se este investidor tiver a mera intenção de vender ações de tempos em tempos, nas eventuais baixas do mercado ele será tentado a fazer um giro desnecessário na sua carteira, por vezes através do mecanismo de “Stop Loss”.

Por outro lado, se ele assumir o papel de investidor parceiro das empresas, compreendendo que ele também é dono de parte dos negócios, então ele dormirá tranquilo, sabendo que a desvalorização eventual de uma ação não significa que as empresas em questão perderam a capacidade de gerar dividendos. Ao contrário, ele verá a chance de fazer um aporte nas mesmas.

O que os mais experientes e bem-sucedidos ensinam

Há décadas Charlie Munger é sócio de Warren Buffett na Berkshire Hathaway – notória empresa de investimentos atuante no mercado de capitais dos Estados Unidos, com sólido histórico de valorizações anuais. Em apenas três ocasiões ela apresentou quedas expressivas no preço das ações. Perguntado em outubro de 2009 sobre o quanto ele estava preocupado com o declínio do valor de mercado da Berkshire na ocasião, ele deu a seguinte resposta (em tradução livre):

“Zero. Esta é a terceira vez que Warren e eu vimos nossas participações em Berkshire descer 50% em relação ao valor de topo alcançado no preço da ação. Eu acho que faz parte da natureza da participação em longo prazo, das vicissitudes normais nos resultados mundiais e nos mercados, que o detentor das ações veja o seu valor se depreciar em, por exemplo, 50%. Eu acho que você pode argumentar que se você não está disposto a reagir com equanimidade a um declínio do preço de mercado de 50% duas ou três vezes por século, você não está apto a ser um acionista, e você merece o resultado medíocre que estará obtendo em comparação com as pessoas que têm um temperamento mais filosófico sobre essas flutuações do mercado.”

Warren Buffett faz uma analogia mais palatável para compreendermos como podemos nos comportar com as variações negativas nos preços das ações, expressa em sua carta anual dirigida aos acionistas da Berkshire em 1997. Em seu texto Buffet questiona que, se você planeja se alimentar de hambúrgueres por toda a vida, mas não é um produtor de hambúrguer, então você aguardará por preços mais altos ou mais baixos?

O raciocínio também é aplicado a aqueles que compram carros frequentemente, e que não são fabricantes dos mesmos. Será que eles querem pagar preços maiores pelos veículos? Obviamente, não. Este procedimento deveria ser aplicado ao mercado de ações, mas ironicamente muitos investidores contradizem tal premissa.

Quem compra com critério não vende por acaso

Os adeptos do “Value Investing” nunca adicionam aleatoriamente as ações das empresas em suas carteiras. Toda aquisição de lotes de ações é efetuada somente após uma análise dos fundamentos da empresa alvo do estudo, bem como o melhor momento de entrada no papel. Isso não é feito através de dicas de amigos, barbadas noticiadas em jornais e revistas, ou mesmo em relatórios de casas de consultoria, por mais sérias que elas possam ser.

A decisão de comprar uma ação por parte do investidor pessoa física deve ser tomada pessoalmente, para que este não transfira para terceiros a responsabilidade pelos resultados gerados pela gestão de um portfólio particular. “Nunca compre uma dica” – é o mantra repetido pelo investidor bilionário Luiz Barsi Filho, sempre que lhe pedem orientações sobre investimento. Todas as informações produzidas por especialistas do mercado financeiro devem ser consideradas como referências importantes, não como recomendações explícitas.

Do mesmo modo, não se deve vender ações ou mesmo zerar uma posição em qualquer empresa, sem antes analisar se ela perdeu, ou não, parte de seus fundamentos. A capacidade de gerar resultados pode ser prejudicada numa empresa caso haja mudanças radicais no seu quadro de gestores. Efeitos externos, como alteração de marco regulatório por parte do governo, fusões com empresas predatórias, ou ainda revoluções tecnológicas; são justificativas plausíveis para a venda de ações, mas nunca a mera volatilidade do mercado – ou porque determinado agente deixou vazar alguma notícia de venda dos seus ativos.

Há quem venda ações de uma empresa buscando gerar caixa para reforçar a posição em outra, quando há uma grande oportunidade no mercado. Sempre nestes casos, os preços das ações oportunas estão convidativos, ou seja, com quedas repentinas – muitas vezes reforçadas por mecanismos de “Stop Loss” dos investidores que não possuem a mentalidade de parceria com as empresas.

Decisões baseadas em evidências

Para Tiago Reis, analista-chefe da Suno Research, vale observar como os grandes investidores atuam: “eles aproveitam a crise para comprar mais ações e não se desesperam e vendem na baixa”. Reis complementa sua afirmação citando o exemplo do Poder Executivo que, ao emplacar a Medida Provisória 579 em setembro de 2012, que punia temporariamente o rendimento das empresas do setor elétrico, gerou uma grande oportunidade para investimentos. Desde então, as ações da Eletrobras, por exemplo, valorizam mais de quatro vezes até meados de 2017.

Na visão de Tiago Reis, este deve ser o comportamento de um investidor durante a crise: “ele não deve vender as suas ações, que é o que manda o ‘Stop Loss’, pelo contrário, se ele confia na análise dele e a análise é bem-feita, ele deve ampliar as suas compras e os seus investimentos durante momentos de crise”.

Conte com a Suno Research

Ao fazer uma Assinatura Premium com a Suno Research, você recebe relatórios baseados no “Value Investing”, que lhe servirão de subsídios para tomada de decisões em investimentos de valor em longo prazo, sinalizando tanto as oportunidades de compra como as eventuais necessidades de venda de ativos. A Suno preza pela sua capacidade de gerir seus próprios investimentos e valoriza o seu tempo, que não deve ser desperdiçado com estratégias heterodoxas.

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Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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