A Eternit informou aos seus acionistas e ao mercado em geral que apresentou, no último dia 02, o seu Plano de Recuperação Judicial, no âmbito do referido processo da companhia e de sociedades sob seu controle que integram o polo ativo da recuperação, que tramita perante a 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca de São Paulo/SP.

O Plano de Recuperação Judicial estabelece os termos e condições para a reestruturação das dívidas concursais do Grupo Eternit e se encontra disponível, na íntegra, no website de Relações com Investidores da companhia e nos autos do referenciado processo.

“A companhia manterá os seus acionistas e o mercado em geral informados, na forma e nos prazos estabelecidos pela legislação aplicável, sobre o desenvolvimento dos assuntos objeto deste Fato Relevante e demais eventos relevantes relacionados ao andamento do processo de recuperação judicial”, ressaltou a Eternit em seu comunicado.

 

É bastante visível e compreensível a atual situação desafiadora na qual se encontra a Eternit nesse momento.

Além de estar enfrentando, na Justiça, questões bastante desconfortáveis em relação à muitas matérias primas de sua cadeia de produção, além de processos trabalhistas que envolvem cifras milionárias envolvendo ex-colaboradores, o fato divulgado sobre a apresentação formal do seu processo de recuperação judicial – apesar de já esperado – parece pôr fim a uma novela que se iniciou a aproximadamente quatro anos.

Isso pode ser melhor destacado pelo fato de que a Eternit ser hoje uma companhia que já foi bastante lucrativa e que distribuía generosos dividendos a seus acionistas num passado não muito distante, mas que tomou algumas decisões de gestão que enxergamos que foram “precipitadas” em determinados momentos de sua história e que mudaram em muito os seus caminhos, principalmente a partir do ano de 2014.

Na época, a empresa investiu grande parte de seu capital em três projetos de rentabilidade questionáveis: a aquisição da Tégula, uma fábrica de louças sanitárias no Nordeste e uma unidade em Manaus.

Entendemos que, na ocasião, mudanças na gestão da empresa deveriam ter sido feitas, porém não aconteceram, e com o tempo, a pressão financeira sob a empresa cresceu.

Aliado a tais decisões de investimentos de rentabilidade futura que julgamos terem sido questionáveis, na época, a companhia ainda deliberava benefícios crescentes aos diretores, o que, consequentemente, prejudicou em muito os seus acionistas.

Dessa forma, a forte queda do preço de suas ações (ETER3) – cotadas hoje a R$ 0,52 – evidencia grande parte da perda de confiança do mercado na capacidade de gestão da companhia, exemplificando muito bem que quando decisões equivocadas são tomadas, todos perdem, principalmente o próprio empreendimento e seus acionistas.

Aliado a toda essa conjuntura, o pedido de Recuperação Judicial e os ajustes administrativos já realizados e ainda em processo de implementação se deveram, também, a persistente deterioração dos fundamentos da economia, que afetaram drasticamente os setores de construção civil e louças sanitárias, justamente os mercados atendidos pelo Grupo Eternit, as discussões legais acerca da extração, industrialização, utilização, comercialização, transporte e exportação do amianto, que vêm impactando as operações do grupo e limitando o acesso da companhia à concessão de novas linhas de crédito; e a queda na demanda e nos preços do amianto, nos mercados nacional e internacional, reduzindo a rentabilidade.

Dessa maneira, como é possível perceber nos seus dados do passado, nos últimos anos a empresa amargou prejuízos, perda de valor de mercado e processos na Justiça.

Somou-se a isso a decisão tomada no fim do ano passado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de proibir a substância que sempre foi a matéria-prima de suas telhas: o amianto. A Eternit é líder da fabricação de telhas no país e uma das maiores exportadoras de amianto do mundo.

Um dia antes da decisão do STF, a empresa já havia anunciado o objetivo de substituir o amianto totalmente até o fim deste ano. Para isso, a Eternit colocou sua fábrica de polipropileno — substância alternativa ao amianto — em Manaus para operar a 100%.

Juntam-se a estes problemas os processos na justiça, haja vista que a Eternit responde a casos de danos morais de trabalhadores que foram vítimas da contaminação com o amianto.

Atualmente há quatro ações públicas ajuizadas contra a companhia e três inquéritos civis. O caso mais grave para a empresa foi o de uma ação pública da cidade de Bom Jesus da Serra, na Bahia.

No caso, julgado em agosto do ano passado, a Justiça Federal condenou a subsidiária Sama a pagar 500 milhões de reais por danos. O valor da condenação é maior até mesmo que o valor de mercado da companhia. A Eternit está recorrendo da decisão.

Com isso, para aqueles que não são acionistas da Eternit, sugerimos que permaneçam de fora do negócio, visto que, hoje, entendemos ser um investimento com um risco bastante elevado e, por conta disso, entendemos não haver motivo algum para indicarmos a participação na companhia.

Continuaremos a esperar de fora o desencadeamento dos fatos que, nesse momento, se mostram completamente fora de viabilidade no que diz respeito à um investimento de longo prazo.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.