Por: Tiago Reis

O que é balanço patrimonial e qual a função desse demonstrativo contábil

Avaliar os relatórios financeiros de uma companhia é a prática mais importante dentro da análise fundamentalista. Nesse sentido, talvez o mais demonstrativo mais essencial para estimar o valor de uma empresa seja o que é Balanço Patrimonial.

Por ser considerado pela contabilidade como a principal demonstração financeira de uma empresa, entender o que é o balanço patrimonial e como ele funciona é mais que necessário ao se analisar uma empresa.

O que é balanço patrimonial?

O balanço patrimonial é um relatório financeiro que apresenta a condição patrimonial de uma empresa ao final de um período. O balanço patrimonial é considerado como a mais fundamental demonstração financeira de uma empresa.

Ou seja, o balanço fornece um quadro geral sobre a situação econômica e contábil da empresa, listando todos os bens, direitos e valores que ela possui em um determinado momento.

Normalmente, o balanço patrimonial é apresentado anualmente. Por representar a evolução contábil do patrimônio, toda empresa é obrigada, por lei, a elaborar o seu balanço patrimonial no fim de cada exercício.

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Como funciona o balanço patrimonial?

O Balanço Patrimonial é constituído por três contas principais. De um lado do balanço, fica localizado o Ativo. Do outro lado, são registrados o Passivo e o Patrimônio Líquido da empresa.

O termo balanço remete ao simbolismo de uma balança com dois pratos. Ou seja, em um dos pratos estão os ativos, isso é, os bens e direitos que atuam direta ou indiretamente na geração de caixa da companhia.

Por outro lado, no outro prato estão as obrigações da companhia (passivos) e o patrimônio da sociedade.

E a regra básica da contabilidade diz que deve haver uma igualdade entre esses três itens. Logo, a equação básica de todo balanço patrimonial é a seguinte:

  • Ativo = Passivo + Patrimônio líquido

Por exemplo, se uma empresa tem R$ 100 mil em ativos e possui R$ 40 mil em passivos, obteremos um total de patrimônio líquido de R$ 60 mil.

Ao contrário das demonstrações de resultados do exercício (DRE), o balanço se refere sempre a uma determinada data, e não a um ano, trimestre, ou qualquer outro período.

Assim, costumamos dizer que essa demonstração é como se fosse uma “foto” instantânea das condições financeiras da empresa naquele momento.

De fato, as empresas podem gerar essa demonstração em qualquer data do ano, mas são divulgados ao mercado os balanços ao final de cada trimestre.

Organização das contas do balanço patrimonial

A organização do balanço patrimonial é sempre feita em ordem decrescente de liquidez. Ou seja, as contas que possuem um prazo mais imediato para serem ou resgatadas (no caso dos ativos) ou pagas (no caso dos passivos e do patrimônio líquido) são elencadas no topo do balanço.

Já os valores com um prazo mais longo para resgate ou pagamento estão mais para o fundo da demonstração.

Ativo no balanço patrimonial

o que e o balanço patrimonial

A conta ativo registra os bens, direitos e recursos de propriedade da empresa. Entram nesse grupo qualquer patrimônio, em posse ou de direito da empresa, que possam gerar algum benefício ou valor econômico.

Em outros termos, os ativos refletem onde os recursos de uma empresa foram alocados, trazendo receita presente ou futura para a mesma em suas operações.

Os Ativos são separados duas partes: ativo circulante e ativo não-circulante.

Ativo Circulante

O ativo circulante representa os recursos que a empresa e que consegue realizar no curto prazo. Ou seja, são os ativos com liquidez menor que o período de um ano.

As principais contas do ativo circulante são:

  1. Caixa e equivalentes de caixa;
  2. Aplicações financeiras;
  3. Contas a receber;
  4. Estoques;
  5. Despesas antecipadas;
  6. Tributos a recuperar.

1. Caixa e equivalentes de caixa

O item caixa e equivalentes de caixa se refere aos recursos mais imediatos disponíveis à companhia. Basicamente, se trata de todos os recursos que estão no caixa da empresa e também aquelas aplicações financeiras com liquidez imediata.

Esses recursos são mantidos com o objetivo de honrar os compromissos da companhia no curtíssimo prazo.

Para que uma determinada aplicação seja considerada como caixa ou equivalente de caixa, ela deve atender a três requisitos:

  • Liquidez imediata;
  • Prazo de resgate inferior a 90 dias;
  • Insignificante risco de mercado.

Ou seja, na prática esses recursos que estão no balanço patrimonial são dinheiro em espécie, depósitos bancários, e aplicações de renda fixa pós-fixadas com prazo inferior a 90 dias.

2. Aplicações financeiras

As empresas também podem ter valores depositados em produtos financeiros como CDB, títulos de renda fixa e demais aplicações em instituições financeiras que possuem vencimento de regate entre 90 e 365 dias. Nesse caso, essas aplicações são agrupadas em uma conta chamada de “aplicações financeiras”.

3. Contas a receber

As contas a receber nada mais são do que o dinheiro devido pelos clientes da empresa e que ainda não foi pago.

Esse ativo é originado sempre que a empresa presta um serviço ou vende um produto, mas ainda não recebeu o pagamento integral.

Essa diferença ajuda a entender a diferença de contabilidade entre o regime de caixa e de competência. No regime de competência, que é aquele que as empresas utilizam, é possível reconhecer receitas sem que ainda tenha ocorrido o recebimento de caixas naquele momento.

Além disso, nas contas a receber, a companhia também registra uma conta redutora chamada de provisão para créditos de liquidação duvidosa (PCLD). Esse valor representa o montante que a companhia acredita que não receberá dos seus devedores.

contas a receber
Contas a receber no balanço patrimonial da Localiza no balanço patrimonial do 1T18.

4. Estoques

Para empresas que trabalham com estoques, estes também precisam ser mensurados e agregados no balanço patrimonial.

Os estoques nada mais são do que os produtos armazenados pela empresa e que se espera que serão vendidos no futuro próximo.

O importante é saber que os estoques são um bem de posse da companhia e que possuem valor, e que por isso são contabilizados como ativo da empresa.

5. Despesas antecipadas

As despesas antecipadas são aqueles gastos realizados pela companhia, mas que ainda não refletiram em benefício para a empresa. Por exemplo:

  • Prêmios de seguros pagos antecipadamente;
  • Aluguéis pagos com antecedência;
  • Outras despesas antecipadas.

6. Tributos a recuperar

Já os tributos a recuperar são aqueles tributos pagos na compra de mercadorias e que reduzem o imposto a recolher incidente sobre a venda dessas mercadorias.

Esses tributos podem ser classificados tanto no ativo circulante quanto no ativo não circulante.

Ativo não-circulante

O ativo não-circulante é composto por de bens e direitos com realização acima de um ano, ou de natureza fixa e duradoura.

Normalmente, o ativo não-circulante é dividido em quatro grandes contas, em ordem decrescente de liquidez:

  1. Realizável a longo prazo;
  2. Investimentos;
  3. Imobilizado;
  4. Intangível.
Valuation e precificação de ativos

1. Realizável a longo prazo

O ativo realizável a longo prazo inclui a parcela não circulante de alguns ativos que já mencionamos (despesas antecipadas, tributos a recuperar, contas a receber).

Além disso, também são incluídas aplicações financeiras de longo prazo, como ações títulos pós-fixados, e derivativos.

Outro componente do ativo realizável a longo prazo é o Imposto de Renda (IR) e Contribuição Social Diferidos (CSLL).

Essa conta do balanço patrimonial surge quando a empresa paga mais impostos do que deveria e a diferença poderá ser então abatida de impostos no futuro.

Por fim, os últimos componentes relevantes são os créditos com partes relacionadas e os depósitos judiciais.

2. Investimentos

A parcela de investimento da companhia corresponde aquelas aplicações financeiras ou participações que societárias com o caráter de longo prazo.

Ou seja, a empresa não espera vender essas participações no curto prazo.

Os exemplos mais comuns são as participações em coligadas, subsidiárias e controladas.

3. Imobilizado

O ativo imobilizado compreende todos aqueles bens necessários para manutenção das atividades da companhia.

Esses bens costumam ser tangíveis, isso é, tem presença física.

Exemplos:

  • Imóveis (prédios, fábricas, terrenos);
  • Máquinas;
  • Veículos (carros, caminhões);
  • Móveis;
  • Utensílios;
  • Computadores.

Vale mencionar que os bens do imobilizado costumam ser depreciados de acordo com a depreciação linear.

4. Intangível

Os ativos intangíveis são aqueles ativos que não possuem presença física, mas geram benefícios econômicos para a companhia.

Exemplos:

  • Contratos;
  • Patentes;
  • Direitos autorais;
  • Softwares.

Passivo no balanço patrimonial

utilidade do balanço

O Passivo abriga os recursos emprestados ou aplicados por terceiros na empresa. Logo, ele representa quais são as dívidas e obrigações que a empresa ainda precisa pagar. Ou seja, o passivo é um saldo redutor no patrimônio: quanto maior o seu valor, menos a empresa vale.

O Passivo é organizado da mesma forma que o ativo, também sendo dividido em duas partes: passivo circulante e passivo não-circulante.

Passivo circulante

O passivo circulante pe composto pelas dívidas e obrigações da empresa com vencimento menor um ano. Os principais componentes são: pagamento de fornecedores, empréstimos de curto prazo e impostos.

Nessa parte do balanço patrimonial são incluídas as seguintes contas:

  • Obrigações sociais e trabalhistas
  • Obrigações com fornecedores
  • Obrigações fiscais
  • Empréstimos e financiamentos

Passivo não-circulante

O passivo não-circulante é composto por dívidas e obrigações com prazo de vencimento maior que um ano. Costumam fazer parte dessa conta os empréstimos de longo prazo e garantias de aportes;

São exemplos de passivos não circulantes as parcelas de dívidas de longo prazo – incluindo os juros e taxas contratuais; créditos provisionados para sócios, acionistas e executivos a serem quitados após 12 meses da data do balanço patrimonial; além das debêntures, entre outros compromissos.

Patrimônio Líquido no balanço patrimonial

O Patrimônio Líquido é a conta que registra os recursos diretamente investidos pelos sócios, além das reservas de capital realizadas. Além disso, é no Patrimônio Liquido que são contabilizados os resultados líquidos (lucro ou prejuízo) da empresa durante o exercício.

Ou seja, o Patrimônio Líquido compreende o valor dos recursos próprios da entidade. Seu cálculo é sempre igual a diferença entre o valor total do Ativo e o valor total do Passivo.

Logo, este item representa basicamente a riqueza dos acionistas da empresa, incluindo os recursos aportados na sociedade (capital social), reservas, ações em tesouraria e ajustes contábeis.

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Para que serve um Balanço Patrimonial?

O Balanço Patrimonial é a forma de representar, de forma qualitativa e quantitativa, tudo que uma empresa possui.

Por ser organizado em blocos e classificado em blocos por liquidez, fica claro visualizar essas informações – tanto de uma conta específica quanto da situação geral da empresa.

Por isso, com o Balanço Patrimonial é possível:

  • Saber a posição patrimonial da empresa, conhecendo quais são seus bens, direitos e obrigações em determinada época;
  • Avaliar as necessidades operacionais e financeiras do negócio;
  • Entender as fontes de recursos e despesas da empresa;
  • Determinar o desempenho da empresa, através da sua evolução histórica do seu patrimônio;
  • Auxiliar o planejamento fiscal e tributário da empresa;
  • Estimar o valor da empresa, seja através dos seus ativos ou do patrimônio líquido;
  • Possibilitar o pagamento de dividendos aos sócios e acionistas da empresa;
  • Fornecer informações úteis para investidores e demais interessados (stakeholders);

Vantagens de se utilizar o balanço patrimonial em uma análise

A principal utilidade do balanço patrimonial é identificar a situação financeira em um determinado momento. Apartir daí, é possível ter noções sobre a qualidade dos ativos da companhia e também quais são os passivos que podem afetar negativamente a empresa.

O balanço permite calcular, por exemplo a porcentagem de ativos que é financiada por capital próprio (patrimônio) ou por capital de terceiros. Essa diferenciação é chamada de estrutura de capital.

Para que o investidor obtenha lucros com seu projeto empresarial é fundamental que as fontes de recursos desse negócio tenham um custo menor que a rentabilidade de um projeto.

Então se um bom projeto, a luz de uma boa análise de futuros resultados, demonstrar que captar recursos de terceiros (passivos) é viável a fim de obter lucro com o investimento, a companhia poderá captar esse recurso para aumentar a seus lucros.

balanço na prática
Exemplo de balanço patrimonial

Desvantagens dos balanços patrimoniais

O balanço é apenas uma fotografia da empresa em um determinado momento e por isso, não reflete o desempenho financeiro da empresa e nem a sua capacidade de geração de caixa.

Além disso, essa imagem instantânea da empresa pode ser manipulada pela empresa, dependendo da sua necessidade em demonstrar certos resultados.

Se uma empresa desejar captar um empréstimo em melhores condições de pagamento, seus sócios podem injetar capital no balanço patrimonial para aumentar as garantias perante as instituições de financiamento.

A importância do balanço patrimonial

A leitura com os balanços patrimoniais de uma companhia é de suma importância para o investidor, bem como seus sócios em um determinado empreendimento.

Mesmo podendo ser entediante e enfadonha, é esse tipo de análise que vai garantir ao investidor a tranquilidade que ele precisa para tomar suas decisões, uma vez que os melhores investidores, que pensam no longo prazo, não estão em busca de aventuras no mercado de capitais, mas do retorno consistente com riscos controlados.

Desse modo, é completamente viável afirmar que a análise do balanço patrimonial, juntamente como dos demais indicadores importantes, é peça chave para os prognósticos necessários para o aumento da rentabilidade de um projeto.

Logo, quem investe em ações através da análise fundamentalista, tem no balanço uma ótima fonte de dados relativos à saúde da companhia, quando seu capital é aberto e suas informações contábeis são, portanto, públicas.

Por todas essas possibilidades, entender o que é balanço patrimonial acaba sendo primordial – tanto para os investidores quanto para o planejamento das próprias empresas.

Telegram Suno
Tiago Reis

Formado em administração de empresas pela FGV, com mais de 15 anos de experiência no mercado financeiro, foi sócio-fundador da Set Investimentos e é fundador da Suno Research.