Por: Jean Tosetto

Seu patrimônio não é da minha conta

Diariamente visito canais do YouTube. Neles busco informações para o cotidiano, análises políticas, os gols do meu time (pois os jogos passam cada vez mais tarde na TV), os clipes musicais das minhas bandas favoritas. Estou numa fase “anos 90”, curtindo Blur, Oasis e The Verve.

Logicamente aprecio vídeos que tratam de investimentos, especialmente as lives do Baroni sobre fundos imobiliários e as colocações sempre incisivas do Tiago Reis. Por vezes vejo reprises também. Quem não gosta de ouvir o Marcelo Veiga cravar que “a Bolsa sempre sobe”?

Porém, nos últimos dias uma mulher invadiu minha privacidade, principalmente quando assisto aos vídeos pelo smartphone, deitado na cama da minha suíte. Ela é rica, linda e jovem – me faz acreditar que este mundo não é um lugar justo.

Antes de quase todos os vídeos começarem, ela aparece. Ela diz que tem 22 anos, começou a investir em Bolsa aos 19 com pouco mais de mil reais, e que já ultrapassou o patrimônio de um milhão de reais. Ela está disposta a mostrar como fez isso, seguindo as orientações de uma empresa conhecida no mercado financeiro.

É para isso que a propaganda serve: para causar inveja. Para mexer com o emocional das pessoas. No caso dessa menina, o objetivo da empresa é despertar a ganância do sujeito, contando obviamente com a sua ingenuidade. “Se não posso ser jovem e lindo, ao menos quero ser rico também” – talvez seja isso que a estratégia dos publicitários queira despertar.

“Hummm… é mesmo?”

No meu caso, estou vacinado. Não sou mais jovem, não me considero mais bonito e, pelas minhas contas, ainda não sou rico, dado que ainda preciso trabalhar para viver. Mas se tem algo que minha crescente calvície me ensinou, é que devemos relativizar as coisas.

Sei que existem jovens que despertam para suas carreiras com 19 anos e ficam milionários antes dos 22. Os Beatles, por exemplo. Para ficar no Brasil, posso me lembrar do Neymar. Só que para cada guitarrista de Liverpool e para cada centroavante de Santos que deu certo, centenas, milhares, milhões de pessoas na mesma situação não deram em nada. Algumas com indiscutível talento, e daí?

É possível juntar um milhão de reais na Bolsa em três anos, começando com pouco mais de mil reais? Sinceramente eu duvido. Mas darei o braço a torcer: OK é possível, mas pode ser algo reproduzido por qualquer um? Não, não pode. Ou o Neymar pode ter ensinar a jogar futebol no nível dele?

Sinuca de bico

É por isso que a menina da propaganda insistente no YouTube caiu numa enrascada. Ela continua jovem, bonita e rica, mas virou motivo de chacota. Ganhou milhares de memes. Presto serviços para a empresa concorrente dela. Estou feliz com isso? Não, não estou.

Devo padecer de uma doença chamada “empatia”. Sempre tento me sentir no lugar de uma pessoa que me chama a atenção. Fico perguntando como essa menina está reagindo às brincadeiras que estão fazendo com ela na Internet.

Eu não queria estar no lugar dela. Das duas uma: ou ela está sofrendo por dentro e não externa isso, ou está rindo de tudo, vendo os lucros de novas assinaturas caírem na conta da empresa onde trabalha. De qualquer modo, é uma situação triste.

Penso também em como os pais dessa garota devem estar se sentindo. Tenho uma afilhada de 24 anos que trabalha duro, no absoluto anonimato. Sempre digo para ela poupar um pouco por mês, para investir com sabedoria visando atingir a liberdade financeira no longo prazo.

O que é possível acontece no tempo certo

Esta é a verdade: a Bolsa é um ótimo lugar para qualquer pessoa investir. Mas não existe mágica. Existe trabalho duro e estudo de possibilidades para fazer as escolhas certas. Quando estes componentes se combinam, os juros compostos e o tempo se encarregam do resto. Mas levará tempo e isso não rende likes, infelizmente.

Quando você inscreve seu CPF na Bolsa de São Paulo, você abre conta num banco ou corretora para fazer a intermediação dos aportes. Você estabelece uma senha de acesso ao Home Broker e outra de confirmação para cada operação de compra ou venda de ativos.

Portanto, se você tem duas senhas para proteger sua carteira de investimentos, não caia na tentação de revelar a evolução do seu patrimônio. Isto é somente da sua conta, literalmente. Não é da conta de mais ninguém (só da Receita Federal).

Um milhão de reais pode ser muito dinheiro para uma jovem de 19 anos de idade, solteira e vivendo com os pais. Mas pode ser pouco para um chefe de família com filhos para criar, aluguel para pagar e um emprego para manter. Dinheiro é algo muito relativo.

“Quem é você para me dar conselhos?”

Realmente, não tenho o perfil para fazer propagandas no YouTube. Aos 43 anos levo uma vida pacata, baseada na dedicação ao trabalho. Não tenho 22 anos, com um milhão na conta, e nem 80 anos, com um bilhão de reais somente em aportes na Bolsa. Estou no começo da jornada, ainda.

Mas minha capacidade de observação e minha experiência de vida me permitem afirmar que grandes vencedores, em qualquer campo de atuação, trabalham quietos, fazem a lição de casa e evitam exposição sem sentido.

Ironicamente estou me expondo ao escrever isso, mas é uma imposição do meu ofício. Também estou sujeito a críticas, assim como o Tiago Reis e o Baroni, mas é o preço que pagamos para propagar nossas reflexões.

Meu nome é Jean Tosetto e sou colaborador da Suno Research, uma casa independente de análise sobre ativos de renda variável que deseja estabelecer uma parceria de longo prazo com investidores conscientes. Acreditamos no valor das empresas e, sobretudo, no valor das pessoas.

Jamais esqueça

Valor, respeito e longo prazo. Atributos que não podem ser pulados na exibição de vídeos no YouTube.

[Crédito da imagem: “O nascimento de Vênus” (1484~1485), pintura de Sandro Botticelli (1445-1510) exposta na Galeria Uffizi em Florença, Itália.]

P.S.: Vênus foi a musa mais bela e famosa do Renascimento, rivalizando em notoriedade histórica com a Monalisa de Leonardo Da Vinci. Porém, a Monalisa foi inspirada numa personagem real. Já a Vênus de Botticelli, embora encantadora, encenava apenas um mito.

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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