Nhoque do investidor

Robert Kiyosaki, autor do best-seller internacional “Pai Rico, Pai Pobre”, afirma que os pobres terceirizam a educação de seus filhos através das escolas. Já os ricos educam seus filhos através de conversas na mesa de jantar. Não por acaso, a refeição em família é muito valorizada nos Estados Unidos – o país mais capitalista do mundo e um dos mais prósperos.

O principal feriado norte-americano é organizado em torno do jantar de Ação de Graças, de caráter supra-religioso. O ato de agradecer em comunhão tem um peso muito grande no sentimento de prosperidade de quem o pratica.

No Brasil, o Dia de Ação de Graças não é tão difundido como o Dia das Bruxas, por exemplo, mas há uma tradição centrada numa refeição coletiva que muitos brasileiros seguem, por causa da influência da imigração italiana no país. Trata-se do nhoque da fortuna, que deve ser saboreado a cada dia 29 do mês.

Antes da chegada do milho no continente europeu, que propiciou aos italianos desenvolverem a polenta a partir do século XVI, um dos pratos que alimentavam a população mais pobre era o nhoque – uma mistura de massa de farinha de trigo com água, enrolada em bolotas que com o passar do tempo foram ganhando sabores e ingredientes diferentes, com receitas baseadas no uso da batata na Itália e da mandioca no Brasil, além dos molhos e temperos variados.

A origem da lenda

Na velha península itálica, comer nhoque era um atestado de pobreza. Com a unificação tardia da Itália no século XIX, esse conceito começou a mudar quando uma lenda se difundiu de boca em boca, relatando um episódio que teria acontecido com São Pantaleão.

Ao que parece, o padroeiro dos médicos e das parteiras gostava de perambular pelos vilarejos feito um hippie – uma espécie de Jack Kerouac hagiografado.

Num dia 29 de dezembro, faminto, Pantaleão bateu na porta de um casal de idosos. Eles, muito pobres, não tinham o que oferecer para o jovem aventureiro, salvo dividir 21 bolotas de nhoque. Cada um naquela mesa saboreou sete delas. Em agradecimento, o santo milagreiro teria deixado moedas de ouro sob a louça dos pratos, antes de partir, sem que os anfitriões notassem.

Desde então, comer nhoque no dia 29 de cada mês tornou-se uma tradição na Itália e em países onde vivem seus descendentes. Neste misto de superstição com cultura popular, as pessoas se reúnem com amigos e familiares em casa ou nas mesas de restaurantes.

Alguns colocam dinheiro sob os pratos, que depois guardam até o mês seguinte. Outros comem sete bolotas de nhoque de pé, fazendo um desejo para cada uma. Fabricantes de massa e donos de cantinas trataram de incentivar tal costume até hoje.

O poder da palavra certa

No Brasil, o nhoque da fortuna também ficou conhecido como o nhoque da sorte. De certo modo, a palavra “sorte” não dá conta de todo o conceito implícito nesta tradição. Mesmo a palavra “fortuna”, ao menos no Brasil, não cumpre tal função.

Para os brasileiros, a palavra “fortuna” tem um significado restrito à riqueza financeira. Na Itália o entendimento de tal termo é mais amplo. Para os italianos, ser afortunado vai além de ter um bom saldo na conta corrente: também significa ter bons amigos, gozar de boa saúde e fazer parte de uma família próspera. Ser afortunado é como ser bem-aventurado.

Se levarmos esta definição de fortuna para o mercado financeiro, notaremos que o investidor que foca apenas no acúmulo de capital, descuidando de outros aspectos essenciais da sua vida – como a própria saúde e suas relações sociais – até pode atingir seu objetivo, mas então combinará a riqueza monetária com o pior tipo de pobreza: a pobreza de espírito.

Será que é só uma superstição?

É preciso ser pobre de espírito para tratar a tradição do nhoque da fortuna como mera superstição. De fato, não há qualquer base científica que ateste que comer nhoque no dia 29 de cada mês, por si só, traga prosperidade para o indivíduo.

No entanto, é preciso analisar o contexto e o simbolismo em torno deste costume. Se você consegue reunir amigos e familiares em volta de uma mesa para desejar fortuna para todos, em parte você e seus entes queridos já são afortunados, ou sequer teriam condições de saborear um dos pratos mais queridos da culinária italiana.

Não tem segredo

As receitas de nhoque, por mais variadas que sejam, são simples e não requerem chefes de cozinhas francesas para o seu preparo. Qualquer pessoa de boa vontade pode fazer. Nos investimentos para formação de uma carteira previdenciária ocorre algo semelhante: não existe uma fórmula supersofisticada, dominada por um grupo seleto de gurus de Wall Street.

A receita para o investidor de longo prazo é tão simples quanto preparar um nhoque: gaste menos do que receber, aporte o excedente da renda mensal em ativos geradores de renda passiva, leve em fogo brando ao longo dos anos – reaplicando os dividendos – e veja sua massa bruta de capital crescer a ponto de lhe prover a independência financeira.

Assim como qualquer pessoa pode comer nhoque uma vez por mês, é perfeitamente possível fazer pequenos aportes mensais na Bolsa de Valores, com vistas a obter ações de empresas sólidas e boas pagadores de dividendos, ou cotas de fundos imobiliários geridos por agentes competentes.

Dar antes de receber

Da lenda do nhoque da fortuna resgatamos um simbolismo presente no fato de que o casal de idosos ofertou parte de sua comida para São Pantaleão, para depois receber as moedas de ouro. Não foi o santo que chegou oferecendo as moedas em troca de uma refeição.

A fortuna do nhoque repartido chegou para pessoas de cabelos brancos. Pantaleão não presenteou gente jovem com moedas de ouro, sinalizando que a riqueza vem para pessoas mais experientes.

Com os investimentos ocorre algo semelhante: primeiro é necessário oferecer parte de seu capital para uma empresa ou fundo imobiliário, para depois receber os dividendos. Ninguém lhe oferece dividendos sem que você seja um parceiro leal.

Os mais jovens, que aportam recursos no mercado de capitais, podem não ver o retorno imediato de seus investimentos, mas se eles forem realizados nas condições certas, será uma questão de tempo.

De onde se conclui que aqueles que iniciam suas jornadas captando empréstimos para financiar a aquisição de passivos financeiros como casas de luxo, automóveis caros e padrão insustentável de consumo, raramente serão pessoas bem-sucedidas ou afortunadas.

O ritual da disciplina e da paciência

Quem segue a tradição do nhoque da fortuna acaba assimilando dois ingredientes auxiliares na receita do investidor de longo prazo: a disciplina e a paciência. No caso do nhoque: disciplina para respeitar a tradição, que só vale no dia 29, e paciência para esperar o próximo mês para se reunir novamente com os amigos e familiares.

Experimentar o nhoque da fortuna somente uma vez não vai dar certo. Para a lenda funcionar, é preciso repetir a tradição todo mês. É preciso renovar os votos de querer bem com regularidade, ou a fortuna não vem.

Já no mercado de capitais, a disciplina e a paciência são fundamentais para alcançar a independência financeira no longo prazo. Quando você faz um aporte mensal na Bolsa de Valores, com o sincero desejo de prover o melhor para você e sua família no futuro, em parte você já está sendo bem-sucedido.

Do mesmo modo, não basta fazer apenas um aporte no mercado de capitais para ver o que acontece. É preciso ter uma regularidade nos mesmos para a receita não desandar. Este processo contínuo leva anos para atingir bons resultados.

Saber escolher

Obviamente, é preciso conhecimento e experiência para selecionar os melhores ingredientes. Batatas podres devem ser evitadas e não se deve colocar farinha refinada demais na mistura. O molho deve ser feito com tomates frescos, pois os molhos industrializados são ácidos demais. Usar manjericão in natura para adornar o prato é melhor que polvilhar com orégano triturado e embalado em sachês.

Para escolher os ativos financeiros é a mesma coisa: fuja das empresas apodrecidas, evite o giro excessivo da sua carteira, prestigie fundos imobiliários donos de empreendimentos bem localizados e valorize negócios organizados como fortalezas baseadas em atividades perenes e pouco sujeitas à concorrência difusa.

Se você não gosta de nhoque ou é alérgico ao glúten da farinha, arranje outra desculpa para se reunir com os amigos ao menos uma vez por mês – faça o dia do sushi ou da salada de palmito, se for o caso. Que seus amigos também apreciem o prato e gostem de falar sobre investimentos. Então vocês poderão concluir que viver é uma dádiva que vai muito além de acumular dinheiro.

Invista que te fará bem

A Suno Research, embora não seja focada em receitas de nhoque, também lhe deseja a boa fortuna. Através da Assinatura Premium, entregamos relatórios sobre os melhores ativos financeiros para você considerar na sua busca pela independência financeira. Que sua jornada seja repleta de saúde e fraternidade.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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