Os 7 pecados do investidor

Sempre que alguém se arvora em escrever sobre os sete pecados capitais, propondo adaptá-los a um tema específico, não está plagiando a Bíblia, como muitos podem imaginar, mas se referindo – por vezes sem saber – a algumas epístolas papais e textos teológicos da Idade Média, de autores como São Tomás de Aquino. Soberba, Avareza, Luxúria, Inveja, Gula, Ira, Preguiça, Heresia e Mentira: os sete pecados capitais ganharam a companhia de outros dois na obra prima de Dante Alighieri, denominada “A Divina Comédia” – um poema tão importante que é considerado a base do idioma italiano moderno.

De qualquer modo, o plágio não incide em afronta aos direitos autorais, uma vez que todas as referências clássicas caíram em domínio público. Séculos depois, usar a expressão “sete pecados capitais” ainda é um expediente pedagógico forte para captar a atenção de leitores e ouvintes, dado que temas ligados à religião e à mitologia são recorrentes em abordagens psicológicas com o objetivo de transmitir noções de disciplina para os receptores da mensagem.

A disciplina, que sustenta a paciência e o sangue frio que o investidor deve conservar ao longo de sua carreira, é um dos atributos mais difíceis de assimilar. É a disciplina que traz o respeito a certos comportamentos ortodoxos que restringem as decisões impulsivas. Em muitas atividades, o aprendizado vem através do cometimento de erros, que aqui podemos chamar de pecados. Mas na área de investimentos, aprender na prática, com os próprios erros, pode custar muito caro. De que adianta ter um pecado perdoado se o estrago que ele causou é irreversível?

O investidor precavido deve aprender com os erros dos outros, não necessariamente com os seus, pois estes devem ser evitados a todo custo. Posto isso, elencamos os sete pecados que o investidor deve evitar no mercado de capitais.

Gula

Há um mito que cerca a bolsa de valores a respeito de ser um ambiente de negócios que pode arruinar as finanças das pessoas, mas que podem fazê-las ricas de uma hora para a outra. De fato, muitos especuladores perdem dinheiro diariamente na bolsa, mas é falsa a noção de que ela fabrica milionários da noite para o dia – isso até pode ocorrer excepcionalmente, mas não a ponto de ser uma regra.

Muitos investidores novatos mergulham de cabeça na bolsa de valores com tal expectativa e logo percebem que ela não se comprova, dado que não possuem o conhecimento mínimo para realizar operações inteligentes. Neste ponto um bom dinheiro já foi perdido, para sempre.

A bolsa de valores é muito eficaz para quem investe no longo prazo, com vistas a formar uma carteira previdenciária. O resultado dela pode fazer do investidor uma pessoa rica, porém, mesmo que caso isso não ocorra, ao menos ele terá mais segurança para lidar com sua aposentadoria.

Idolatria

Quem já perdeu dinheiro com o pecado da gula, mas insiste no mesmo, é preza fácil dos pretensos gurus que fazem previsões sobre o mercado financeiro. Eles se apresentam como pessoas bem-sucedidas e garantem ter a fórmula secreta – sempre mirabolante – para o enriquecimento rápido. Curiosamente eles vendem o segredo de fazer fortuna por uma fração da mesma. Feito ídolos, eles reúnem comunidades crescentes de fãs ao seu redor, no caso, repleta de gente que pensa estar investindo corretamente.

Como tais comunidades precisam ser renovadas de tempos em tempos, dado que elas não geram novos ricos salvo os próprios gurus da prosperidade, estes precisam continuamente embrulhar seus discursos com embalagens diferentes. Quanto mais cedo o pecador se arrepender de tal idolatria, tanto melhor para o seu bolso.

Os falsos profetas sempre foram combatidos, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Não há razão para dar crédito para eles no mercado financeiro.

Inveja

Existem vários motivos que um investidor pode ter para justificar sua busca por independência financeira, ou mesmo para a obtenção de riqueza. Dois deles podem ser prejudiciais: querer suplantar algum conhecido (um amigo ou parente tratado no íntimo como um rival) ou querer bater o mercado.

Tentar enriquecer para ter um padrão de consumo superior ao de alguém invejado traz o risco de o investidor sustentar um padrão de aparências que lhe impeça de poupar os recursos necessários para alimentar seus próprios investimentos. É uma perda de tempo.

Existe também o investidor que se julga mais preparado, desejando bater os resultados médios do mercado. Esta pessoa quer estar acima dos outros, custe o que custar. Para tanto, terá que assumir uma postura mais agressiva, e menos segura.

A Serra Gaúcha e as praias cultuadas do Nordeste são frequentadas por diversos investidores anônimos, que conseguiram a independência financeira após anos de aplicações na bolsa de valores. Entre tais aposentados de sucesso, poucos se importaram em ganhar do mercado ou do vizinho. O mais importante eles conseguiram: o bem-estar para eles mesmos e para suas famílias.

o pecado da preguiça

Preguiça

A inércia em relação aos investimentos é o que faz muita gente chegar à terceira idade sem a devida retaguarda financeira. Entre aqueles que estão cientes da importância de poupar recursos ao longo da juventude, muitos ficam presos à caderneta de poupança, à herança de algum imóvel que renda aluguel, ou aos planos de previdência privada. Em geral estes são ativos pouco rentáveis, mas teoricamente fáceis de manter. E vamos concordar: contrariar um gerente bancário que lhe aconselha a desistir de sacar o PGBL, de uma só vez, dá trabalho mesmo.

Com algum esforço, alguns descobrem demais produtos de renda fixa oferecidos pelos seus bancos e outros até passam a investir no Tesouro Nacional. Mas daí a abrir conta numa corretora de valores independente do ambiente bancário é um passo muito grande para estes pecadores, que veem na renda variável um potencial de risco muito grande – o que poderia ser reduzido com estudo.

Este é um empecilho em particular: ter que estudar antes de comprar ações de uma empresa ou cotas de um fundo imobiliário, por exemplo. A preguiça para estudar investimentos é um freio na maratona rumo à independência financeira.

Mesmo aqueles que possuem uma carteira de investimentos mais sofisticada, com boa presença de ativos de renda variável, podem padecer diante da imobilidade em revisar e recalibrar a mesma de tempos em tempos, perdendo com isso as oportunidades que aparecem com as constantes mudanças dos cenários políticos e econômicos, que ora pendem para bons resultados em renda variável e ora pendem para maior rentabilidade em renda fixa.

Avareza

Por vezes confundida com a preguiça, a avareza está mais ligada ao sentimento de posse que faz um investidor se apegar a uma ação, mesmo sabendo que ela está apresentando sinais de desgaste. Este é um pecado que mesmo os investidores mais experientes podem cometer, quando se baseiam num histórico de resultados que eles acreditam que podem ser retomados.

Por melhor que seja a análise fundamentalista de uma determinada empresa, que venha a render dividendos satisfatórios para o investidor nos primeiros anos, pode ocorrer alguma mudança na gestão que mude os rumos do empreendimento. É comum ocorrer também fusões com outras empresas e estes procedimentos podem não surtir os resultados esperados.

Segurar a posição numa empresa decadente significa aumentar o grau do prejuízo. Preso por uma noção de ancoragem, o investidor acredita que determinada ação vale tantos reais, e decide que só irá vendê-la se porventura a mesma recuperar a cotação para o patamar esperado. O que ocorre, muitas vezes, é que o papel continua caindo.

Os investidores avarentos pecam também por dar mais atenção ao papel que esteja apresentando um resultado abaixo do esperado do que eventualmente para os demais papéis que estejam com números positivos. É como pastorear trinta ovelhas e deixá-las de lado para correr atrás da única que pulou a cerca, ficando exposta aos lobos.

Soberba

A soberba é um pecado associado ao excesso de confiança. O investidor mais otimista, dominado por convicções a respeito do mercado financeiro, tende a realizar transações com maior velocidade, que resultam num giro maior da carteira, aumentando seus custos operacionais – o que certamente lhe drenará parte significativa dos resultados esperados.

O investidor soberbo pode ser acometido também pela “memória seletiva” que o faz esquecer investimentos malogrados para lembrar apenas das operações bem-sucedidas. Deste modo ele não aprende com os erros cometidos.

O “viés de confirmação” é outro comportamento psicológico que entra em cena para complementar a memória seletiva do investidor com excesso de confiança. Quando o pecador acredita numa tese – ou faz ancoragem a respeito do valor de mercado de uma ação, lhe precificando de modo mais empírico do que científico – ele seleciona apenas os dados e fatos que confirmem a sua opinião, ignorando aspectos contrários que poderiam mudar sua abordagem a respeito.

o pecado da ira

Ira

Este é um pecado que o investidor não comete necessariamente sozinho, mas quando é levado pelo estouro da boiada. Seguir a manada quando ocorre uma situação excepcional no mercado financeiro é o prenúncio de grandes prejuízos. Os bois correndo furiosamente para vender ou comprar ações atendem aos anseios de grandes especuladores, e fazem a festa daqueles que aguardam os grandes eventos de volatilidade da bolsa para adquirir ações com valor de mercado abaixo do valor intrínseco, ou para vendê-las com grande margem de lucro.

O investidor consciente, que confia nas suas análises, sabe que não deve zerar posição ou fazer aportes numa empresa só pelo fato de vários investidores estarem fazendo o mesmo. Este é um comportamento que afeta até os gestores de grandes fundos, que se sentem confortáveis ao saber que seus pares estão indo numa direção que todos acabam julgando ser a correta. Questionar este imperativo institucional é um modo de se prevenir contra este pecado.

Disciplina e autocontrole

Para Tiago Reis, analista chefe da Suno Research, “o lado psicológico de um investidor é mais importante do que a sua capacidade analítica”. Mais necessário do que ter a capacidade de fazer análises aprofundadas sobre as oportunidades para investimento no mercado financeiro, é ter autocontrole para não se deixar levar por comportamentos puramente instintivos. O equilíbrio emocional vale mais do que o quociente de inteligência. Obter sucesso nos investimentos é uma tarefa árdua, mas que não requer investidores geniais.

De acordo com Warren Buffett, um dos maiores investidores da história e adepto dos investimentos de longo prazo, “O sucesso em investir não está correlacionado com o Q.I. uma vez que você esteja acima de 25 pontos. Uma vez que você tenha uma inteligência comum, o que você precisa é do temperamento para controlar os impulsos que levam os outros a ter problemas ao investir”.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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