Axiomas de Zurique e Omaha

Quando alguém resolve que não pode seguir vivendo apenas com a renda de seu trabalho, acaba buscando referências sobre investimentos na Internet. Sem a orientação de alguém mais experiente por perto, logo se descobre vídeos no YouTube, artigos em sites ou blogs, comunidades no Facebook e algumas casas de consultoria. Talvez você esteja lendo este texto com tal motivação. Saiba, desde já, que há muita coisa errada sendo divulgada como verdade absoluta: não seja ingênuo de sair acreditando em tudo o que possa ler ou assistir sobre este assunto.

Ao invés de mergulhar de cabeça nas aplicações bancárias ou nas operações em bolsa de valores, alguns candidatos a investidores, mais precavidos, procuram por informações bibliográficas mais densas em alguns e-books – embora a maioria deles, quando gratuitos, mais oferecem produtos e serviços pagos do que conhecimento prático. Finalmente os mais estudiosos buscam pelos livros tradicionais, e sequer neste caso eles estarão protegidos de maus conselhos.

Os axiomas de Zurique

Dentre os livros mais comentados entre os leigos sobre investimentos – ou sobre como enriquecer – está aquele escrito em 1985 por Max Gunther: “Os axiomas de Zurique”. O autor se apresenta como filho de um banqueiro suíço e logo de cara se nota que ele está forçando a barra: seu pai dirigia a filial de um banco suíço nos Estados Unidos. Isso não fazia dele um banqueiro, mas um bancário com um salário alto – banqueiro seria se fosse o dono de banco.

Seu pai se reunia ocasionalmente em conversas noturnas com outros suíços egressos da Segunda Guerra Mundial, em bares das imediações de Wall Street, em Nova Iorque. Dos testemunhos de seu pai sobre tais conversas, o autor compilou o que ele chama de 12 axiomas principais e 16 axiomas secundários. O “Zurique” do título de sua obra foi pinçado da cidade mais populosa da Suíça, sede de inúmeros bancos e instituições financeiras que, no entanto, fica a milhares de quilômetros de distância dos acontecimentos narrados por Gunther em seu livro.

Os perdedores são os protagonistas?

Nas primeiras páginas do livro você se pergunta quando o autor começará a relatar o histórico de sucesso de investidores suíços, mas além de seu pai, há menção diga de nota para apenas mais um suíço: um pastor protestante que também migrou para os Estados Unidos e orientou sua comunidade religiosa a comprar um terreno que depois verificaram estar sobre um solo pantanoso. Neste ponto Gunther se refere ao oitavo axioma, sobre não misturar religião e ocultismo com finanças.

Conversando com corretores de imóveis e de valores – e não com grandes investidores – o autor coleta relatos de outros perdedores. Tem a funcionária de carreira da Ford que se aposenta mais cedo para viver exclusivamente dos dividendos das ações da própria Ford. Quando a empresa corta os dividendos em um ano específico, a senhora se vê em apuros. Aqui Gunther fala do último axioma principal, sobre não fazer planejamento de longo prazo. Curiosamente ele se posiciona contra a diversificação em outro axioma, mas foi justamente a falta de diversificação que deixou a ex-funcionária da Ford na penúria, e não a sua estratégia de viver de renda passiva.

Em várias passagens do livro há menção para um notório especulador que fez fortunas quatro vezes, e nas quatro vezes ele encontrou a bancarrota, até se suicidar. Há a triste história de uma jovem escort girl francesa que, abandonada em Monte Carlo, apostou suas últimas moedas num cassino, quebrando a banca logo em seguida. Ela ficou rica e famosa, mas morreu na pobreza anos depois. Por fim tem o casal de classe média que fica com medo de vender a casa depois da quitação da hipoteca, apenas para assistir o valor dela se deteriorar junto com a decadência do bairro, num axioma sobre mobilidade que prega para se evitar as raízes em coisas e lugares.

São todos especuladores?

O problema central de “Os axiomas de Zurique” é que o livro não faz distinção entre investidores e especuladores. Para Gunther, todos são especuladores, sem exceção. É uma visão diametralmente oposta da expressa por Benjamin Graham em outro livro, bem mais fundamentado: “O investidor inteligente”. Para Graham, o investidor é um analista cético que não faz apostas, pensando sempre no longo prazo. Para Gunther todos são apostadores, seja na bolsa de valores, na roleta, na mesa de pôquer, no hipódromo, ou ainda nas cartas de tarô – que ele mesmo lia para animar umas festinhas.

Segundo Gunter, o elemento “sorte” está no comando. Como a sorte acompanha e abandona as pessoas sem uma explicação científica, o melhor que o especulador tem a fazer é recolher seus lucros na primeira hora e partir para outra, abandonando o barco sem rezar caso a aposta esteja dando errado, seja na compra de ouro, prata, moedas estrangeiras, obras de arte, terrenos ou ações de qualquer empresa. Ao se orientar pelos axiomas de Gunther – vamos deixar Zurique fora disso – você ganhará e perderá alternadamente. Se tiver mais sorte do que azar, ganhará mais, desde que não seja ganancioso e otimista demais.

Os axiomas de Gunther estimulam o giro da carteira e talvez por isso seja bem quisto entre os corretores de valores que vivem de taxas e comissões. Suas teses reforçam estereótipos de que a bolsa de valores é um ambiente de jogatina, e que tomar umas cervejas de vez em quando é bom para esquecer um negócio mal feito. É um livro muito perigoso para cair em mãos de jovens deslumbrados, marinheiros de primeira viagem.

Mais joio do que trigo

O livro de Max Gunther não é de todo ruim. Com um pouco de boa vontade é possível extrair alguns bons conselhos dele. Gunther recomenda, por exemplo, que se desconfie de qualquer um que se apresente capaz de fazer previsões sobre o mercado financeiro. Ao invés de basear seus movimentos no que provavelmente possa acontecer, o “jogador” deve saber reagir ao que de fato está ocorrendo. A conclusão do quarto axioma de Gunther, sobre as previsões, é a parte do livro que talvez se aproxime de alguma menção, não explícita, sobre análise fundamentalista de uma empresa: reagir ao que de fato está ocorrendo. OK: quando o autor retrata o axioma da intuição, ele também tangencia um aspecto mais analítico ao pregar que “só se pode confiar num palpite que possa ser explicado”.

O décimo axioma de Gunther, sobre o consenso, também faz sentido: “Fuja da opinião da maioria. Provavelmente está errada”. Aqui o autor adverte para questionar a direção que o rebanho está seguindo. Não se deve concordar, automaticamente, que é a direção certa ou errada. É preciso pensar com a própria cabeça. É preciso fazer análise com método (mas ele não escreve isso). Um exemplo de que nem sempre a maioria está correta fica claro nas resenhas em português publicadas na Internet sobre “Os axiomas de Zurique”: 95% delas elogiam a obra, ou apenas fazem um resumo sem abordagem crítica. Encontramos comentários negativos sobre o livro apenas num fórum de investidores mais experientes.

Os axiomas que importam

Poderíamos depurar axioma por axioma do livro de Gunther, desmistificando seus ditos. Não seria uma tarefa produtiva e apenas reforçaria aspectos negativos de sua obra. Ao invés disso, apresentaremos autênticos axiomas que se revelaram eficazes ao longo de décadas, não para alguns obscuros suíços que se reuniam em bares para charutar, mas para milhares de investidores que adquiriram a independência financeira praticando o “Value Investing”.

Os axiomas de Omaha

Omaha é a cidade mais populosa de Nebraska, nos Estados Unidos. Com cerca de 400 mil habitantes, é um pouco maior do que Piracicaba, no interior de São Paulo. Ao invés dos chocolates e relógios, a região de Omaha é mais conhecida por seus produtos agropecuários.

Ela é sede, no entanto, da Berkshire Hathaway, uma empresa comandada por discípulos de Benjamin Graham: Warren Buffet e Charlie Munger – dois dos mais bem-sucedidos investidores de todos os tempos. As convenções anuais dos acionistas da Berkshire são eventos grandiosos: reúnem cerca de 40 mil pessoas numa arena de esportes e duram mais de quatro horas. Este “Woodstock” do capitalismo atrai a atenção de gente de todo o mundo, ansiosa para aprender algo sobre finanças e métodos de investimento.

De acordo com Claudia Augelli, da Revista Exame, Warren Buffett tem o toque de Midas: “Se você tivesse entregue USD 10 mil nas mãos dele em 1965, hoje você teria um valor aproximado de USD 50 milhões. “ Com todo respeito a Max Gunther – e seu bom humor – o que Warren Buffett e seus seguidores tem a nos dizer, tem muito mais peso. Vejamos:

O 1º axioma: seja sócio de grandes empresas

Se o especulador compra uma ação já pensando no lucro que terá dentro um curto período de tempo com a revenda do ativo, o investidor só compra uma ação para se tornar parceiro de uma grande empresa, para receber a justa parte dos dividendos que serão entregues para seus sócios. Logo, os investidores compram renda passiva, mais do que ações.

O 2º axioma: atue com margem de segurança

É preciso avaliar o valor de mercado de uma empresa, expresso no preço da ação, e comparar com seu valor intrínseco. Sempre que o valor de mercado superar o valor intrínseco, a compra da ação será uma especulação. O contrário representa o critério da oportunidade. Negócios perenes, em setores com poucos concorrentes diretos, são os mais recomendados.

O 3º axioma: só compre aquilo que você possa compreender

Tão importante quanto analisar os balanços financeiros de uma empresa, bem como seu histórico de pagamentos de dividendos, é compreender como o negócio funciona. Somente assim será possível avaliar a capacidade dos gestores em manter os projetos em linha com o progresso do empreendimento.

O 4º axioma: compre e abrace

O único modo de receber dividendos de uma empresa é permanecer com ela ao menos pelo período de um exercício fiscal. Mas a filosofia aqui é se basear numa análise fundamentalista que permita ao investidor ser parceiro da mesma por vários anos. Projetos vitoriosos, mesmo que não paguem bons dividendos no começo, tendem a aumentar o valor intrínseco de uma empresa. No longo prazo, o valor de mercado tende a se equiparar ao valor intrínseco.

O 5º axioma: diversifique com moderação

A diversificação é necessária para mitigar os riscos, mas o excesso de ativos numa carteira impede que o investidor possa acompanhar devidamente o andamento de cada investimento. Não há, porém, uma regra específica para a diversificação, pois a mesma depende da capacidade de acompanhamento de cada investidor.

O 6º axioma: evite o giro desnecessário da carteira

Trocar de ações constantemente, ao sabor dos ventos, é mais interessante para as corretoras e bolsas de valores, por causa das taxas e emolumentos, do que para o próprio investidor, que só deve zerar posição numa empresa se os seus fundamentos se deteriorarem – não se a cotação da ação simplesmente cair.

O 7º axioma: atenha-se aos fundamentos

Flutuações no mercado financeiro ocorrem em função de fatores externos que nenhum investidor pode controlar. Ele deve saber que não são tais fatores que comprometem os resultados das empresas, mas como a gestão das mesmas se comporta diante de cada cenário. Fatores externos apenas criam oportunidades para compras de ações baratas de ótimas empresas, por causa do desespero eventual dos outros.

O 8º axioma: desfrute o tédio

Investir de forma consciente é uma das atividades mais tediosas que existe. Não procure emoções fortes ou aventuras na bolsa de valores: estude, faça a lição de casa, aprofunde suas análises antes de comprar uma ação. Após comprá-la, cultive a disciplina e a paciência. Os resultados não serão imediatos, mas quando vierem, serão duradouros.

Investir em longo prazo requer um distanciamento emocional que imuniza o investidor de eventos inesperados. Quando sua carteira está baseada em ativos bem fundamentados, o cisne negro pode cruzar a esquina de mãos dadas com a pantera cor de rosa, mas nada abalará sua confiança.

Zurique ou Omaha?

O que vale para os escritos de Gunther e Graham vale para este artigo: você não precisa se fiar em nossas palavras. Desconfiar é um instinto de sobrevivência. No entanto, acreditamos em seu senso crítico. Você sabe quando estão querendo te embromar ou quando querem realmente lhe ajudar.

Nós ficamos com os axiomas de Omaha. Eles não dependem da sorte, do caos ou de uma suposta ordem mutável. Tais axiomas se baseiam em análises fundamentalistas, não em conversas de mesa de bar.

Se você concorda conosco, lhe deixamos o convite para fazer sua Assinatura Premium com a Suno Research. Nossos relatórios são focados em investimentos de longo prazo e baseados nos axiomas de Omaha.

 

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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