Por: Tiago Reis

O surgimento do dinheiro

Atualmente é quase impossível se imaginar em uma sociedade onde não exista dinheiro. Boa parte da sociedade realiza transações diariamente, fazendo uso do dinheiro para adquirir bens ou serviços de sua necessidade.

Entretanto, a sociedade nem sempre operou desta maneira. Há milhares de anos, os indivíduos tinham que confeccionar seus próprios utensílios e as trocas eram escassas.

Naquele momento, era muito difícil que um individuo pudesse dominar todas as técnicas envolvidas nas atividades sociais. Fica evidente, portanto, que se o homem dominasse apenas uma tarefa, sendo especialista naquilo, a sociedade e o próprio indivíduo vivenciariam um ganho expressivo de produtividade.

Surge, então, uma das primeiras formas de transação, o escambo.

O escambo é uma transação na qual os agentes econômicos trocam mercadorias. Apesar de solucionar alguns problemas transacionais, tal operação possui deficiências intrínsecas.

Em primeiro lugar, os agentes econômicos envolvidos na operação devem possuir interesses coincidentes ou a transação não ocorrerá.

Imagine que você é um criador de cavalos em uma sociedade onde as transações comerciais são feitas por meio do escambo. Você precisa de alimentos para sobreviver e para alimentar seus cavalos, então, você se dirige ao centro comercial do vilarejo para adquirir comida.

Controle de gastos

Deste modo, em uma economia onde as transações comerciais ocorrem por meio do escambo, quando não há coincidência de interesses, não há transação.Quando chega no local, encontra um comerciante que está trocando arroz por outras mercadorias. Ao falar com o comerciante, você descobre que ele não está interessado em seus cavalos.

O segundo problema relacionado a este tipo de operação é a dificuldade de se estabelecer preços para os bens comercializados. Hoje, vivemos em uma sociedade onde cada bem possuí um único preço, ou seja, o número de preços é igual ao número de bens comercializados.

Entretanto, em uma economia onde as transações comerciais se dão por meio do escambo, o número de preços é a combinação do preço de todas as mercadorias, que resulta em um número muito maior.

Em uma sociedade extremamente simples, que negocia apenas 100 produtos, o número de preços envolvidos é de 4.950 preços. Quando pensamos em uma economia um pouco mais complexa, com cerca de 1.000 produtos negociados, temos 499.500 preços.

Imagine o número de preços de uma economia global como a atual operando suas transações comerciais através de escambo. É quase inconcebível.

Existe ainda um terceiro problema com esse tipo de operação. Tal inconveniente está relacionado à impossibilidade de fracionar alguns bens. Pense no caso do criador de cavalos. Muito provavelmente, um cavalo era um bem cujo valor era muito superior à diversos produtos comercializados.

Alimentos, por exemplo, dificilmente seriam negociados em pequenas quantidades em uma troca envolvendo um cavalo. Este fenômeno dificulta muito as negociações e torna a economia pouco eficiente.

Assim, as ineficiências inerentes ao escambo pressionaram a civilização a buscar outras formas de transacionar bens e serviços. Surge então, o dinheiro.

O dinheiro cria um padrão de valor que elimina a necessidade de coincidência de interesses. Ao possibilitar a aquisição de qualquer bem com uma mesma moeda, os agentes econômicos passam a transacionar bens e serviços por dinheiro e, posteriormente, dinheiro por bens e serviços.

Além disso, a complexidade dos preços envolvidos na economia é reduzida à quantidade de bens transacionados. Por fim, o dinheiro permitiu uma forma mais eficiente de criar uma reserva de valor.

Uma das primeiras referências sobre a utilização de moedas metálicas como dinheiro data de aproximadamente 1.780 a.C., no décimo sétimo artigo do Código de Hamurabi, onde é mencionada uma forma de dinheiro feita de prata.

Além de solucionar os problemas das transações por meio de escambo, as moedas de metal eram duráveis e fáceis de transportar (em pequenas quantidades). Esta forma de dinheiro passou a ser utilizada amplamente por trazer diversas vantagens, como a possibilidade de ter sua qualidade padronizada e ser divisível, permitindo a aquisição de bens de grande e pequeno valor.

Apesar das melhorias consideráveis, esta forma de transação trouxe novos problemas para as operações comerciais. Principalmente no caso de transações de grande valor, problemas com transporte, pesagem, pureza e segurança eram comuns.

O avanço da tecnologia permitiu que fossem criadas diversas soluções financeiras para facilitar o comércio. Atualmente existem inúmeras instituições financeiras envolvidas no comércio global na tentativa de dar suporte para a cada vez mais complexa economia.

Vivemos em um eterno esforço de inovações e renovações onde o dinheiro, independentemente de sua forma, é peça fundamental na vida dos agentes econômicos.

Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.

10 comentários

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  • Barbara Berti 27 de maio de 2019

    Quem não olha para trás, não tem condições de entender o presente e planejar-se para o futuro. Muito bom artigo.

    Responder
  • Paulo A Franke 27 de maio de 2019

    Muito interessante o histórico do escambo e do surgimento do dinheiro. Evoluímos muito desde o escambo, desde o uso de objetos como conchas e grãos, de moedas metálicas de todo tipo, até chegarmos ao papel-moeda-de-confiança atual.

    Mas será moeda de confiança – fiat currency – mesmo?

    Como ficou quem confiou e guardou réis, mil réis, cruzeiros, cruzeiros novos, cruzados, cruzados novos e cruzeiros reais embaixo do colchão?

    O real vai completar 25 anos em 01/Julho, mas essa calmaria é ardilosa. O Brasil não É confiável, apenas ESTÁ confiável. Com pirados completos, e ignorantes completos em economia como Jair Bolsonaro no comando, guardar real no colchão é muitíssimo arriscado.

    Estou muito pronto para guardar bitcoins embaixo do meu colchão digital….

    Responder
    • Marcelo Augusto 29 de maio de 2019

      Concordo contigo Paulo. Hoje com um país comandado por pirados temos que criar nossos “colchões”.

      Responder
  • Sérgio 27 de maio de 2019

    Muito bom.

    Responder
  • Daniel Schneider 27 de maio de 2019

    Grande fonte de informação, Tiago Reis.

    Responder
  • Marco Vasconcelos 27 de maio de 2019

    Olá Tiago, parabéns pela iniciativa.
    Acho prudente fazer a distinção entre dinheiro e moeda.
    Problema 1: Quem garante a qualidade da moeda, do equivalente geral?
    Na história recente são vários os exemplos de calote nos meios de pagamento. Desde banqueiros venezianos que emitiam certificados de depósito de ouro negociáveis sem o devido lastro, até cunhadores de moedas com baixo título de ouro e também bancos centrais irresponsáveis que promovem a deterioração da moeda e titulos públicos causando a inflação.
    Problema 2: Não se come dinheiro.
    Aristoteles já analisava a questão do valor para as pessoas, usando duas categorias de valor (a) valor intrinseco ou absoluto de coisas como alimentos, saúde, amizade, por si só desejáveis e (b) valor instrumental ou relativo de coisas como ferramentas, dinheiro, meios para se atingir valores absolutos.
    A moeda é uma abstração, um construto social. Não existe na Natureza. É um artifício inventado pela humanidade para facilitar sua colaboração, uma tecnologia. Como qualquer contrato as partes aceitam suportar custos no presente em troca de um valor maior no futuro. E será um contrato justo se o valor obtido no futuro for compartilhado proporcionalmente aos custos incorridos no presente, o que raramente acontece sem assimetrias graves (como a crise do subprime em 2008).
    Enquanto tecnologia a moeda comanda as funções habilitadora, permitindo novas maneiras de trocar e a aceleradora, permitindo maior velocidade nas decisões que um bom sistema de informação oferece.
    Problema 3: Como se proteger da tirania de uma Autoridade Monetária local em uma economia globalizada?
    Não há duvida que em uma economia monetizada a autoridade monetária tem um poder imenso, pois na prática influencia nas relações de troca e nos preços do trabalho, dos recursos naturais e das coisas. Como garantir decisões pró economia, que garantam que os benefícios contratuais sejam acessíveis a todos os contratantes que acreditam e usam a moeda?
    Atualmente surgem alternativas a tirania do banco central, algumas resgatando o escambo, outras programas de fidelidade em milhagens e outras nas criptomoedas, buscando melhorar a governança do sistema.

    Ativos financeiros são fundamentais para o desenvolvimento econômico e social, mas devem ser entendidos como meios, não finalidades e governados de maneira transparente em benefício de todos os agentes.

    Abraço,

    Marco Vasconcelos

    Responder
  • Cássia Lima 27 de maio de 2019

    Muito bom o artigo.

    Responder
  • Rafael Victor 28 de maio de 2019

    Muito legal o artigo! Continue assim! Tragam mais artigos assim, obrigado!

    Responder
  • Marcus 30 de maio de 2019

    “O Que o Governo Fez Com o Nosso Dinheiro?”
    por Murray Rothbard – Instituto Mises Brasil.

    Aliás, excelente artigo, Thiago, como sempre.

    Responder
  • Maurício Soares Graminho 30 de maio de 2019

    Gostaria de saber a fórmula para se chegar ao total de 4950 preços para 100 mercadorias ?

    Responder
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