Por: Tiago Reis

Radar do Mercado: Grendene (GRND3) – Resultado abaixo do esperado pode propiciar uma maior margem de segurança para o papel

A Grendene divulgou ontem (14) ao mercado o seu resultado do 4T18 e 2018 e, de acordo com a companhia, os acontecimentos do ano foram piores que as suas expectativas iniciais do ano, e diferentemente do que a Grendene esperava, o consumo não apresentou recuperação durante o ano apesar de os juros terem sido mantidos bastante baixos.

Isto posto, vale ressaltar aqui a receita líquida da companhia atingiu, no 4T18, R$ 742,4 milhões ante R$ 705,4 no mesmo período de 2017, o que representou uma variação positiva de 5,2%. Já no acumulado do ano, a companhia obteve uma receita líquida de R$ 2.333,4 milhões, um aumento de 3,6% frente aos R$ 2.252,0 milhões observados em 2017.

É importante destacar que o negócio da Grendene é de baixa intensidade de capital. Assim, a empresa regularmente investe um valor equivalente à depreciação para manter sua capacidade de produção atualizada.

Adicionalmente a empresa mantém caixa líquido positivo e não tem encargos financeiros que devem ser pagos com recursos originados da operação.

Desta forma entendemos que a análise do EBIT (Earnings Before Interests and Taxes – lucro operacional antes dos efeitos financeiros) faz mais sentido para a gestão operacional da companhia.

Em outras palavras, a companhia, por possuir uma grande posição de caixa que gera receitas financeiras expressivas, o lucro operacional de sua atividade caracterizado pelo Ebit é um melhor indicador de sua performance operacional.

Dito isso, ressalta-se aqui que o Ebit da Grendene no 4T18 foi de R$ 177.948 milhões, uma redução de 5,0% frente aos R$ 187.232 milhões observados no mesmo período do ano passado. No acumulado do ano, o número foi de R$ 456.963 milhões, variação negativa de 1,9% frente a 2017, quanto esse resultado foi de R$ 465.590 milhões.

Adicionalmente, em 2018 o resultado financeiro líquido foi positivo em R$158,9 milhões, mas R$79,6 milhões menor que o resultado financeiro obtido em 2017 conforme demonstrado no quadro a seguir:

Importante lembrar que a queda de juros (TMS) entre 2017 e 2018 foi de 35,6% (de 10,1% a.a. para 6,5% a.a.).

Diante disso, o lucro líquido no 4T18 ficou praticamente estável em relação ao 4T17. A queda de cerca de R$9,3 milhões no Ebit, provocada principalmente pela elevação das despesas de publicidade no período, foi compensada pela elevação de R$10,7 milhões no resultado financeiro.

Adicionalmente, em 2018, o caixa gerado nas atividades operacionais de R$483,8 milhões foi destinado para: investimentos em imobilizados e intangíveis no valor de R$72,2 milhões, aplicações financeiras no valor líquido de R$75,6 milhões, dividendos e JCP no valor total de R$321,3 milhões e no resultado líquido negativo de R$29,1 milhões na venda de ações em tesouraria pelo exercício dos detentores de opções de compra outorgadas pela empresa.

No mesmo período a companhia captou empréstimos no valor líquido de R$0,8 milhão, o que resultou na redução de R$13,6 milhões do valor mantido em conta corrente e aplicações financeiras de curtíssimo prazo.

Ainda ontem, a companhia também informou ao mercado que o seu Conselho de Administração, em reunião realizada na mesma data, a distribuição do saldo de dividendos do exercício findo em 31/12/2018, no montante bruto de R$143.434.184,62, que serão pagos aos acionistas a partir de 08/05/2019.

Além disso, a companhia anunciou também a distribuição, de forma de dividendo complementar, do valor de R$13.434.184,62 como saldo de dividendo do exercício de 2018, correspondendo ao valor de R$0,0149 por ação (excluídas as ações em tesouraria), sem remuneração ou atualização monetária e não haverá retenção de Imposto de Renda.

Farão jus ao recebimento dos juros sobre o capital próprio e dividendos complementares, os acionistas titulares de ações ordinárias (GRND3) inscritos nos registros da Companhia em 23/04/2019 (data do corte). Desta forma, as ações GRND3 passarão a ser negociadas ex-dividendo e ex-JCP a partir de 24/04/2019, na B3 S.A. – Brasil, Bolsa, Balcão (B3).

Esta distribuição de JCP e dividendo complementar (R$143.434.184,62), somada ao montante de R$171.642.046,10, pagos antecipadamente em 2018, totalizam um montante bruto de R$315.076.230,72, relativos ao exercício social de 2018.

Por fim, a companhia informou, ainda, que o seu Conselho de Administração também aprovou, ainda ontem, a proposta apresentada pela Diretoria de descontinuar a divulgação de metas, projeções e estimativas sobre desempenho futuro (guidance), em razão da administração entender que esta prática deixou de agregar valor para a companhia, para seus investidores e o mercado em geral.

A Grendene informou ainda que adotou inicialmente esta prática ao ingressar no Novo Mercado da B3, pois sua administração entendia que o setor onde atua era pouco conhecido e acompanhado pelos investidores e mercado em geral.

“A administração da companhia entende que dada a contínua modernização do seu sistema de prestação de contas ao mercado, e após 14 anos divulgando seus resultados, esta prática (guidance) deixa de ser necessária”, ressaltou a companhia.

No mais, avaliamos que os resultados da Grendene, muito por conta de terem se mostrado abaixo das expectativas, possam contribuir para que um cenário de queda nos preços das suas ações possa vir a surgir, o que se traduz em boas oportunidades de entrada a preços descontados e com margens de segurança satisfatórias para os investidores de valor focados no longo prazo.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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