O investidor parceiro

Uma das características que nos definem como seres humanos é que fazemos associações mentais o tempo todo. Relacionamos pessoas com eventos, cheiros com memórias da infância, sabores com viagens para um lugar distante.

Você vai até a praça de alimentação de um Shopping Center durante a semana e certamente verá algumas pessoas usando os crachás das empresas onde trabalham. Elas não são obrigadas a usar os crachás fora do ambiente do ofício, mas inconscientemente elas querem demonstrar que estão empregadas numa grande empresa, arrogando para si parte do prestígio da mesma.

As agências de publicidade e os desenvolvedores de marcas conhecem muito bem este apelo psicológico em seus propósitos comerciais.

Características por tabela

Quando a Nestlé contrata o cineasta George Clooney para ser o garoto propaganda da Nespresso, seus estrategistas querem emprestar para a cafeteira – e suas cápsulas de café em pó – o glamour relacionado ao galã de Hollywood que é desejado por mulheres de várias faixas etárias e admirado por homens das classes sociais que a empresa quer atingir.

E deste modo, tomar café de cápsula passa a ser algo elegante, charmoso e sedutor. Quem vai defender as qualidades do café torrado e moído na hora?

A Porsche investiu pesado, durante décadas, para colecionar vitórias sucessivas nas 24 Horas de Le Mans, a corrida de longa duração mais famosa do mundo. Com isso os alemães associaram sua marca à velocidade e resistência: dois atributos muito valorizados pelo público consumidor que aceita pagar o preço de uma casa para ter um exemplar deste carro esportivo na garagem.

Para o megainvestidor da Bolsa de Valores de São Paulo, Luiz Barsi Filho, quem compra um Porsche na verdade é um patrocinador da marca, justificando o motivo de ter comprado um carro chinês da Chery, por um décimo do preço de um Porsche. Para Barsi, um Chery cumpre as mesmas funções de um Porsche. A associação que Barsi faz de bens de consumo é outra. Para ele, a relação custo-benefício é mais importante.

Quem patrocina quem?

Falando em patrocínios, o futebol está repleto deles. Os esportes são atividades diretamente relacionadas com as paixões dos torcedores, que alimentam seus atletas e times favoritos consumindo uma gama de produtos de merchandising relacionada com os mesmos. As pessoas usam camisas de grandes clubes de futebol, pois desejam associar sua imagem com a imagem dos vencedores.

Uma das camisas mais caras do futebol mundial, em todos os sentidos, pertence ao Barcelona. Você pode comprar uma camisa oficial deste clube pelo preço de meio salário mínimo e sair caminhando por aí com a marca da Rakuten – empresa japonesa de comércio eletrônico – estampada no seu peito.

O contrato da Rakuten com o Barcelona, válido entre 2017 e 2021, terá rendido ao time catalão cerca de R$ 200 milhões por ano. Quanto você terá recebido no mesmo período? Nada. Se você pagou para ter uma camisa do Barcelona, você também patrocinou a agremiação, que em contrapartida lhe emprestará a sensação de vestir-se feito um competidor de ponta.

Ganhe você também

E se você pudesse comprar algo que lhe remunerasse de tempos em tempos?  Isso é possível? A resposta é sim, desde que você invista no mercado de capitais através da Bolsa de Valores. Quando você compra ações de uma empresa ou cotas de fundos imobiliários, existe a possibilidade de você receber dividendos a partir de tais operações.

Não é qualquer empresa que paga proventos recorrentes na forma de dividendos e juros de capital próprio, do mesmo modo que não são todos os fundos imobiliários que repassam de forma consistente, para seus cotistas, a renda esperada de grandes empreendimentos comerciais e residenciais, ou de papéis atrelados ao mercado imobiliário.

Para comprar ativos na Bolsa de Valores é preciso analisar de forma racional cada empresa ou fundo imobiliário. Ao operar no mercado de capitais, você também faz associações, com a diferença de que deve deixar de lado todos os aspectos emocionais que os publicitários exploram para lhe vender um perfume, por exemplo.

O desejo irracional

Este é o grande erro de muitos investidores na Bolsa de Valores, não restrito aos novatos: comportar-se no mercado financeiro do mesmo modo como se relacionam com clubes de futebol ou produtos divulgados por artistas. Ao invés de se fiarem na relação custo-benefício, proposta por Barsi anteriormente, querem aportar valores nas empresas mais valorizadas.

Então o governo anuncia que pretende privatizar a Eletrobrás, a maior empresa do setor energético brasileiro. A cotação do papel na Bolsa dispara, mas as pessoas continuam comprando. Elas associam tal valorização súbita ao seu capital, sem levarem em conta que a estatal – embora gigantesca – não paga dividendos para o governo há alguns anos, por causa de sua má gestão.

Assim que a onda especulativa sobre esta ação passar, a cotação vai cair. Talvez seja o momento certo para o investidor consciente tornar-se parceiro da Eletrobrás, sabendo que levará alguns anos para os novos controladores recuperarem a capacidade da empresa em gerar lucros e proventos.

Namoro ou amizade?

O investidor parceiro – ao contrário daqueles que adotam práticas especulativas de compra e venda frequente de ações – estuda pacientemente cada empresa ou fundo imobiliário antes de realizar seus aportes. Sua intenção é permanecer com os ativos financeiros em sua carteira de investimentos por tempo indeterminado.

Seria como iniciar um namoro com alguém mediante intenções claras de casamento. Ninguém se casa pensando em divórcio. O casamento é uma das associações mais difundidas na sociedade. E mesmo nos matrimônios entre pessoas, o romantismo não deve ser o carro chefe na decisão de firmar compromisso.

Quem afirma isso é o mitólogo Joseph Campbell. Em 1987, pouco antes de falecer, ele gravou uma série de entrevistas com o jornalista Bill Moyers, que se converteram num documentário para a TV e num livro aclamado pela crítica: “O Poder do Mito”. Para Campbell, o casamento não é um caso de amor, que acaba cedo ou tarde, mas um compromisso baseado em lealdade.

É a lealdade, mais do que um impulso romântico, que segura um contrato social, como de fato o matrimônio é considerado legalmente. Discutir tal conceito com seu par pode não ser apropriado para o namoro, mas isto faz muito sentido no mercado financeiro, onde os agentes devem ser despidos de paixões.

A palavra de ordem é “lealdade”

Quem tem a mentalidade de investidor parceiro, busca associações com empresas e fundos que lhe são leais. Quando um investidor compra ações de uma empresa, ele reforça seu valor de mercado. Em contrapartida a empresa lhe remunera com proventos. Neste casamento o divórcio pode acontecer, por exemplo, quando a empresa tem seus fundamentos deteriorados.

Nem sempre associar-se com grandes marcas da Bolsa de Valores é uma boa ideia. As ações de grandes marcas, neste caso, ganham um nome específico: são as “Blue Chips”. Empresas como Petrobrás e Gerdau são como o Barcelona ou a Porsche da Bolsa de Valores de São Paulo.

Qual é o problema de comprar ações “Blue Chips” sem uma análise fundamentalista? São ações que podem estar com as cotações próximas do pico de valorização. Neste caso há a tendência de queda em algum momento, acabando com a paixão pelo papel.

O valor alto da cotação também pode se refletir no “Dividend Yield” baixo. Este indicador revela o quanto uma empresa, ou fundo, pode remunerar o investidor em relação ao valor aportado no ativo.

Existem ativos com o “Dividend Yield” em torno de 10%. Neste caso, se você investir, por exemplo, R$ 100 mil nas ações ou cotas, terá um retorno anual próximo de R$ 10 mil, fora a eventual valorização do papel. “Blue Chips” costumam pagar pouco ou nenhum dividendo para quem compra os ativos tardiamente.

O tempo é implacável

Quanto mais tempo o investidor parceiro ficar casado com um ativo de qualidade, mais o poder desta associação lhe beneficiará por causa dos juros compostos, quando o valor recebido na forma de proventos é reinvestido para gerar mais proventos.

Bolsa e grife nem sempre combinam

Retornando ao apelo que as grandes marcas exercem sobre nós, podemos citar o caso do banco Itaú, que todos conhecem. Suas ações preferenciais estão disponíveis na Bolsa de Valores de São Paulo através do código ITUB4, cuja cotação fechou em R$ 40,42 em 22 de agosto de 2017. Quem comprou ações do Itaú neste dia terá a expectativa de receber 4,5% do montante aportado uma vez por ano, na forma de dividendos.

O que poucas pessoas fora do ambiente do mercado de capitais sabem, é que existe uma empresa chamada Itaúsa, que é a controladora do Itaú. No mesmo dia, sua ação preferencial, negociada como ITSA4, fechou em R$ 10,03 – quatro vezes menos que o valor da ação do Itaú. Porém, o “Dividend Yield” da Itaúsa é próximo de 6% nestas condições. Nada mal para quem sempre depositou dinheiro na poupança.

O investidor parceiro que compra ações da Itaúsa não sai por aí com um boné da empresa. A Itaúsa não tem uma grife de roupas com sua marca. Mas o poder da associação está igualmente implícito: não com glamour ou status social, mas com uma ótima relação custo-benefício.

Parcerias que se fortalecem

Quem se torna parceiro de fundos imobiliários e empresas sólidas e competentes no mercado de capitais, indiretamente está se empoderando, não de modo subjetivo ou abstrato, mas de modo efetivo.

A Suno Research quer ser a sua parceira na escolha dos melhores ativos da Bolsa. Você faz a Assinatura Premium. Em troca lhe entregamos relatórios elaborados por analistas de investimentos de longo prazo, sob o estigma da lealdade.

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Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor de dois livros, é adepto do “Value Investing”. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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