Por: Jean Tosetto

O Investidor Aplicado

As palavras guardam significados e o modo como elas são pronunciadas ou escritas influenciam o comportamento das pessoas que as proferem, ouvem, redigem ou leem. Como reza o ditado, “a palavra tem poder”.

Deste modo, pessoas que povoam seu vocabulário com palavras negativas ficam associadas a coisas negativas. Um sujeito que reclama demais e de tudo, mesmo que tenha razão na maior parte das vezes, ganha a fama de chato.

O contrário também é válido para aqueles que carregam nas palavras de gratidão e generosidade, nos elogios sinceros e em termos que emanam pensamentos positivos. Queremos estar perto de gente assim, não é mesmo?

No ambiente dos investimentos em renda variável, relacionado ao mercado de capitais, há um vocabulário específico pelo qual, conversando com as pessoas, conseguimos identificar se elas são novatas na Bolsa ou se já possuem alguma experiência, bem como se elas possuem um perfil de especulador ou de investidor.

Muitas pessoas ainda confundem as duas coisas. Elas acreditam que investir e especular são sinônimos. Ao pé da letra, e na prática, não são. A especulação está associada ao ganho rápido e à volatilidade do mercado: quanto mais volátil for uma ação, melhor será para o especulador consciente ou não.

Existe a palavra “investimentação” para se relacionar ao termo “especulação”? Não, ao menos na linguagem formal não existe, pois não são conceitos iguais. Investimento é um conceito relacionado ao longo prazo quase que por definição. Um investimento ocorre quando há crença fundamentada de que haverá projeção de retorno futuro, independente do fator “sorte”.

Outro conceito que confundem muito com “investimento” é “aplicação”. Aplicar não é a mesma coisa que investir. Você pode fazer uma aplicação num banco, mas nunca um investimento.

Quando você deposita seu dinheiro em algum produto bancário, é o banco que usa seu dinheiro para investir, emprestando ele para terceiros, com juros altos. O banco fica com o valor principal do retorno do investimento e lhe repassa aquilo que foi prometido no ato da aplicação, conhecida também como renda fixa. Por isso, o retorno de uma aplicação bancária é muito pequeno perto do retorno do investimento que o banco faz com seu dinheiro.

Em outras palavras: quando você empresta dinheiro para o banco, você faz uma aplicação. Quando o banco reempresta seu dinheiro para outros, o banco está investindo na capacidade dos outros para honrar uma dívida com juros mais altos.

Lembremos que um investimento ocorre quando há crença fundamentada de que haverá projeção de retorno futuro, independente do fator “sorte”. Portanto, quando um banco empresta dinheiro para uma pessoa física ou jurídica, ele está oferecendo um “crédito”. Isto significa que tal pessoa “tem crédito na praça”.

Não é interessante? “Crédito” e “crença” são palavras convergentes, que de certo modo aproximam as atividades financeiras das atividades religiosas.

Alguns investidores buscam na religião a disciplina necessária para manter seus investimentos em dia. Disciplina para poupar e paciência para esperar. Comprar ações por um Home Broker não deixa de ser um ritual. As sedes físicas das grandes Bolsas de Valores do mundo não deixam de se parecer com Catedrais.

Investidores e crentes esperam por dias melhores, guardadas as devidas proporções. Ambos nutrem sentimentos de esperança, embora tais sentimentos possam ser antagônicos nas questões materiais e espirituais.

Mas voltemos ao verbo “aplicar”. Acabamos de relacionar ele com o baixo retorno financeiro oriundo das aplicações bancárias. Porém, em outro contexto estamos diante de um conceito de valor muito positivo. Quando afirmamos, por exemplo, que Fulano de Tal é um sujeito aplicado nos estudos, isso quer dizer que ele é empenhado em aprender.

Aqui chegamos ao diferencial entre “especulação” e “aplicação”. Não existe alguém que seja um “investidor especulador”: ou a pessoa investe ou especula. Mas existe a figura do “investidor aplicado”: trata-se do investidor empenhado, que todo mês reserva parte de seus ganhos para investir no futuro, esperando por dias melhores.

Se alguém é qualificado como “investidor aplicado”, é pressuposto que seja alguém com disciplina e paciência para investir no longo prazo.

Nem todos nascem com talento para exercer um ofício e isto não é uma escolha individual. Mas qualquer um pode escolher ser aplicado numa atividade, sendo alguém que precisa se empenhar, ou seja, se esforçar numa tarefa para desenvolvê-la num patamar desejado.

Analisar empresas de capital aberto – e fundos imobiliários – não é uma ocupação trivial, mas se fosse uma atividade que exigisse talento inato, o mercado de capitais seria parecido com um clube fechado. Felizmente não é – por uma simples razão: o mercado de capitais é aberto para gente empenhada.

Ser aplicado em investimentos de renda variável é dedicar tempo para a leitura e para o estudo. Significa acessar mais os balanços trimestrais das empresas e os relatórios dos fundos imobiliários, e menos o Home Broker. Significa acompanhar mais os fundamentos de cada ativo presente na carteira de investimentos, e menos as suas cotações diárias.

Os melhores investidores não concentram seu capital em aplicações bancárias, mas todos eles são aplicados.

Jean Tosetto

Arquiteto e urbanista formado pela FAU PUC de Campinas, tem escritório próprio desde 1999. Autor e editor de livros, é adepto do Value Investing. Colabora com a Suno Research desde janeiro de 2017.

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