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Quem foi John Templeton?

By 12 de setembro de 2017 No Comments

Nascido em 1912, em uma comunidade de 2 mil habitantes no Tenessee, Templenton foi um homem muito influenciado pelo sentido de decência e fé que pode ser encontrado nas pequenas cidades do interior.

Templenton viveu uma infância relativamente tranquila, porém, no período da grande depressão, seus pais não tinham mais dinheiro para sustentar o jovem Templenton e a família se viu em uma situação financeiramente delicada. No entanto, toda essa situação somente forjou aquilo que mais fez parte na sua vida no decorrer dos anos, que foi o trabalho duro e a poupança.

Templenton levava a sério a filosofia de sempre que possível economizar dinheiro. Quando se casou, ele mobiliou sua casa de 5 quartos somente com 25 dólares comprando móveis em leilões e lojas de usados. Também era comum vê-lo esquadrinhando a cidade de Nova York atrás de almoços que custavam não mais do que 50 centavos.

Outro fator inegociável por Templenton era sua disposição por tomar dívidas. Quando adolescente, viu muitos fazendeiros perderem suas terras por causa das dívidas que tinham assumido. Esse fato consolidou sua estratégia de nunca usar termo na suas caças por barganhas, seguia o principio de pagar tudo a vista. Essa estratégia pode até diminuir alguns pontos percentuais no desempenho do investidor, mas com certeza, retira um grande risco de perdas permanentes de capital.

John Templenton foi um dos maiores expoentes da filosofia Value Investing desde a sua concepção em meados do século XX. Durante sete décadas, ele procurou barganhas em todo o mundo. Enquanto a maioria dos seus pares caçavam barganhas em seus próprios territórios, Templenton procurava papéis que estivessem vendendo a cerca de três vezes seu rendimento no desdenhosamente mercado japonês na década de 50.

Sua abordagem com foco global tem uma vantagem básica: a capacidade de ter valorizações enquanto seu mercado nacional esteja em patamares negativos. Como um exemplo prático, tivemos os seis anos entre 1968-74, onde muitos fundos perderam metade dos ativos de seus clientes por focarem somente em ações norte-americanas, enquanto o fundo internacional de Templenton estava crescendo. Desde a sua fundação até a sua aposentadoria, o Templenton Growth Fund, obteve um rendimento anual composto de 14,5%. Da mesma forma, se o investidor tivesse aplicado em um fundo que seguisse a média das empresas dos EUA, esse mesmo retorno seria de 10,85%.

Como alguns dos melhores aforismos criados pelo Templeton, para guiar investidores, temos aqui alguns exemplos:

Mercados em alta nascem do pessimismo, crescem no ceticismo, maduram no otimismo e morrem na euforia”.

 “O momento de máximo pessimismo é o melhor para comprar, e o momento de máximo otimismo é o melhor para vender”.

Um exemplo de uma estratégia muito bem pensada, tomada com frieza e com um foco mais distante dos eventos macroeconômicos foi o investimento de Templenton no inicio da segunda guerra mundial.

Em 1 de setembro de 1939, Hitler invadiu a Polônia. Havia um medo generalizado de que os nazistas, sistematicamente, destruiriam a civilização. Os investidores correram para vender suas ações, nesse período a bolsa caiu a metade de seu valor.

Templenton nesse momento permaneceu calmo e baseou-se em sua experiência. Percebeu que os EUA seriam arrastados para a guerra, e a indústria seria chamada a fornecer os recursos para o conflito. Dessa forma, a demanda iria aumentar exatamente como tinha sido na guerra civil e na primeira guerra mundial. Bens e commodities precisariam ser transportados, portanto as ferrovias iriam se beneficiar.

Outro ponto que agregou muita vantagem no seu investimento, foi a capacidade de focar nas perspectivas de longo prazo e não ser influenciado por jornais e pessoas pessimistas. Percebeu que a indústria seria firmemente reativada, e até empresas mais deficientes teriam suas margens de lucros elevadas. Dessa forma ele procurava comprar onde o sentimento era mais negativo. Ele concluiu que se as comprasse, do jeito que estavam baratas, era pouco provável que perdesse dinheiro.

Naquele momento, ele tinha montado um plano de investimentos inteligentes, aplicando cerca de 30 mil dólares. Ele estava tão convencido da sua postura “do contra” que até pediu emprestado 10 mil dólares (a única vez que pediu emprestado nos 40 anos que se seguiram). Logo, ele deu a ordem de comprar 104 empresas que naquela época estavam a preço de “banana”.

Notem que ele foi cuidadoso ao diversificar seu risco. Quando o investidor tem uma postura de investimento mais voltada para o deep value, um pouco mais de diversificação é importante, por se tratar justamente de empresas em situações menos favoráveis. Como o foco de Templenton era o longo prazo (a posição média de um ativo em sua carteira durava cerca de 4 anos) aliando a uma diversificação responsável então ele sabia que era muito difícil perder dinheiro, e a probabilidade de ganhar era bem maior.

Em um ano, Templenton tinha ganhado o suficiente para pagar todo o dinheiro que havia pedido emprestado. As ações foram gradualmente sendo vendidas, obtendo um lucro final de cerca de 40 mil dólares. Todo esse capital adquirido se deu a capacidade de Templenton de analisar a situação e o histórico dos acontecimentos, ele sabia que em tempos de guerras, até mesmo empresas deprimidas revivem com o sopro estimulante da alta demanda.

A aventura japonesa

Nos anos 50 o Japão era uma economia destroçada pela guerra, sua economia estava de mal a pior e os investidores corriam da bolsa do Japão, pois afinal, ninguém queria ter empresas num país “perdedor de guerras”. As pessoas não podiam estar mais enganadas.

Templenton tinha estudado a filosofia e as práticas empresariais japonesas desde a década de 40. Suas observações tinham concluído que a cultura do povo japonês valorizava muito o trabalho duro e a poupança como forma de almejar uma prosperidade futura. Em média, 25% do que os japoneses ganhavam era poupados, (nos EUA, por exemplo, essa taxa era de apenas 5%) e essa poupança era encaminhada para a construção de infraestrutura e bens de capital, que não muito depois fez a economia do país “decolar”.

Quando Templenton entrou finalmente no mercado japonês, em 1968, as ações das empresas estavam sendo negociadas a cerca de 4 vezes a estimativa anual dos ganhos, enquanto as ações americanas eram negociadas à 19 vezes. Comprou tanto que o fundo gerido por Templenton já possuía cerca de 50% de ações lotadas no mercado japonês. Essa atitude gerou muitas críticas dos analistas, mas ele sabia que o verdadeiro investidor não compra um “consenso” e sim uma oportunidade.

Resultado: Um ano depois, os demais investidores começaram a notar os preços depreciados então o mercado japonês começou a subir. Naquele ano, o fundo de Templenton, que até então era pouco conhecido, ganhou notoriedade, e ficou conhecido como o fundo de melhor desempenho do mercado.

Então, como de costume, o mercado começou a se empolgar e a precificar os ativos japoneses com uma média de 30 vezes o lucro, um patamar altamente perigoso na maioria dos casos. Templenton, percebendo que os demais investidores estavam dispostos a comprar cada vez mais caro por uma participação menor nos lucros das empresas, ele decidiu se retirar do mercado japonês, poucos anos do estouro de uma das maiores bolhas da história. O mercado japonês como um todo aumentou cerca de 36 vezes entre 1960 e 1989, e o índice Nikkei até hoje se encontra em patamares menores que no auge da bolha.

Bolha das empresas .com

Em meados de 2000, Templenton novamente demonstrando sua independência da multidão iludida pela conversa de “nova era”, ao expressar sua convicção que os mercados se encontravam altamente supervalorizados.

Para seu fundo, ele começou a comprar bônus do governo dos EUA, alocando cerca de 25% do seu capital em dinheiro. Mas Templenton não parou por ai, ele tinha pensado em um plano engenhoso para explorar as ações superinflacionadas de 1999 para seu portfólio de investimentos pessoais.

Outro ponto interessante foi que ele percebeu que muitos gestores e controladores de empresas estavam vendendo suas participações nos patamares mais altos da bolha. Geralmente essas vendas em grandes quantidades podem ser um bom indício de que o time de gestores já não acredita tanto no preço e na qualidade do negócio em questão.

Nós da Suno, fornecemos esses relatórios de compra e vendas sobre o nome de Insider Spy.

Então, Templenton nesse período, vendeu a descoberto várias empresas pouco antes de o mercado eclodir, e com o lucro, entrou comprando diversas empresas que estavam a preço de barganha, auferindo um resultado no final desse período de cerca de 86 milhões de dólares.

Caso China Mobile

Em 1995, Templenton encontrou uma boa barganha no mercado chinês. A empresa China Mobile, uma gigante que detinha cerca de 68% de Market share e que tinha uma estimativa de crescimento dos lucros de cerca de 20% ao ano mas era vendido por apenas 11 vezes o lucro. Ele estimou os lucros nos próximos 10 anos analisando a força competitiva e o potencial do setor no país e viu que a adiantando esses resultados o P\L da companhia estaria em cerca de 2.

Então, entre setembro de 2004 e setembro de 2007 as ações da China Mobile subiram 656%, um resultado extraordinário, mais um para a lista de investidas bem sucedidas de Templenton.

Elementos Centrais da Sua Postura

A seguir temos o esquema dos elementos centrais dos principais fatores que Templenton analisava para realizar um negócio:

 Bases

Procurando Barganhas

Templenton costumava dizer: “Para obter uma barganha, você deve pesquisar onde a generalidade dos investidores está mais amedrontada e pessimista”.

Na sua visão, períodos de baixa devem ser bem-vindos, por que então podemos comprar participações nos lucros das empresas por muito menos dinheiro. Ele costumava manter uma “lista de desejos” de empresas bem administradas, com perspectivas brilhantes e bons gerentes, mas com altos preços. Então, quando um grande declínio do mercado ocorresse, ele poderia escolher algumas delas.

É importe ter em mente que ao adotar a postura de comprar quando o mercado declina, muitos dos seus sinais-chave ocorrem quando a economia está em ou perto de uma recessão. Ter certeza de que a empresa na sua lista de desejos têm níveis suficientes de dívida baixa  e boa geração de caixa para prosperar até numa retração.

John Templenton foi um Value Investor.

Se voce se interessa por investimentos em valor, estamos reunindo alguns dos maiores nomes do Brasil em nosso Congresso de Value Investing que será realizado em outubro

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.