Por: Tiago Reis

Seis sinais ruins para estar atento ao avaliar empresas (Parte I)

Ao longo da caminhada de investidor, fica nítido que a análise de empresas não é uma ciência exata, por mais que lidemos com números. Infelizmente, a contabilidade também acaba não sendo uma ciência exata. Existem muitas técnicas, dentro da lei, que acabam trazendo efeitos que podem enganar o observador.

No livro “The Five Rules for Successful Stock Investing”, os autores Pat Dorsey e Joe Mansueto – diretor de análise de ações da Morningstar e fundador da empresa, respectivamente – abordam alguns pontos sobre os quais os investidores devem se atentar para evitar as empresas que possuem uma contabilidade agressiva.

Além disso, estes insights podem ser de grande valia para evitar também possíveis fraudes. Embora alguns dos tópicos tratados possam aparecer por motivos inocentes, é necessário investigar antes de conceder um “sinal verde” para a companhia estudada.

Nesta parte, tratarei de dois dos seis sinais. Amanhã, abordarei o restante deles.

Fluxo de Caixa em Queda

Apesar das manobras da contabilidade, observar o fluxo de caixa é uma tarefa bem simples que deve sempre ser feita. Ao longo do tempo, o aumento do fluxo de caixa das operações deve acompanhar, geralmente, incrementos no lucro líquido.

Se for observado que o fluxo de caixa operacional está decrescendo mesmo com o lucro líquido aumentando, ou se o primeiro aumenta num ritmo muito menor que o segundo, é preciso tomar cuidado. Isso pode significar que a companhia está realizando vendas sem coletar o dinheiro.

Neste sentido, podemos observar o histórico da empresa americana Lucent, entre 1997 e 1999. No período citado, o lucro líquido da companhia escalou de US$ 449 milhões para US$ 1 bilhão, e para quase US$ 3,5 bilhões. Mas, ao mesmo tempo, o fluxo de caixa operacional caiu de US$ 2,1 bilhões para US$ 1,9 bilhões, e para US$ 276 milhões negativos.

Isso aconteceu porque a companhia estava vendendo no crédito para qualquer um que desejasse. Assim, as contas a receber atingiram 27% das vendas de 1999. Trata-se de um sinal de que a empresa estava com dificuldades de receber o dinheiro de suas vendas.

Além disso, a companhia continuou fabricando seus produtos em um ritmo maior do que ela conseguia enviá-los para seus clientes, gerando um acúmulo de estoque. Este acúmulo não é de graça. Pense que você precisa pagar galpões maiores para guardar um estoque maior.

Simultaneamente, o plano de pensão da companhia estava inflando o lucro líquido com ganhos não-caixa.

Portanto, esteja sempre atento aos fluxos de caixa, não apenas ao lucro líquido.

Reconhecimento de custos não recorrentes

Algumas empresas utilizam este mecanismo com frequência. Elas o fazem por meio do reconhecimento de alguns custos de reestruturação, ou pela redução do valor contábil de alguns ativos (write-down).

Esta prática acaba mascarando os históricos financeiros, uma vez que junta diversos componentes que afetam várias linhas da contabilidade. Estas linhas, por sua vez, devem ser ajustadas pelo analista, para criar uma base de comparação entre outros períodos. No entanto, em muitos casos, “limpar” as informações é difícil, prejudicando a análise.

Além disso, com este mecanismo, é possível esconder algumas decisões ruins da gestão, sendo possível reconhecer algumas despesas futuras no cenário presente, o que acaba melhorando – de forma mascarada – a contabilidade do próximo período.

Portanto, quando observar que uma companhia apresenta custos frequentes de reestruturação, não os ignore.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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