A Duratex comunicou ontem (02) aos seus acionistas e ao mercado em geral que, na mesma data, a Suzano Papel e Celulose exerceu a opção de compra de cerca de 20.000 hectares de áreas rurais e os ativos florestais ali existentes, pelo valor de R$ 749,4 milhões, ajustado nos termos daquele contrato firmado entre as partes em meados de fevereiro.

Segundo o reforçado pela companhia, essa transação já foi aprovada pelos órgãos reguladores competentes, de modo que o fechamento da operação deverá ocorrer no curto prazo.

“A alienação de terras e florestas acelera o processo de desalavancagem financeira da Duratex, como consequência da redução significativa do nível de endividamento, em linha com a estratégia de melhorar a rentabilidade das operações da companhia”, ressaltou a Duratex em seu comunicado.

 

No que tange tal comunicado, é válido destacar que a referida operação diz respeito a celebração de um contrato de compra e venda de ativos florestais, de compromisso de compra e venda de imóveis rurais, de opção de compra e outras avenças entre a Duratex e a Suzano, que foi firmado no início de fevereiro desse ano.

Na ocasião, a Suzano assinou um acordo de compra com a Duratex para adquirir 9.500 hectares de áreas rurais e 1.200.000 m³ de florestas – que refletiu o potencial de produção das florestas existentes e já implantadas nas áreas adquiridas – na região central do estado de São Paulo, pelo preço de R$ 308,1 milhões.

Além disso, a Suzano também informou, na época, que adquiriu ainda a referida opção de compra de cerca de 20 mil) hectares de áreas rurais nessa mesma região e 5.600.000 m³ de florestas pelo preço de R$ 749,4 milhões, opção esta que, segundo o reportado na ocasião, poderia ser exercida a exclusivo critério da Suzano até 02 de julho de 2018.

Nesse sentido, é possível perceber que o exercício da referida opção ocorreu, de fato, no limite do prazo estabelecido entre as partes.

Para a Duratex, a companhia deverá reconhecer um lucro líquido extraordinário da ordem de R$ 360 milhões decorrente dessa alienação de ativos.

Mesmo com essa relevante alienação, contudo, a Duratex informou que mantém terras e florestas suficientes para a continuidade do abastecimento de suas operações sem impacto em seus custos operacionais.

Ainda em relação a Duratex, entendemos que a companhia depende muito da performance do setor de construção civil que, como se sabe, vem apresentando certa dificuldade com o cenário político e econômico brasileiro dos últimos anos, apesar de um gradual princípio de recuperação ter sido observado ao final do ano de 2017.

É claro que, com a melhoria da conjuntura como um todo, que segue num caminho de retomada, esse setor de atuação tende, também, a acompanhar o otimismo do mercado.

Porém, como os produtos da Duratex são geralmente utilizados na fase final de acabamento das obras, entendemos que deva demorar um certo tempo a mais para que esse segmento, de fato, volte a se consolidar na economia.

Entretanto, é inegável que a companhia segue realizando esforços consideráveis no que tange a diversificação de suas operações e, nesse sentido, a pouco menos de duas semanas a companhia comunicou ao mercado que celebrou com a Lenzing AG, grupo austríaco líder mundial na produção de fibras de celulose, um acordo com a definição de termos e condições para formação de uma joint venture (nova companhia), para construção de uma fábrica para produção e comercialização de celulose solúvel, após decisão final das partes envolvidas.

Sobre tal acordo, é interessante destacar que a Lenzing é um grupo internacional com sede na cidade que carrega o mesmo nome da companhia, na Áustria, e locais de produção em todos os principais mercados.

A Lenzing produz fibras de celulose à base de madeira, fibras modais e filamentos, utilizadas na indústria têxtil – no vestuário, nos têxteis-lar e nos têxteis técnicos – e na indústria dos não-tecidos. Além disso, a empresa atua na engenharia mecânica e de instalações. Algumas marcas de produtos da Lenzing são TENCEL, VEOCEL e LENZING.

Em relação à criação da joint venture entre as partes, que irá operar a fábrica e a floresta, a mesma será detida pela Duratex e Lenzing, com participação acionária de 49% e 51%, respectivamente. Assim sendo, os resultados da nova companhia serão reconhecidos no resultado da Duratex por equivalência patrimonial.

Além de estabelecer a governança da joint venture, o acordo também garante a venda da totalidade da produção de celulose solúvel para a Lenzing, em condições de mercado.

Ainda, a nova companhia terá como atividade a produção e comercialização de celulose solúvel do tipo viscose, com localização estratégica no estado de Minas Gerais, na região do Triângulo Mineiro, próximo a São Paulo. A capacidade anual deste projeto deverá ser de 450 mil tons de celulose solúvel, com estimativa inicial de investimento para construção da joint venture de aproximadamente USD 1,0 bilhão.

Para o investimento no capital social da nova companhia, a contribuição chave da Duratex será através do aporte de ativos florestais de cerca de 43 mil hectares de efetivo plantio de eucaliptos 100% certificados pelo FSC (Forest Stewardship Council) que possui na região, completando com aporte financeiro.

Para compor o montante total do investimento, a joint venture buscará recursos através de financiamento de terceiros, visando otimizar sua estrutura de capital.

Contudo, é importante mencionar que tal acordo não afetará a capacidade de fornecimento de madeira própria da Duratex para suas unidades de produção de painéis, segundo destacou a própria companhia, na ocasião. Esta área florestal foi conduzida especificamente para suportar projeto de expansão de painéis de madeira anteriormente previsto e que não será desenvolvido.

Com esta associação, é factível entender que a Duratex irá otimizar a utilização de seus ativos florestais atualmente excedentes, alavancando a rentabilidade das operações recorrentes.

Neste sentido, a própria Duratex destacou que “essa operação pretende diversificar os riscos da companhia, ampliando seu leque de atuação para o mercado de celulose, que possui menor exposição ao nível de atividade do mercado doméstico”.

Entendemos, com isso, que além da importância para o crescimento da companhia no longo prazo, o projeto representa um passo decisivo no processo de transformação do negócio florestal.

É interessante lembrar, ainda, que a Itaúsa detém participação relevante na composição acionária da companhia, possuindo 40% de participação no negócio da Duratex.

Dessa forma, os acionistas da Itaúsa indiretamente também possuem uma fatia da Duratex no seu portfólio através dessa holding que, diga-se de passagem, possui uma equipe de gestão muito competente e que entendemos que possa vir a fazer um trabalho a médio-longo prazo interessante na Duratex, no que diz respeito à sua performance e geração de valor para seus acionistas.

Assim sendo, entendemos que se associar diretamente no empreendimento nesse momento através da compra de seu papel DTEX3 não seria uma decisão segura e sólida a se tomar nesse momento, por conta disso, achamos mais prudente seguir de fora da Duratex.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.