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Quem é Guilherme Affonso Ferreira?

By 20 de setembro de 2017 No Comments
Guilherme Affonso Ferreira

No mercado financeiro existem nomes que se destacam e fazem jus a uma reputação admirável. Essas pessoas podem e devem ser copiadas na sua forma de pensar e agir mediante as diversas situações do mercado. Um desses nomes, com certeza, é o do Guilherme Affonso Ferreira.

Quem é Guilherme Affonso Ferreira?

É um dos principais investidores da bolsa brasileira. Foi membro do conselho de administração e acionista relevante do Unibanco, entre os anos de 1984 a 2008, período que obteve um rendimento anual composto em dólar de cerca de 70%.

Estudou engenharia de produção na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Logo depois passou um ano fazendo estágios pelo mundo, a maioria deles em revendedores Cartepillar. Nesse período passou em países como a França, Suécia, Alemanha, Austrália e EUA.

Seu pai, um homem que acreditava muito no trabalho duro, passou muitos anos sendo revendedor da Cartepillar, uma fabricante de máquinas, motores e veículos pesados. Ele acreditava muito na função social do capital, como uma forma de manter empregos e contratar mais pessoas com o reinvestimento dos lucros. Enfim, era um homem que não acreditava no lucro puramente financeiro. No entanto, o destino sempre nos prega peças e está sempre mostrando novas oportunidades para nos desenvolvermos profissional e pessoalmente.

A historia da família de Guilherme esteve muito ligada a indústria de revendas da Cartepillar. Um negócio que, em especial no Brasil, era muito pulverizado, enquanto na maioria dos países existiam apenas um ou dois revendedores.

Então vislumbrando um processo de consolidação, seu pai, decidiu entrar no setor. Ele sempre dizia a seus filhos que deveriam estar preparados para uma possível compra de um concorrente.

Porém a realidade não poderia ser mais irônica. À medida que os negócios iam bem para a família e eles tinham caixa suficiente para comprar concorrentes, seus pares não aceitavam serem vendidos, na realidade eles nem precisavam, pois o setor como um todo estava caminhando muito bem. Da mesma forma quando a situação piorava, e ninguém tinha geração de caixa para realizar aquisições de concorrentes.

Era um dilema aparentemente difícil de resolver. No entanto, Guilherme Affonso Ferreira teve a seguinte ideia: Com as sobras de capital, por que não começamos a fazer investimentos em negócios com ciclos totalmente diferentes do nosso negócio principal. Assim, quando a empresa da família estivesse mal, e por consequência, o dos outros revendedores Caterpillar, eles teriam a chance de comprar alguém com o dinheiro do novo negócio lucrativo. E assim aconteceu, deu muito certo desde então, o dinheiro da família vem sendo gerido através do fundo Teorema, na qual, Guilherme é o administrador.

No video abaixo você pode conferir um bate papo que tivemos com esse investidor.

 

Caso Unibanco

O caso do investimento no Unibanco foi emblemático na vida de Guilherme de Affonso Ferreira. Seu modo simples e racional de pensar, fez com que ele obtivesse um lucro espetacular naquele papel durante décadas.

O caso começou em 1986 com o lançamento do mal-sucedido Plano Cruzado. Houve congelamento de preços e redução drástica na taxa de juros. Os bancos, que antes recebiam em média 30% de juros ao mês devido a inflação, naquela época passariam a receber uma taxa praticamente zero, pelo crédito.

Tudo isso fez com que os muitos investidores fugissem do setor bancário como um todo, fazendo desabar as cotações das ações do setor. No entanto, toda essa reação emotiva não afetou o Guilherme, que naquela época tinha afirmado: “Nunca vi um país sem banco e, portanto, mesmo sem saber como eles vão resolver essa questão, alguns bancos vão sobreviver”.

Estudando a fundo o setor, Guilherme, então a procura de um banco para investir, ele encontra uma companhia promissora, que em sua opinião, era o banco médio mais bem gerido do país, o Unibanco.

Esse investimento não poderia ter sido mais acertado. A ação do Unibanco valorizou cerca de 70% ao ano em dólares, por pouco mais de 20 anos, quando teve que vender após o anuncio da fusão do banco com o Itaú.

Para se ter uma idéia do tamanho da pechincha a que estava sendo negociada a ação do Unibanco na época da sua compra, a companhia estava pagando cerca de 20% de dividend yeld, um valor extremamente elevado.

Outro ponto a favor do banco e que foi fundamental para que o aporte na companhia fosse acertado, com certeza foi seu Management. O Unibanco tinha uma das melhores gestões do setor e uma família controladora com princípios de governança e experiência na gestão do dia-a-dia do banco, que poucos pares tinham na época.

O único ponto fraco do Unibanco era realmente sua escala, que ficava abaixo dos grandes players como Bradesco, Itaú e Banco do Brasil. Existe até uma frase de um conselheiro do Unibanco, Pedro Bodin, na qual ele fala sobre a escala: “Se eu tivesse no Itaú, eu estaria tranqüilo, pois numa turbulência, com certeza, as águas correm para lá”.

Então, o que se sucedeu depois disso foi a confirmação da citação anterior, com a passagem da crise de 2008, o Unibanco resolveu unir forças com o Itaú, formando o maior banco da America latina, o Itaú Unibanco Holding. 

Lista de Desejos

Em geral, quando o Guilherme vai fazer um investimento, ele elabora algo como uma lista de desejos. Essa lista seria o detalhamento sobre o que gostaria que a empresa fizesse e o que poderia aumentar seu valor de mercado.

Essa lista, obviamente não é padronizada e tem que ser adaptada caso a caso. Quanto menos tópicos são necessários para fazer essa lista, mais a empresa se encontra no seu preço justo.

Nessas listas, Guilherme, obviamente exclui empresas problemáticas. Ele não acredita em grandes tacadas no mercado, acha que é mais provável que o investidor venha a perder dinheiro, com as ditas “oportunidades únicas” de investimento.

Em suas empreitadas nos conselhos de administração das empresas, Guilherme não costuma ficar parado. Ele quer sempre apresentar uma melhoria e “fazer valer” sua voz ali dentro do corpo de gestores da companhia.

Um caso emblemático nesse sentido foi o seu investimento na Eternit.

No final dos anos 90, Guilherme, juntamente com o pessoal do fundo de investimentos da Dynamo, descobriram que o caso Eternit estava superdimensionado pelo mercado, e que a companhia estaria sendo vendida por muito menos do que ela poderia entregar em resultados futuros. Naquela época, seu principal acionista, a empresa Saint-Gobain estava se desfazendo das ações da Eternit.

À medida que o controlador se desfazia de suas ações no mercado, outros investidores foram montando posições relevantes na companhia.

No fim, o conselho estava composto por nomes como Lírio Parisotto, Victor Adler e o próprio Guilherme Ferreira. Esses nomes foram fundamentais para a sobrevivência da empresa nos anos que se seguiram. Com uma postura mais ativista eles atuaram juntamente com os diretores da companhia em prol da maximização do retorno do acionista.

Um jegue na missa

No livro Fora da Curva, no qual Guilherme de Ferreira é um dos participantes ele cita um exemplo de um avô de um amigo, que enriqueceu na Bahia, pois tinha acesso (ele possuía uma barbearia localizada ao vizinho à bolsa) às cotações do valor do cacau negociadas em bolsa um dia antes que os preços fossem incorporados no mercado. Percebendo a oportunidade de se aproveitar da disparidade dos preços com o valor de mercado ele começou a negociar cacau em bolsa, sem conhecer praticamente nada da commoditie.

O que podemos tirar de lição disso? Guilherme afirma que não é necessário ser um especialista em um determinado setor para identificar boas oportunidades, às vezes elas são bem óbvias, e muitas vezes o mercado demora para identifica-las. Então o bom investidor empreendedor é aquele que se aproveita dessa disparidade entre preço e valor, atuando antes dos seus pares para lucrar com essa diferença.

Ele mesmo cita que entende tanto do setor imobiliário quanto um “jegue entende de missa”. Porém, ele possui um investimento relevante em Gafisa, onde identificou que muitas pessoas são guiadas pelo sonho de ter a casa própria. Além disso, também verificou que, nesse investimento, o preço do ativo se encontrava descontado em relação ao o que a companhia poderia valer e numa futura reativação da economia, na qual o valor de mercado da companhia cresceria bastante.

Pontos principais do jeito Guilherme Ferreira de investir

De forma resumida, pegamos emprestado do livro Fora da Curva os principais pontos relevantes na opinião de Guilherme Affonso Ferreira para se efetuar um investimento de sucesso:

1 – Análise a fundo a empresa em que vai investir. É preciso entender seus pontos fortes e fracos e sua estratégia de crescimento.

2 – Decidir qual é o melhor momento para comprar uma ação é tão importante quanto resolver quando vendê-la. Só venda se o desempenho da empresa ficar abaixo do esperado e não houver perspectiva de melhora.

3 – Mantenha sua estratégia de investimento durante as crises. O mercado de ações é volátil. Quedas pontuais não devem assustar o investidor de longo prazo.

4 – Avalie o histórico dos donos e principais executivos das empresas antes de investir. Escolher as pessoas certas é mais importante do que escolher a indústria certa. Bons gestores são capazes de fazer a diferença.

5 – Escolhidas as pessoas certas, confie nelas”.

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Tiago Reis

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.