Por: Jean Tosetto

Seria a Arte da Guerra também a Arte da Bolsa?

Em tempos de bonança e euforia as pessoas se desarmam em vários sentidos, diminuindo a atenção para os riscos. Para evitar surpresas, é preciso estar de prontidão e em constante treinamento. Isso vale para o mercado de trabalho e vale para o mercado financeiro.

A mente humana tem um mecanismo de defesa para aliviar os grandes traumas que afligem a sociedade. Tendemos a moldar o passado e projetar o futuro conforme nossas percepções do presente. Isto significa que, em tempos relativamente duradouros de paz, tendemos a acreditar que este cenário se manterá indefinidamente, ao passo que temos maior dificuldade de compreender o que nossos antepassados enfrentaram.

Muitos de nossos pais sofreram os reflexos da Guerra Fria no Brasil, em função de uma ditadura militar alinhada com os preceitos do capitalismo norte-americano e da Europa Ocidental, num campo ideológico oposto ao do outro lado da Cortina de Ferro, comandado pela União Soviética e suas premissas socialistas.

Já os nossos avós, ou bisavós, padeceram com a Segunda Guerra Mundial, mesmo com o Brasil longe dos campos sangrentos de batalha. Em meados da década de 1940, por exemplo, descendentes de alemães, italianos e japoneses não podiam viver em cidades do litoral. Mesmo os padres alemães foram proibidos de morar no Mosteiro de São Bento em Santos. Razão pela qual eles subiram para São Paulo e depois se instalaram numa fazenda em Vinhedo, no interior do Estado.

Posto isso, a leitura de “A Arte da Guerra” de Sun Tzu (https://amzn.to/2zbNJ78) continua válida, mesmo depois de dois milênios e meio após a primeira divulgação dos escritos na China, que na época não era uma grande nação, mas uma imensa região seccionada por centenas de cidades-Estado regidas por príncipes.

Há quem diga que Sun Tzu foi um general fictício, mas a verdade é que seu tratado militar guarda lições que estrategistas modernos colocaram em prática recentemente. Entre eles podemos destacar Mao Tsé-Tung, considerado o maior ditador do Oriente no século XX, comandando a República Popular da China com punhos de aço entre 1949 e 1976.

Manual para novos campos de conflito

Em tempos recentes de paz e de capitalismo reinante, “A Arte da Guerra” caiu nas graças de homens de negócios, de executivos a empresários. As palavras atribuídas a Sun Tzu versam sobre temas que interessam a quem coloca a pele em risco no mercado de trabalho. São conselhos sobre liderança e comportamento em grupo.

Numa guerra é importante saber liderar e ser liderado. Mesmo o mais importante dos generais responde ao chefe de Estado e este só se mantém no poder se honrar sua legitimidade diante do povo.

Para Sun Tzu, mesmo as pessoas menos hábeis podem ser treinadas para compor um exército. Trata-se de um condicionamento que exige disciplina e persistência. Isso vale para o mercado de trabalho e vale para o mercado financeiro. Qualquer indivíduo que ingresse nestes mercados não pode cair na ilusão: se ele não estiver de prontidão, será derrotado pelas adversidades.

Numa empresa de médio ou grande porte, se você almeja uma promoção igualmente desejada por um colega de trabalho, você pode ver ele como seu inimigo e terá que formular estratégias para comandar sua equipe, visando entregar melhores resultados, ao mesmo tempo em que deverá monitorar os passos do seu concorrente.

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Autoconhecimento para o bom combate

No mercado financeiro é diferente. Você, como investidor na condição de pessoa física, está sozinho. Neste caso seu exército é você mesmo e seu inimigo está dentro de você. Não o subestime: ele pode te sabotar. Portanto, eis a grande lição de Sun Tzu para o investidor moderno:

“Conhece-te a ti mesmo, conhece teu inimigo. Tua vitória jamais correrá risco. Conhece o lugar, conhece o tempo. Então, tua vitória será total.”

Ou seja: a chave do sucesso está no conhecimento: de si mesmo, das pessoas em geral, do mercado a ser explorado e da sua evolução ao longo dos anos. Ao dominar estes fatores, o investidor será vencedor no longo prazo.

Está claro que o operador individual do mercado de capitais, que deseja extrair ensinamentos de Sun Tzu para enriquecer sua mentalidade de investimento, o deve fazer em termos metafóricos. Ninguém sairá por aí apontando armas para outros investidores. A guerra em busca da independência financeira é individual, porém igualmente feita de várias batalhas:

“Quão lamentável é arriscar tudo em um único combate, negligenciando a estratégia vitoriosa, e fazer com que o destino de tuas armas dependa de uma única batalha!”

Aqui podemos interpretar claramente que não existe uma grande tacada na carreira de um investidor e que, portanto, ele não deve alocar todo o seu capital em apenas um ativo, na esperança de que este surta os resultados esperados. Ou seja: a diversificação é essencial. Distribuir os aportes, ao longo tempo e em diferentes ativos, é o caminho mais seguro.

Diversificação e carteira equilibrada

Se considerarmos que o exército de um general equivale ao portfólio de um investidor, poderemos concluir dois aspectos ao ler “A Arte da Guerra”. O primeiro é que não é recomendável ter uma carteira pulverizada demais:

“Não procures ter um exército numeroso demais. Amiúde, a excessiva quantidade de gente é mais nociva do que útil. Um pequeno exército bem disciplinado é invencível, sob o comando de um bom general.”

O segundo ponto é que a distribuição dos ativos na carteira do investidor deve ser equilibrada, de modo a não haver concentrações de determinados ativos:

“Ao percorrer as fileiras do teu exército, se notares algum vazio, preenche-o. Se encontrares algo alto demais, abaixa. Se houver algo excessivamente baixo, eleva”.

Liquidez para montar e desmontar posições

Os ativos, quando representados por ações de empresas ou cotas de fundos imobiliários presentes no portfólio de um investidor, equivalem a posições que ele mantém em tais papéis. É como se o investidor estivesse acampado em determinada empresa ou fundo imobiliário. Para tanto, ele deve conhecer profundamente o local de pouso de suas tropas, feito um general que se preocupa com rotas de fuga em caso de necessidade. Um local, cuja única saída fica num desfiladeiro, não é seguro para montar posição ou acampamento. Aqui está em voga o conceito da liquidez: entrar ou sair de uma posição facilmente é tão importante para um comandante na guerra como para quem opera no mercado financeiro.

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O investidor é um estrategista

O zelo com a diversificação, montagem de portfólio equilibrado e liquidez para ocupar posições reflete o perfil de alguém mais conservador e defensivo, mas estas são qualidades necessárias para alguém ser vencedor ao longo das batalhas que vencem a guerra.  Nas palavras atribuídas a Sun Tzu, “quanto mais te elevares acima do ‘bom’, mais te aproximarás do ‘pernicioso’ e do ‘ruim’.” O que não faz dele um estrategista radical:

“A invencibilidade está na defesa; a possibilidade de vitória, no ataque.”

E complementa:

“Somente as circunstâncias devem ditar a conduta. Ele não deve ater-se a um sistema geral, nem a uma maneira única de comandar. Cada dia, cada ocasião, cada circunstância requer uma aplicação particular dos mesmos princípios. Os princípios são bons em si mesmos, sua aplicação os torna amiúde nefastos.”

Estudos constantes

Quando nos lembramos dos militares, temos a tendência de imaginar que eles são pessoas que estão sempre em combate, mas a realidade é bem diferente: as operações militares são estudadas detalhadamente para serem executadas no menor tempo possível, pois manter uma tropa em campo de batalha, por tempo indefinido, é uma atividade custosa.

“Na guerra, o essencial é a vitória e não campanhas prolongadas.”

É como um investidor que fica com a tela do Home Broker aberta além do necessário: ao se impressionar com as variações das cotações em tempo real, a tentação para girar a carteira aumenta, com maior chance de deixar dinheiro na mesa da corretora e da Bolsa.

Estrategistas militares, assim como analistas financeiros, passam mais tempo estudando do que agindo. Ao se referir aos antigos generais, Sun Tzu relata que “entre eles, a leitura e o estudo precediam a guerra e os preparavam para ela”. O autor prossegue: “antes de iniciarem o combate, asseguravam-se da vitória. Se a ocasião de investir contra o inimigo não era favorável, aguardavam tempos mais propícios”.

Então ele aconselha ao leitor:

“Se prevês algum lucro, coloca em movimento teu exército. Se não prevês nenhuma vantagem, fica impassível.”

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Avaliar antes de aportar

Neste ponto podemos observar um erro muito comum entre investidores novatos: fazer aportes em ações que já estão com preços elevados, sem margem segura para retornos futuros.

Para determinar as chances de sucesso numa investida militar ou financeira, o estrategista deve recorrer à coleta de dados necessários para produzir uma análise bem apurada e calculada, conforme Sun Tzu recomenda:

“As medidas do espaço derivam do terreno; as quantidades derivam da medida; os números emanam das quantidades; as comparações decorrem dos números, e a vitória é o fruto das comparações.”

De certo modo, esta era a sua forma fazer o Valuation de uma situação, antes de interferir nela com seus recursos. Para reunir os dados necessários para uma análise precisa, o autor de “A Arte da Guerra” era adepto do emprego de capital para obter informações:

“Mantém espiões por toda a parte. Informa-te de tudo, nada negligencies do que descobrires. Mas, tendo descoberto algo, sê extremamente discreto.”

Obter informação também é investimento

Alguns dos espiões recrutados pelos estrategistas militares eram pagos regiamente. Isso continua em voga nos dias atuais. Um investidor raramente tem condições de saber tudo sobre todas as empresas e as melhores oportunidades. Para tanto, ele contrata uma rede de especialistas, habitualmente reunidos numa casa de research, para lhe auxiliar em suas decisões. Informação de qualidade tem custo, mas é um fator essencial. A diferença é que, hoje dia, este tipo de serviço ficou bem mais acessível e normatizado.

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Não ignore os riscos

Segundo Sun Tzu, um general deve evitar a complacência inspirada por dias aparentemente calmos: “Se não quiser ser esmagado pela infinidade de trabalhos e sofrimentos, prepara-te sempre para o pior”.

Este talvez seja o comportamento que mais arruína a carreira de um investidor complacente, comprometido por sua memória curta em tempos de euforia, quando a Bolsa sobe feito um balão de festa junina: afrouxar seu espírito de prontidão, tomando mais riscos do que poderia ao aportar em ações de empresas ruins, que igualmente estão se valorizando a cada dia no mercado.

Uma hora o inimigo aparece, o balão se incendeia e o mercado desaba. Sobrevivem aqueles que estavam atentos e prontos para reagir, treinando para tempos de guerra em tempos de paz.

Investir na Bolsa não precisa ser um ato de guerra, mas se o investidor estiver preparado para uma, esta será sua chance de ser bem sucedido.

Informações precisas e seguras

A função da Suno Research é prover conhecimento útil para investidores que atuam com a estratégia de vencer no longo prazo. Para tanto, esta casa independente oferece uma gama de assinaturas (https://www.sunoresearch.com.br/nossas-assinaturas/).

Além disso, seus livros são escritos numa linguagem simples e acessível, que ajudam no condicionamento de quem investe no mercado financeiro. Entre eles podemos destacar o “Guia Suno de Contabilidade para Investidores” (https://amzn.to/30n1gAZ) que ensina a obter valiosos dados a partir dos documentos que as empresas de capital aberto são obrigadas a fornecer para o mercado.

[Crédito da imagem: “Guan Yu captura o General Pang De” (1430), pintura de Shang Xi exposta no Palace Museum em Pequim, China.]

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Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

1 comentário

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  • Pedro 9 de junho de 2020

    Mais um excelente artigo, um homem que transmite sentimentos de quem realmente valoriza a arte e a filosofia.

    Responder
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