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Recompra de ações: o que é e como funciona?

By 30 de agosto de 2017 No Comments

Recentemente publicamos um artigo no qual explicávamos o conceito de um indicador financeiro pouco difundido no Brasil chamado Shareholders Yield.

Na ocasião, comentamos que, dentre as quatro varáveis para o cálculo do indicador, uma delas tratava-se do valor total da recompra de ações da empresa no período de doze meses.

Desta forma, abordaremos nesse artigo algumas questões voltadas à pratica de recompra de ações das empresas no Brasil a fim de contribuir para o esclarecimento da questão.

Em que consiste a recompra de ações?

Essa prática pode ser definida como um método em a empresa procura atuar diretamente no mercado de capitais recomprando suas próprias ações, a fim de custodiá-las em sua tesouraria, ou até mesmo vir a cancelá-las posteriormente.

Assim sendo, entende-se que, ao se fazer uma movimentação econômica nesse sentido, a própria companhia enxerga que o seu preço de mercado naquele instante se encontra abaixo do seu real valor intrínseco que ela entende ser o factível naquele momento.

É coerente, portanto, que os investidores percebam esse tipo de movimentação como uma demonstração de que a companhia está de fato comprometida com seu desempenho e acreditando num cenário futuro de valorização de sua performance.

A recompra é, portanto, uma forte sinalização por parte da empresa sobre o potencial de suas ações.

É importante destacar, contudo, que nem sempre um processo de recompra é feito para sinalizar ao mercado que a companhia se encontra num valuation abaixo do que acredita ser o justo.

Isto ocorre por que é comum também, por exemplo, as empresas recomprarem parte de suas ações no mercado para realizar de programas de stock options com seus executivos utilizando ações já existentes, ou seja, sem a necessidade de se emitirem novos papéis.

Desta forma, pode-se entender que um processo dessa natureza é uma maneira eficiente das empresas utilizarem o seu capital de maneira inteligente para obterem um retorno satisfatório – com a valorização desses papéis no médio/longo prazo – e também demonstrar aos seus acionistas que utiliza de maneira adequada o capital que detém em seu caixa.

Consequências da recompra de ações

Ao utilizar deste mecanismo, a companhia gera uma redução de suas disponibilidades financeiras com a redução do caixa que foi utilizado para a recompra das ações.

Por outro lado, alguns indicadores como o lucro por ação (LPA) e outras métricas apresentam melhorias de desempenho quando comparados ao período anterior ao da recompra.

Assim sendo, considerando-se que uma empresa pague a mesma quantidade de proventos aos acionistas anualmente, e o número total de suas ações no mercado venham a diminuir, cada acionista, consequentemente receberá um dividendo anual maior por cada ação que possuir em sua carteira.

Portanto, um processo de recompra de ações demonstra ao mercado que a companhia acredita que suas ações estejam naquele momento subvalorizadas, além de ser um método eficiente de valorizar o patrimônio de seus acionistas, ao mesmo tempo em que a empresa deixa transparecer ao mercado que o negócio apresenta, naquele momento, um caixa sólido e saudável.

Em contrapartida, contudo, uma movimentação nesse sentido pode transparecer para o mercado a impressão de que a companhia não teria, naquele momento, outras oportunidades lucrativas para o crescimento – como a realização de aquisições ou investimentos em outros ativos –  o que pode ser interpretado como uma incoerência para alguns investidores.

Porém isso depende muito, é claro, do setor da empresa, visto que existem áreas de atuação que não demandam um investimento significativo em seus ativos para que haja crescimento em seu desempenho.

Exemplos práticos

A construtora e incorporadora Eztec (EZTC3) é uma empresa que possui um caso bem-sucedido de processo de recompra de ações realizado na década passada.

A Eztec comprou, no ano de 2008, um total de 3.441.588 a um preço médio de R$ 3,10 por ação, desembolsando, com isso, uma quantia de pouco mais de R$ 10,5 milhões

Três anos depois, em abril de 2011, a companhia vendeu essa mesma quantidade de ações a um preço médio de R$14,31, o que totalizou um montante de R$ 49,1 milhões.

Com isso, a construtora obteve, como resultado da operação de recompra de ações, um ganho de R$38,6 milhões.

Essa operação foi descrita pela Eztec, na ocasião, por meio de um Comunicado ao Mercado que segue abaixo:

EZTC3

Recentemente, mais precisamente no dia 21 deste mês, por meio de um fato relevante, a Qualicorp, empresa que atua na administração de planos de saúde coletivos no Brasil, também anunciou um programa de recompra de suas ações.

Tal comunicado foi, inclusive, mencionado e comentado em nosso Morning Call Premium na ocasião, conforme retrata o trecho abaixo.

Qualicorp QUAL3

Conclusão

Certamente os investidores que se atentaram ao movimento de recompra de ações da Eztec, em 2008, obtiveram retornos expressivos em seus investimentos decorrentes daquela observação.

Por isso, é sempre importante para o investidor estar atento a movimentações desse tipo das empresas, pois assim, certamente poderão ser percebidos certos “detalhes” que a maioria certamente deixará passar, podendo o investidor, com isso, obter vantagens e se posicionar a frente do mercado em suas aplicações.

Cabe ressaltar que “sinais” dessa natureza estão sempre acontecendo no mercado – como no caso da Qualicorp citado acima – cabe ao investidor analisa-las para compreender se fazem sentido ou não naquele momento.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.