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    O solene momento do aporte

    O solene momento do aporte

    Em sua estratégia ele definiu que faria apenas um aporte por mês na Bolsa de São Paulo, no melhor ativo que julgasse disponível. Deste modo economizaria com transferências bancárias, taxas de corretagem e emolumentos. Na única nota fiscal da corretora ficaria fácil registrar os gastos para descontar numa eventual alienação futura, visando economia no pagamento de impostos.

    Um aporte por mês. Não tem como um momento assim ser trivial. Na véspera da operação uma compreensível ansiedade alimenta a insônia do poupador de recursos, que protela um fim de semana na praia para inteirar a quantidade suficiente para arredondar mais um lote de ações em sua carteira.

    A esposa vai dormir logo depois da pequena filha, que já ganha uma moeda por dia para guardar em seu cofrinho da Ladybug. Mas ele vai para a sala, abre uma gaveta e encontra o DVD com o filme “As 24 Horas de Le Mans” – um clássico de 1971 estrelado por Steve McQueen.

    Misto de ficção e documentário, seu enredo tem pouquíssimos diálogos e muita ação na pista. A corrida de Le Mans é tão longa que só poder ser vencida com o revezamento de pilotos. Quem larga de face lisa recebe a bandeirada com a barba aflorando nos poros.

    O ronco dos motores e os fachos de luz dos faróis dos bólidos que rasgam a madrugada oferecem um prazer incompreensível para quem não se entusiasma por carros de corrida.

    A certa altura da história, uma repórter interpela o protagonista, um piloto obstinado e interpretado com a extrema verossimilhança emprestada pelo alter ego do ator supracitado:

    – Mas porque é tão importante dirigir mais rápido que todo o mundo?

    Sua resposta é um deleite para quem não precisa de justificativas para nutrir uma paixão que parece irracional:

    – Muitas pessoas passam a vida toda fazendo coisas malfeitas. Pilotar é importante para as pessoas que o fazem bem. Quando você está pilotando em corrida, bem… é a vida. O que acontece antes ou depois é apenas espera.

    O dia amanhece. As horas a menos de sono parecem não ter interferido na vontade de se levantar. Há meses o investidor vem aportando recursos na mesma companhia. Naquele dia, mais uma operação de compra seria feita.

    Enquanto sorvia o café, ele se lembrava do baixo P/L da empresa. O P/L expressa a relação entre o preço da ação dividido pelo lucro da ação: quanto menor o resultado da fração, tanto melhor.

    O Dividend Yield indicava que o retorno esperado para o investimento, independentemente da eventual valorização do papel, já era quase o dobro do que a renda fixa estava ofertando no mercado. Outro de seus dois indicadores favoritos, o ROIC e ROE, pareciam entregar as RPM de um Mercedes no fim da reta oposta de Interlagos.

    Excelente liquidez. Dívida inexistente. Crescimento positivo nos últimos cinco anos. E apesar de todos os fundamentos redondos, a cotação da empresa vinha caindo semana após semana, como se um Ferrari estivesse sendo vendido a preço de Alfa Romeo. Cotações em baixa assustam muita gente. É como correr na chuva: alguns freiam enquanto os destemidos continuam acelerando.

    A porta do escritório é fechada. O aparelho de telefone celular é silenciado. Ele acessa o Internet Banking e verifica que o depósito aguardado já estava na conta. Feita a contabilidade pessoal, parte do dinheiro é reservada para o pagamento de contas futuras, outro montante vai para a reposição do colchão de emergência da família. O valor principal segue em forma de TED para a corretora.

    Minutos depois o Home Broker é aberto. O coração bate um pouco mais forte. Não precisava ser assim, mas ele sabe que isso é incontrolável. A ordem de compra é aberta. O código da ação é digitado. A senha também. Imediatamente a ordem aparece como executada na rolagem da página. Este ritual lhe é tão caro que talvez ele devesse se postar de pé e escutar o Hino Nacional antes de iniciá-lo.

    Uma sensação de alívio acalma o sujeito. Menos tenso, ele se sente mais poderoso: acabou de aumentar sua participação numa grande empresa. Surge a vontade de acender um charuto, embora não se lembre da última vez que tenha feito isso. Aquele procedimento lhe valerá bons retornos por tempo indeterminado. Seu mês estava ganho e a gratidão pelo dever cumprido lhe remunerava em seu âmago.

    Almoçando com a esposa ele revela que comprou mais um pedacinho de sua empresa favorita. Ela, embora confie no marido, não consegue compreender seu interesse frequente pelo assunto:

    – Você tem certeza que está fazendo a coisa certa? Eu não consigo entender isso.

    Com a memória do filme fresca na mente, ele confidenciou:

    – Muitas pessoas passam a vida toda fazendo coisas malfeitas. Investir é importante para as pessoas que o fazem bem. Quando você está realizando um aporte, bem… é a vida. O que acontece antes ou depois é apenas uma longa preparação.

    Jean Tosetto
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