Por: Tiago Reis

Radar do Mercado: Cielo (CIEL3) – Números de janeiro demonstram reaquecimento econômico

Segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), a receita de vendas do comércio varejista brasileiro apresentou uma alta de 1,3% em janeiro de 2018 em comparação com o mesmo período do ano passado após descontada a inflação aplicada aos setores do varejo ampliado.

Em termos nominais, que reflete o que o varejista de fato observa na receita das suas vendas, o indicador reforça a retomada: alta de 2,6% em janeiro na comparação com o ano anterior.

“Se observarmos o desempenho do varejo nos últimos meses, notamos de fato uma trajetória de recuperação do ritmo de crescimento”, afirma Gabriel Mariotto, diretor de Inteligência da Cielo.

Vale destacar ainda que o desempenho total do mês foi prejudicado pelo calendário, principalmente pelo feriado de confraternização universal caindo em uma segunda-feira, enquanto que em 2017 o dia 1º de janeiro foi no domingo – tradicionalmente o dia da semana de menor movimento do varejo.

 

A Cielo é, sem dúvidas, uma empresa que já apresentou e ainda apresenta sólidos resultados ao longo de sua história e esses fatores reforçam a nossa opinião de que a sua gestão é bastante competente e eficiente no que se propõe a fazer, principalmente no que diz respeito à geração de valor para seus acionistas.

Ainda, o fato ICVA levantado pela companhia demonstrar um visível reaquecimento da economia – principalmente no varejo, o ponto chave de atuação da Cielo – demonstra que, possivelmente, um horizonte de melhorias operacionais pode se concretizar para a empresa no médio prazo.

Ainda, o fato da companhia pertencer ao segmento do Novo Mercado – mais elevado padrão de governança corporativa da bolsa de valores – reforça também um compromisso de transparência frente ao acionista minoritário, o que não deixa de ser, em nossa visão, uma questão que contribui para a operação de negócios da companhia, no que diz respeito a seu modelo de governança corporativa.

O que nos preocupa, contudo, é a dúvida em relação ao futuro, não da companhia em si, mas do seu mercado de atuação.

Casos de empresas ainda menores e que oferecem os mesmos serviços prestados pela Cielo, porém a preços muito menores, são cada vez mais frequentes de serem observados.

Isso não significa que, de fato, a Cielo venha a perder os seus clientes, mas, sem dúvida, nesse cenário, forçosamente as suas margens tendem a serem muito reduzidas.

Esse é um tipo de situação que conseguimos visualizar, também, no setor de varejo, porém numa circunstância diferente, isto por que, nesse caso, a maior ameaça não se faz pelas empresas menores, mas sim pela gigante do setor – a Amazon – que quebrou todos os paradigmas e vem revolucionando a maneira de atender e otimizar a experiência de seus clientes onde atua.

São situações diferentes, mas que demonstram uma realidade já bastante consolidada.

Os setores e as empresas estão mudando muito rápido e, nessa conjuntura, se adaptar é uma extrema necessidade.

Esse é um comportamento que a Cielo precisa desenvolver o quanto antes, caso contrário, a tendência é que suas margens se tornem cada vez menores e, com isso, seus resultados operacionais tendam a continuar a seguir com sua trajetória de declínio.

Neste sentido, vale ressaltar que, ao se observar a “fotografia” da empresa, pode-se perceber que ela já foi, sem dúvidas, uma das campeãs no Brasil, quando o assunto é margem líquida e rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE).

Porém, ao se observar o “filme” da Cielo, observa-se uma deterioração que ainda não foi cessada, muito por conta, como já mencionado anteriormente, da grande concorrência que chega de maneira bastante agressiva a este segmento.

No que diz respeito a seus resultados do quarto trimestre do ano passado, a companhia demonstrou um Ebitda de R$1,37 bilhão, 1,3% inferior ao 4T16 e aumento de 6,2% em relação ao 3T17, com margem Ebitda de 45,4%, representando um crescimento de 0,6 ponto percentual em comparação com o 4T16 e de 1,1 ponto percentual em comparação ao 3T17.

Ainda sobre seus números trimestrais, o seu lucro líquido totalizou R$1.110,4 milhões no trimestre, superior em 2,9% quando comparado ao mesmo período de 2016 e 2,4% em relação ao 3T17, porém, tudo indica que esses aumentos tendam a se tornarem cada vez mais apertados no decorrer do tempo, caso a companhia não apresente fortes vantagens competitivas ao mercado no curto prazo.

Diante de toda essa conjuntura, entendemos que a Cielo é uma companhia que acreditamos que possa vir a ser insustentável no médio/longo prazo, por isso, preferimos ficar de fora do case.

Ainda, temos pouca visibilidade sobre a rentabilidade futura do negócio da companhia e, por isso, não indicamos participação no empreendimento neste momento.

Sabemos que existem muitas divergências a respeito dessa companhia, e que muitos investidores analisam a Cielo de maneira incompatível com a nossa.

Porém, é preciso sempre lembrar que carregamos a enorme responsabilidade de carregamos conosco a confiança depositada em nossas indicações por parte de nossos assinantes – o que, sem dúvidas, zelamos com bastante compromisso e respeito – e, por conta disso, não nos sentimos no direito de indicar um ativo sobre o qual não enxergamos com clareza como serão os seus próximos anos no que diz respeito à sua geração de valor operacional.

Entendemos e respeitamos, como sempre, a opinião de investidores que pensam diferente de nós em relação à Cielo ou a qualquer outro ativo, contudo, pelo peso do compromisso que temos perante nossos assinantes, achamos mais prudente seguir de fora da companhia nesse momento.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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