Por: Tiago Reis

Pat Dorsey e a Análise de Empresas – Parte II

Analisar uma empresa requer um estudo minucioso da operação e das perspectivas futuras do negócio. Para isso, é de suma importância compreender os resultados e as decisões que a gestão tomou no passado para entender se existe competência por parte da administração e alinhamento de interesses com os acionistas minoritários.

Na primeira parte deste texto, apresentei as duas primeiras áreas que devem ser estudadas quando analisamos uma companhia. Em primeiro lugar, é preciso compreender o crescimento, desde sua velocidade e sua sustentabilidade, até as fontes que impulsionam tal expansão das atividades.

Em segundo lugar, o estudo da rentabilidade se mostra fundamental, pois uma operação que entrega rentabilidade inferior ao custo de oportunidade, com riscos desnecessários, jamais será um investimento interessante.

Chegamos, então, na terceira área a ser analisada quando estudamos uma empresa: a saúde financeira. Afinal de contas, não adianta uma empresa apresentar crescimento e rentabilidade atraentes sem uma fundação sólida que permitirá a sustentação das atividades.

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Saúde Financeira

A questão-chave da saúde financeira de uma empresa diz respeito ao endividamento. Quando uma empresa aumenta suas dívidas, ela aumenta seus custos fixos como percentual dos custos totais. Nos anos em que a companhia apresenta bons resultados, seus elevados custos fixos podem se mostrar extremamente rentáveis, uma vez que, quando estes custos estão cobertos, qualquer venda adicional irá direto para os lucros da empresa.

Entretanto, em tempos de recessão econômica, a companhia pode apresentar queda significativa das receitas. Assim, os custos fixos elevados podem comprometer os fluxos de caixa, elevando a necessidade da captação de recursos. Com a contratação de novas dívidas para pagar os juros das dívidas anteriores, a empresa pode entrar em um ciclo de endividamento que possivelmente a levará para a recuperação judicial.

Contudo, nem sempre o endividamento é maléfico. Aliás, dívidas podem ser extremamente rentáveis quando geridas de maneira adequada. Quando a gestão consegue alocar os recursos com retornos significativamente superiores aos custos de captação, a alavancagem impulsiona o retorno para os acionistas e se torna uma ferramenta fundamental para a rentabilidade da empresa.

Deste modo, cabe ao investidor compreender como a administração gerencia a alavancagem da companhia. Para isso, podemos estudar a capacidade de pagamento do principal e dos juros da dívida.

Em relação ao pagamento do principal, podemos dividir a dívida líquida pelo lucro operacional (EBIT). Assim, podemos perceber quantos anos de lucro operacional da companhia são necessários para o pagamento de toda a dívida.

Para estudar o custo da dívida, podemos dividir a despesa financeira pelo lucro operacional, de modo a compreender o percentual dos lucros operacionais destinado ao pagamento de juros da dívida.

Estes dois indicadores garantem ao analista uma compreensão superficial da saúde financeira da empresa.

Riscos

Uma empresa se torna um investimento atraente apenas quando o preço, o crescimento, a rentabilidade e a saúde financeira justificarem os riscos atrelados ao modelo de negócio, ao segmento e ao setor de atuação.

Toda operação possui riscos que não podem ser quantificados através de um indicador. O analista deve estudar profundamente e qualitativamente todos os riscos relacionados à empresa, e estes podem se mostrar inúmeros.

Compreender os riscos é extremamente importante, pois o colocará em uma posição mais confortável no caso eventual de algum risco se concretizar no futuro. Prever os próximos dez anos não é possível, entretanto, se preparar para o imprevisível é fundamental para que os investimentos não tragam retornos insatisfatórios.

Caso a compreensão das ameaças se mostre inviável, a melhor decisão é buscar outra companhia que se enquadre no círculo de competência do investidor. Assim, muitos investimentos com resultados ruins serão evitados.

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Qualidade da Gestão

Por fim, a quinta área de interesse do analista é a gestão da empresa. Podemos analisar a qualidade da gestão de diversas maneiras, entretanto, seja qual for o método escolhido pelo investidor, pelo menos três aspectos devem ser estudados. Em primeiro lugar, é necessário observar se a remuneração da gestão garante alinhamento de interesses entre os acionistas e os gestores.

Caso os gestores sejam remunerados com ações, por exemplo, provavelmente eles buscarão a geração de valor sustentável no longo prazo, uma vez que eles também são beneficiados dessa forma.

Por outro lado, caso a administração da empresa possua salários fartos que não estão atrelados aos resultados da companhia, muito provavelmente os gestores se acomodarão, sem buscar as melhorias necessárias para a geração de valor satisfatória para os acionistas.

Outro ponto fundamental para se analisar é o caráter da gestão. Observe o quadro de colaboradores na tentativa de compreender se a empresa é meritocrática ou se as relações pessoais são determinantes no organograma da empresa.

O conselho administrativo deve ser composto por pessoas capacitadas para o cargo, não sendo interessante que os membros sejam parentes ou pessoas ligadas à alta gestão da empresa. Parentesco não é necessariamente ruim, entretanto, o colaborador deve ter alcançado o cargo por mérito e não por relações pessoais.

Por fim, devemos analisar a tomada de decisão da gestão da companhia. Isso inclui as decisões de investimento, financiamento e destino dos lucros. É importante observar se as decisões resultaram em performance adequada e como tais decisões evoluíram ao longo do tempo.

Uma empresa com gestão competente pode entregar resultados extraordinários quando os interesses estão alinhados e as decisões estratégicas são tomadas por indivíduos que entendem profundamente o setor, o segmento de atuação e o modelo de negócio da empresa. É preferível que estes indivíduos tenham ampla experiência no setor, pois isso torna possível uma análise mais completa do histórico de decisões dos gestores.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

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